O norte-americano Jay Miller passou mais de 60 horas em viagem e atravessou quatro continentes para conseguir regressar a casa, depois de ter ficado retido no Qatar devido ao conflito militar na região. O médico, de 45 anos, tinha deixado a Índia uma semana antes da mulher, Swathi Narra, e da filha de cinco anos, Devi, para regressar ao trabalho. A família continuava de férias quando o voo de Miller de Doha para Dallas foi obrigado a voltar para trás cerca de uma hora após a descolagem, no dia 28 de fevereiro — o dia do primeiro ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão.

Após o ataque inicial ao Irão, vários países do Golfo fecharam o espaço aéreo e as companhias cancelaram todos os voos, deixando dezenas de milhares de passageiros presos e criando um foco de instabilidade no setor da aviação.

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Quando o avião regressou a Doha, capital do Qatar, Miller ouviu explosões tão fortes que as janelas do quarto de hotel chegaram a tremer. “Foi um daqueles momentos em que se diz à nossa mulher que a amamos. E foi o que eu fiz“, contou ao The New York Times.

Durante cinco dias, Miller esteve sozinho num hotel em Doha, enquanto tentava encontrar uma forma de sair da região. Alguns hóspedes, assustados com as explosões, chegaram a passar o dia inteiro no átrio do hotel. O médico tentou contactar o Departamento de Estado dos Estados Unidos e autarcas do estado do Louisiana, mas não obteve resposta. Quando o Governo norte-americano avisou que os viajantes não deveriam contar com voos de repatriamento, decidiu procurar uma solução por conta própria.

Com a ajuda da mulher, que continuava na Índia, começou a procurar voos para qualquer lugar longe do Médio Oriente. Como o Aeroporto de Doha estava fechado, descobriu que alguns voos ainda partiam de Riade, na Arábia Saudita, a cerca de nove horas de carro. Conseguiu um lugar num voo de Riade para Adis Abeba, na Etiópia, e pediu rapidamente vistos para os dois países.

“Sentimos que tínhamos de seguir em frente por conta própria. Não havia tempo nem circunstâncias para esperar por alguém“, disse o médico, acrescentando que um itinerário que inicialmente parecia “tão louco e improvável” já não o era.

Para chegar a Riade, Miller recorreu ao serviço de vários motoristas: um para o levar até à fronteira, outro para tratar das passagens e visto e um terceiro para o transportar até ao aeroporto. No total, os três serviços custaram cerca de três mil dólares (2.500 euros), contou ao New York Times.

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Ao chegar à capital saudita, encontrou uma cidade vazia e um aeroporto sem a tradicional azáfama. Durante o momento em que esperava pela abertura da porta de embarque, Miller confessou estar “desesperado, com medo e ansiedade para simplesmente fugir e sair dali”.

Depois de aterrar na Etiópia, esperavam-no cerca de 15 horas até ao próximo voo. Apesar do cansaço, aproveitou para visitar o Museu Nacional da Etiópia, onde está exposto o famoso esqueleto de Lucy, um antepassado humano com cerca de 3,2 milhões de anos.

Depois de visitar Adis Abeba e de beber o famoso café etíope, partiu para Chicago. O voo da Ethiopian Airways com destino aos Estados Unidos ainda fez uma escala na Europa para reabastecimento. Esteve seis horas e meia em Roma, mas não desembarcou do avião.

Quase uma semana depois de o primeiro voo ter sido forçado a regressar a Doha, Miller estava finalmente no seu país. No aeroporto O’Hare, passou pela imigração e ainda esperou três horas por um voo da United Airlines para Nova Orleães. Mesmo no último voo houve um susto: ao sair da porta de embarque, o avião bateu num carrinho de bagagens, mas acabou por conseguir partir.

No dia 7 de março, Jay Miller chegou a casa, depois de ter gastado mais de dez mil dólares (cerca de 8.500 euros) em viagens. Abriu uma cerveja, bebeu-a e dormiu 16 horas. Nessa mesma noite, o Departamento de Estado dos Estados Unidos devolveu-lhe finalmente a chamada que tinha feito há uma semana, mas o médico já estava a dormir.