Vivemos num mundo tramado: em primeiro lugar, este mundo conspira contra a amizade. Há dados que indicam que ainda vivemos confinados e os mais jovens têm tempos médios baixíssimos de estarem rosto a rosto com amigos. No Financial Times, John Burn-Murdoch escreveu: “num dia normal de 2023, um em cada dez jovens americanos com idades compreendidas entre os 23 e os 29 anos não passou um único minuto a interagir pessoalmente com outra pessoa”. Aaron Renn, outro americano, olha para estes números e lê na perda de ligação física aos outros um incentivo à radicalização ideológica. Faz sentido: quando os outros não estão perto, a política pode afastá-los mais ainda. A amizade anda tão ou mais cara do que o combustível.

Sei o que isso é. Apesar de gostar dos meus amigos, o apelo do escapismo é grande e volta e meia imagino que a minha vida vai melhorar quando me livrar dos outros. Os outros são tão bons a fazer-nos a vida difícil que damos por nós a achar que se nos mais dedicarmos mais a nós mesmos tudo ficará mais fácil. O segredo para uma vida boa para este mundo tramado é dispensar-nos dos riscos pouco higiénicos das amizades. Julgávamos que a pandemia estava ultrapassada mas não. O confinamento ganhou.

Para quem, como eu, tentar encarar o assunto com fé, procurará no texto sagrado alguma inspiração. Cristo gastou muito tempo com gente e tempo valioso que foi usado desconfinado. Encontros cara a cara em espaços abertos e fechados. Gente a chegar e gente a partir. E Jesus nem sequer se limitava à gente com quem valia a pena gastar tempo. Quem é cristão tem no exemplo do Nosso Senhor um contributo por vezes doloroso para investir no oneroso mercado da amizade, daquela praticada sem máscaras ou ecrãs digitais que mantêm os germes à porta. O mundo dificulta a amizade mas a fé manda-nos abrir a porta a ela.

Vivemos num mundo tramado: em segundo lugar, este mundo conspira contra os amigos que temos. A pior coisa que nos pode acontecer é termos amizade com gente errada. Se ter amizade já é complicado, tudo ainda se complica mais dependendo dos amigos que arranjamos. O mundo está atento aos nossos amigos e, se houver qualquer passo em falso da nossa parte em relação à escolha recomendada, assanha-se connosco. Ter amigos já é difícil mas ter os amigos errados é o pior prejuízo de todos.

Sei o que isso é. Raramente tenho levado tanto nas orelhas como quando fui visto com pessoas erradas. Já tive pessoas educadíssimas e insuspeitas e arrasar publicamente comigo porque me dei ao luxo de comer com pecadores, porque me dei ao luxo de ouvir maus da fita, porque me dei ao luxo de não respeitar as linhas vermelhas da sociabilização indicada. O luxo dos amigos errados não será tolerado. O segredo para uma vida boa para este mundo tramado é comer em privado e sem a companhia da gente errada. O confinamento ganhou.

Para quem, como eu, tentar encarar o assunto com fé, procurará no texto sagrado alguma inspiração. Há um certo alívio quando nos apercebemos de que Jesus foi amigo da gente errada. Como é que o homem mais certo que já pisou a terra se dava com gente errada? Há uma sugestão no facto: a amizade, bem vistas as coisas, nunca foi a convergência natural do que está bem. Pelo contrário. A amizade é uma espécie de revolta contra a maneira mais recomendável de nos relacionarmos com os outros. E é triste que a amizade tantas vezes seja mal interpretada: é encarada como um encontro de gente que encaixa. A amizade não tem nada a ver com isso.

Sartre dizia que o inferno são os outros e tem razão na medida em que a amizade é o triunfo inesperado sobre esse mesmo inferno. Quando temos um amigo verdadeiro não se ouve qualquer click de encaixe. Diria até que o barulho é um começo subtil de desmoronamento. O mundo tramado, que nos quer confinados sem grandes amizades e, quando muito, com as amizades certas, trama-se. Quanto tenho um amigo sei que ele é amigo precisamente porque ele é o amigo errado: encontro o outro infernal ao ar livre, com o céu acima de nós.