O sintético foi um problema. Porque a bola salta sempre mais um pouco quando muda de portador, porque a receção obriga sempre a mais um toque antes da decisão para quem não está habituado, porque o conceito de jogar ao primeiro toque acaba por esfumar-se pela falta de hábito. Também houve questões numa vertente mais analítica: a forma como Berg conseguiu encontrar espaços para construir jogo, a maneira como Evjen foi explorando as desmarcações de rutura na zona entre central e lateral nem sempre com acompanhamento da cobertura, as movimentações da esquerda para dentro de Hauge que eram previsíveis mas nem por isso fáceis de travar. O Bodö/Glimt, a grande revelação nas provas europeias agora na Champions e na época passada ao chegar às meias da Liga Europa, conseguia ser uma equipa superlativa. Mas teria limites?

Sporting-Bodö/Glimt. Pote aumenta a vantagem leonina (2-0, 61′)

Esse era o principal desafio do Sporting. Uma derrota pesada por 3-0 era mais de meio caminho para haver uma eliminação mas alguns fatores mudavam. Os leões jogavam em Alvalade (apesar da hora menos habitual para um encontro a meio da semana), tinham as referências do campo e da relva natural, já poderiam contar com Maxi Araújo – que se tornou uma peça vital a vários níveis na identidade e ideia de jogo verde e brancas com o passar do tempo – e Pedro Gonçalves, beneficiaram de um atípico período de descanso sem jogos entre as duas partidas, tinham essa motivação de deixar uma imagem diferente daquilo que ficara na Noruega chegando ou não para inverter a eliminatória. A par disso, havia aquelas referências do imaginário de quem tem boas memórias dos meses de março, da goleada de 1964 ao Manchester United que valeu não só a remontada depois do 1-4 em Old Trafford como culminou na conquista da Taça dos Vencedores das Taças como as passagens na Liga Europa frente a Manchester City em 2012 (o golo de calcanhar de Xandão em Alvalade fez a diferença) e Arsenal em 2023 (com o chapéu quase do meio-campo de Pote).

“Eu acredito muito. Disse-o logo no final do outro jogo. Sei que é difícil. A dificuldade já é grande dado o intervalo de 90 minutos e de estarmos a perder 3-0 mas acredito muito na resiliência e na capacidade desta equipa ao longo da época. Não é um jogo que define a equipa. Tudo o resto, que vem para trás, é que a define. A equipa tem dado essa demonstração e quer dar outra imagem, mostrar que é capaz de continuar a marcar a história do Sporting. Sabemos que temos de fazer um jogo quase perfeito e vamos à procura disso. A ambição deles é enorme e têm-na demonstrado desde que cheguei ao Sporting. Se há equipa que é capaz pela resiliência e capacidade de resposta é a nossa. Se há estádio onde é capaz de acontecer coisas extraordinárias é o nosso. Isso deve-se muito à força extraordinária dos adeptos. Amanhã [Terça-feira], tentaremos todos juntos continuar a crescer nessa história positiva do Sporting”, tinha apontado Rui Borges antes da partida.

“Contestação após a derrota na Noruega? É natural, estamos num grande clube e a exigência é enorme. Queremos ganhar e a exigência faz parte. Nem eles estavam felizes, nem nós. Não éramos os melhores do mundo quando ganhámos ao PSG, não somos os piores quando perdemos com o Bodö. Foi um jogo menos conseguido mas que não apaga tudo aquilo de que já fomos capazes. Vamos demonstrar a grande equipa que somos. Apercebi-me do ruído mas faz parte”, acrescentara, antes de se “defender” das críticas de falta de ambição como técnico e de falta de atitude de alguns elementos na primeira mão.

“Eles não ganharam só ao Sporting, ganharam a equipas candidatas. Estamos a falar de uma equipa verdadeiramente capaz. Não me surpreendeu nesse sentido. Mais surpreso, se calhar, ficámos por não termos sido capazes de dar uma resposta diferente. Tem muito a ver com a intensidade com que fazemos a tarefa. Não vivo de estatutos, vivo de trabalho. Estatuto e aparência não é para mim, estou no Sporting graças à capacidade que tivemos de aqui chegar e queremos marcar a história do Sporting. Sabotagem? Cada um vê as coisas à sua maneira. Não foi só dos avançados ou dos primeiros homens de pressão que não houve a intensidade correta mas sim de forma coletiva. Neste grupo não se gere o individual, gere-se o coletivo. É nisso que nos focamos. É uma grande equipa, somos muito amigos. Quando ganham, ganham todos, quando perdem, perdem todos. Vai expor-nos em alguns momentos mas o acreditar é tão grande que tenho a certeza que darão uma resposta fantástica contra uma grande equipa”, defendera, neste caso olhando também a análise do selecionador norueguês às primeiras zonas de pressão leoninas no jogo.

Da primeira mão sobravam dois dados estatísticos que acabariam por ser a chave de uma possível redenção (ou confirmação da superioridade dos escandinavos). Por um lado, o posicionamento médio dos jogadores do Sporting demasiado concentrado no corredor central quando foi pelas laterais que conseguiu colocar o seu adversário em posições mais desconfortáveis pelas alas e na profundidade. Por outro, os dez quilómetros a mais percorridos pelos jogadores do conjunto norueguês no jogo – o que significa quase jogar com mais um elemento ao longo de 90 minutos. Agora, tudo mudou. E mudou a todos os níveis, quase como se aquela equipa que perdeu por 3-0 na semana passada fosse outra. Sem perder a razão, o Sporting foi coração e deixou que a emoção conduzisse uma noite para a história: cada corte levava a uma celebração, cada sprint era um desafio, cada golo levava vários jogadores às lágrimas. Rui Borges colocou Knutsen “no bolso” em termos táticos, a atitude dos jogadores verde e brancos mudou de forma radical e, durante 120 minutos, entre vários destaques, jogadores como Maxi Araújo, Fresneda ou Hjulmand deram razão a José Alvalade quando, nesse longínquo ano de 1906, escolheu um leão rampante “para um grande clube, tão grande como os maiores da Europa”. Foi isso, com a força de Alvalade a “empurrar”, que se viu numa noite histórica.

Ficha de jogo

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Sporting-Bodö/Glimt, 5-0 (a.p.)

2.ª mão dos oitavos da Liga dos Campeões

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Sandro Schärer (Suíça)

Sporting: Rui Silva; Iván Fresneda, Eduardo Quaresma (Debast, 64′), Gonçalo Inácio, Maxi Araújo (Diomande, 110′); Morten Hjulmand, Morita (Daniel Bragança, 68′); Geny Catamo, Francisco Trincão (Faye, 110′), Pedro Gonçalves (Nuno Santos, 68′) e Luis Suárez (Rafael Nel, 116′)

Suplentes não utilizados: João Virginia, Diego Callai, Vagiannidis, João Simões, Flávio Gonçalves e Mauro Couto

Treinador: Rui Borges

Bodö/Glimt: Haikin; Sjövold, Björtuft, Gundersen (Aleesami, 106′), Bjørkan; Evjen (Bassi, 85′), Berg, Fet (Auklend, 90+1′); Blomberg (Määttä, 85′), Hauge (Saltnes, 79′) e Högh (Helmersen, 79′)

Suplentes não utilizados: Faye Lund, Sjong , Nielsen, Klynge, Riisaes e Mikkelsen

Treinador: Kjetil Knutsen

Golos: Gonçalo Inácio (34′), Pedro Gonçalves (61′), Luis Suárez (78′, g.p.), Maxi Araújo (92′) e Rafael Nel (120+1′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Blomberg (5′), Hjulmand (46′), Högh (68′), Fresneda (74′), Nuno Santos (104′), Bassi (105+3′) e Saltnes (118′)

A entrada foi tudo o que Rui Borges tinha pedido: agressividade, tentativa de rapidez de movimentos quando havia linhas de passe, intensidade em todas as ações, tendência quase natural para fazer cair os momentos de decisão nos corredores laterais e com isso tirar os noruegueses da zona de conforto do “bloqueio central” da zona de construção. Eram autênticos leões à solta em Alvalade que só falhavam no momento de marcar com cinco remates e quatro oportunidades de golo nos 12 minutos iniciais. Francisco Trincão desviou de cabeça por cima sozinho na área depois de uma jogada a todo o gás de Maxi Araújo pela esquerda (3′), o mesmo Trincão desviou com um toque subtil por cima do guarda-redes um passe de Geny Catamo mas ao lado (4′), Pedro Gonçalves teve um remate em jeito após uma segunda bola para defesa de Haikin (8′), Luis Suárez conseguiu ir buscar um passe longo de Maxi na profundidade para obrigar Haikin a nova defesa (10′) e ainda houve um lance em que Pedro Gonçalves não encostou na pequena área uma assistência de Maxi Araújo por poucos centímetros (12′). O Bodö/Glimt mal conseguia sair do seu meio-campo e só defendia.

As cavalgadas do quarto de hora inicial foram depois perdendo alguma cadência, também por um melhor encaixe que os noruegueses iram conseguindo sem bola, mas nem por isso o Sporting deixava de encontrar as melhores respostas nos caminhos até à baliza. Quando fechavam, surgia a meia distância: Trincão teve um remate em jeito de surpresa na zona central que por pouco não baixou a tempo de surpreender Haikin (16′), Pedro Gonçalves arriscou também de fora numa das incursões pelo meio mas a bola foi travada de forma segura pelo guarda-redes dos noruegueses (18′). Högh, na única vez em que a saída em transição conseguiu surpreender os movimentos de “regresso” dos leões, teve uma tentativa muito fraca e ao lado mas todo o jogo se desenrolava no meio-campo dos noruegueses, entre mais um remate de Suárez desenquadrado (31′). Às vezes a vontade até atrapalhava e o passar dos minutos sem golos só favorecia o Bodö/Glimt mas o 1-0 renovou a esperança leonina, com Gonçalo Inácio a desviar de cabeça um canto à direita de Trincão (34′).

Ainda houve um susto. Ou melhor, para os mais atentos, dois. O mais visível, na sequência de um canto de Berg à direita, foi desvio de cabeça na trave de Björtuft, que ainda viu a bola bater depois caprichosamente outra vez no ferro antes de ser aliviada da área (42′). O outro, menos detetável, foi a cara de Trincão depois de fazer o corte que originou a bola parada na sequência de mais um sprint. Os jogadores leoninos, que ainda viram Pedro Gonçalves ter mais um remate para defesa de Haikin (38′), tinham tudo o que havia e não havia em busca da redenção mas a falta de eficácia na finalização ainda deixava esse “milagre” à distância de dois golos. Foram 15 remates com cinco enquadrados, foram 24 toques na bola na área contrária, foi a inesperada percentagem de 72% de posse, foram os cinco cantos, foi apenas um golo. Esse era o único problema.

A segunda parte não demorou a mostrar outro filme. Geny Catamo, aproveitando uma bola ao segundo poste na sequência de um cruzamento de Morita desviado ainda de cabeça de Luis Suárez, ainda acertou em jeito nas malhas laterais (47′) mas percebia-se que o Bodö/Glimt estava melhor, na capacidade de colocar de novo Berg em jogo na primeira fase de construção e na forma como fazia compensações sem bola nos corredores laterais. Berg de livre direto (47′) e Fet de bola corrida (49′) tiveram os dois primeiros remates para defesas de Rui Silva, Geny Catamo (51′) e Pedro Gonçalves (53′) obrigaram Haikin a ir ao relvado segurar sem grandes dificuldades mas o encontro estava a ficar mais partido, com todas as oportunidades e riscos que isso trazia a um Sporting de novo perto do golo num desvio de Hjulmand por cima após canto (56′). Não foi aí, foi pouco depois e num grande lance coletivo: grande passe de Geny Catamo para Luis Suárez ir ganhar a profundidade, cruzamento rasteiro ao poste contrário e desvio de Pedro Gonçalves para o 2-0 (61′).

As dificuldades físicas dos jogadores que têm menos minutos nesta fase da época começavam a sentir-se, Rui Borges desta vez não esperou: Debast entrou para o lugar de Eduardo Quaresma, pouco depois Morita e Pedro Gonçalves deram lugar a Daniel Bragança e Nuno Santos e toda uma dinâmica foi reativada no plano ofensivo para o “bocadinho” que faltava. Debast teve um remate fortíssimo de fora para defesa de Haikin que foi muito importante para que os médios não ficassem acantonados sem bola na área sem bola (70′), Iván Fresneda conseguiu aquilo que faltava numa jogada de insistência depois de ter corrido quilómetros sem fio e, na sequência de um corte de Björkan com o braço na área, Luis Suárez deixou tudo empatado de penálti (78′). O vulcão de Alvalade estava em completa erupção e pior ficou nos minutos seguintes, quando Suárez atirou para defesa de Haikin para canto (80′), Trincão teve outra meia distância para nova grande defesa de Haikin para canto (80′) e Nuno Santos teve um remate de fora que bateu no poste (83′). Aquilo que parecia impossível já se tinha tornado algo “provável” pelo andamento do jogo… mas apenas em tempo extra.

Objetivamente, podia ser um problema. Porquê? Apesar de estar por cima do jogo em termos anímicos, havia alguns jogadores que iam dando demasiados sinais de fadiga por tudo o que tinham corrido. O que mudou? A entrada de leão sempre a explorar os corredores laterais, com Daniel Bragança a ir buscar bem o espaço entre lateral e central após passe de Nuno Santos, a cruzar rasteiro para Trincão e, sem hipóteses de rematar, com o internacional português a assistir Maxi Araújo na área para o remate de pé esquerdo que fez o 4-0 (92′). A partir daí, o jogo estava como o Sporting queria. A partir daí, o Sporting foi ainda melhor. Mesmo tendo jogadores presos por arames que tinham de ir saindo ou doseando o esforço como Maxi, Trincão, Luis Suárez ou Geny Catamo, os leões geriram como nunca a vantagem, conseguiram passar os últimos cinco minutos no meio-campo contrário e ainda marcaram mesmo o quinto golo, com Daniel Bragança a ter mais uma boa recuperação em zona adiantada antes de fazer a assistência para Rafael Nel fuzilar Haikin (120+1′).