O setor do leite atravessa um momento difícil, com o mercado a ser ‘inundado’ de produtos importados a preços baixos. O diagnóstico é do grupo Lactogal, que detém marcas como a Mimosa e a Vigor. A crise começou no último verão, detalha Daniela Brandão, administradora executiva da Lactogal, e estende-se a todo o continente europeu. “A Europa deixou de ser competitiva face a geografias como a Nova Zelândia e os Estados Unidos”, sobretudo no queijo. “Neste momento não conseguimos combater os preços baixos praticados na importação”.
As importações em causa dizem respeito a queijos de grande volume, sobretudo fatiados, consumidos, por exemplo, pela restauração e hotelaria. Mas também de manteigas. “Os EUA estão a ter um grande impacto. Houve uma alteração que nunca tínhamos visto, passámos a ser importadores de produtos norte-americanos, sobretudo queijo e manteiga. Assistimos a uma descida do preço da manteiga de sete para cinco [euros] em duas semanas. Foi uma brutalidade o que aconteceu no final do verão”, relatou a administradora da Lactogal esta terça-feira num encontro com jornalistas.
A origem da crise é complexa e resulta de vários fatores. Segundo a administradora da Lactogal, “foi essencialmente a baixa dos custos com a alimentação animal” que motivou esta disrupção no mercado, porque tornou mais barato produzir um litro de leite. “No último ano os custos de produzir um litro de leite e as condições climáticas nas principais zonas de produção foram muito positivas”. A seguir, prossegue, aconteceu “o efeito Trump, que teve um impacto muito grande”, devido à imposição de tarifas.
Outro fator tem que ver com “um grande aumento na procura de proteína a nível global”, explica Daniela Brandão. “É um fenómeno incrível. Estivemos anos a achar que os lácteos estavam ameaçados e nos últimos anos, sobretudo nos EUA, a proteína do soro [de leite], ou seja, um subproduto, passou a ter uma grande valorização nos mercados globais, que teve este impacto no valor do queijo. As indústrias, na Europa e nos EUA, passaram a investir em novas unidades de produção de queijo” e a vendê-lo a um preço baixo, “porque compensa com o subproduto do soro, da proteína. Este aumento da procura da proteína a nível global fez com que o preço do queijo e da gordura tenha descido abruptamente e que a Europa tenha passado a importar estes produtos, que habitualmente exportava. Este desequilíbrio entre oferta e procura acabou por se traduzir numa quebra dos preços à produção”.
No início do ano, a Lactogal baixou em três cêntimos por litro o preço que paga ao produtor. A empresa tem mecanismos de estabilização de preços, através de dois indicadores corporativos que acompanha mensalmente: um é a formação do preço do leite, o outro é um indicador de mercado que compara com produtores de referência e permite ver se a Lactogal está acima ou abaixo do mercado. “O objetivo é dar transparência ao setor”. Segundo os responsáveis do grupo, se esta fórmula tivesse sido aplicada, os preços ao produtor teriam baixado seis cêntimos, e não três. “Um cêntimo ao produtor são oito milhões de euros na Lactogal”, aponta Daniela Brandão.
A administradora dá ainda o exemplo da neerlandesa FrieslandCampina, uma das maiores exportadoras europeias, que desceu o preço ao produtor em 17 cêntimos entre julho e dezembro. “Estamos sempre muito focados no preço e esquecemo-nos de que o mais importante é a margem de contribuição. Se o produtor recebe 40 cêntimos mas consegue ter margem de cinco, é melhor do que vender a 60 cêntimos e ter uma margem de um”, defende.
No final do ano passado, a Fenalac (Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite) já alertava para a “situação muito difícil” do setor, atribuindo culpas, em parte, à negociação das tarifas comerciais com os EUA que “levou a uma forte redução das barreiras alfandegárias à entrada de produtos lácteos americanos no espaço europeu, situação que já se traduziu num aumento exponencial das importações destes produtos provenientes dos EUA”, referia a federação em comunicado. “Acresce que os EUA apresentam custos de produção mais baixos comparados com os da UE, além de não estarem obrigados aos mesmos patamares de exigência em matéria de segurança alimentar”, denunciava a Fenalac.
Essa é também uma das queixas da Lactogal. “A Europa está confrontada com custos de produção e exigências que nada têm que ver com o que se pratica” noutros mercados, como os EUA mas também a América do Sul. E se o queijo ou a manteiga são importados, o leite desses produtos também foi produzido noutras geografias, com outros parâmetros. “Nós somos esmagados por normas e exigências que essas geografias não têm e isso impacta muito nos preços”, completa Bruno Costa, administrador da Lactogal, admitindo que com o acordo da UE com o Mercosul a situação não vai melhorar, ainda que aponte um maior impacto para o setor da carne.
“Temos esperança que seja uma fase temporária e curta”, remata José Marques, presidente do conselho de administração do grupo.
“Enquanto consumidora prefiro as nossas regras, enquanto produtora não”
É também para ultrapassar a dependência das importações de produtos lácteos em Portugal e Espanha que a Lactogal deu início, há três anos, ao que chama de um “novo ciclo”. A estratégia do grupo nos próximos anos passa por crescer nas categorias em que Portugal (e a Península Ibérica) produz menos do que consome. “Importamos muito queijo e muitos iogurtes, as importações têm crescido muito nos últimos anos. Seremos capazes, através do investimento na indústria, de fazer essa transformação e conseguir substituir as importações”, garante Bruno Costa. A Lactogal é líder na produção de leite, bebidas lácteas, natas e manteiga. No queijo e nos iogurtes ainda tem espaço para crescer.
Os dados mais recente do Instituto Nacional de Estatística (INE) dizem respeito a 2024, ano em que Portugal se mantinha excedentário no leite para consumo público (108,9%) e na manteiga (140,0%), mas deficitário em produtos como os leites acidificados, como os iogurtes, (52,5%), as bebidas à base de leite (68,2%) e o queijo (60,8%).
A Península Ibérica tem capacidades instaladas suficientes para leite líquido mas não tem capacidade industrial que chegue para produzir iogurtes e queijo para cobrir o consumo próprio. “É onde estamos, maioritariamente, a querer investir”, admite o administrador. A compra do grupo Queijos Santiago, em 2024, já fez parte desse plano. “Era já um vislumbre da nossa estratégia. Essencialmente nessa categoria vamos trazer muitas novidades”. Bruno Costa não nega que a Lactogal anda à procura de mais oportunidades para crescer, mas diz que, para já, o grupo não tem nenhum investimento identificado. “O nosso desafio não é só estar atentos a oportunidades que possam surgir mas também criar valor (por litro de leite) nas categorias em que estamos presentes”.
Nos últimos três anos, a Lactogal investiu cerca de 150 milhões de euros neste “novo ciclo”, em capacidade industrial, inovação e apoio às marcas. Até 2030 prevê investir cerca de 50 milhões por ano nesta estratégia de diversificação de produtos, excluindo aquisições. “Vamos precisar de um esforço em capacidade produtiva que possa criar mais valor na cadeia”. Um dos “grandes investimentos” recentes foi numa torre de secagem, em Modivas, para poder produzir leite e proteínas em pó. Quando a Lactogal foi criada, há 30 anos, 100% do leite que entrava nas fábricas era para ser vendido como leite líquido. Hoje, apenas 50% sai com essa forma.
“Nos próximos anos temos de conseguir fazer um trabalho de adaptação do setor a montante e na indústria, com investimento, para dar resposta às necessidades de consumo da Ibéria. Acreditamos que conseguimos pôr em valor o método de produção da Europa, que é valorizado lá fora, e que é diferente e pouco falado. Na Europa não se produz com hormonas. Enquanto consumidora prefiro as nossas regras, enquanto produtora não”, admite Daniela Brandão.
Inserida nesta estratégia está também a parceria com o grupo galego CLUN (Cooperativas Lácteas Unidas), assinada no final do ano passado e que criou uma nova empresa de base cooperativa, a CoRural – Cooperativa Rural Láctea, tendo deixado de comprar diretamente aos produtores para passar a funcionar em cooperativa, como em Portugal. A parceria dá à Lactogal acesso a mais capacidade produtiva em iogurtes, já que a CLUN é a quinta maior na indústria dos iogurtes em Espanha.
“Espanha é um país muito potente na exportação de agroalimentar. Há uma concentração grande de produção de leite no norte de Espanha e de Portugal, com condições de produção únicas e que, muito provavelmente, daqui a 10 anos, será uma zona que vai competir com as melhores zonas de especialidade da Europa”, acredita Daniela Brandão. O objetivo é criar condições competitivas “para combater estas importações de queijo a preços baixos” e trabalhar categorias de maior rendimento industrial. Além disso “concentrar-se é uma necessidade do setor. Os principais players europeus concentraram-se”, constata Daniela Brandão. “E nós, apesar de sermos o maior grupo lácteo ibérico, ainda somos demasiado pequenos a nível internacional, estamos a falar de fusões de cooperativas de 20 mil milhões, nós faturamos 1,2 mil milhões”, completa Bruno Costa, admitindo que a parceria traz “desafios de dimensão”.
O grupo que detém a Mimosa (marca que em Portugal “vende mais do que a Coca Cola”) exporta cerca de 22% da sua produção, sobretudo para Espanha e para países de língua oficial portuguesa. “Estamos numa ótica de diversificação de mercados mas também de exportar mais valor e não tão preocupados em exportar volume”. O objetivo é, daqui em diante, exportar mais para países “que valorizem o produto ibérico”.
“Hoje vive-se muito melhor no setor do leite”
A história da Lactogal começa há 30 anos com a fusão das cooperativas Agros, Lacticoop e Proleite precisamente por, na altura, o setor não conseguir competir com as importações, explica a administradora Daniela Brandão. “A entrada da Parmalat no mercado espoletou a junção de três rivais”, recorda. “O setor não era minimamente competitivo”, numa época em que prevalecia a agricultura de subsistência e havia mais de 30 mil produtores em Portugal (hoje são cerca de três mil).
“O número de produtores não é relevante”, considera Daniela Brandão. “Nós temos unidades produtivas cada vez maiores, a força de trabalho é um número que não entra na estatística. Antes tínhamos um produtor que tratava de todo o processo produtivo. Hoje temos unidades produtivas, quase todas de cariz familiar, mas que envolve um conjunto significativo de pessoas. Nós produzimos mais com muito menos animais. Hoje vive-se muito melhor no setor do leite”.
O número de produtores é uma preocupação “muito grande”, sim, mas para o futuro, “não só em Portugal, em toda a Europa”. Apesar de haver “muitos jovens a trabalhar”, há um “problema” relacionado com o risco dos investimentos. “A criação de novas instalações é muito difícil devido ao risco da volatilidade dos mercados”.
As contas de 2025 ainda não estão fechadas, mas a Lactogal antecipa que o ano não terá sido tão positivo como foi 2024, um dos “melhores três anos da sua história”. 2026 será “desafiante porque o ciclo iniciado no ano passado não terminou” e há mais uma disrupção geopolítica, com o conflito no Médio Oriente a impactar o preço dos combustíveis e dos fertilizantes. Em 2024 o grupo lucrou 35 milhões e faturou 1,1 mil milhões de euros. No ano passado o volume de negócios terá subido para 1,2 mil milhões de euros e os lucros terão caído para cerca de 10 milhões de euros.
A Lactogal tem 12 unidades industriais em Portugal e Espanha e emprega cerca de 2.500 pessoas nas duas geografias. Transforma mais de 1.200 milhões de litros de leite por ano provenientes de cerca de dois mil produtores. Cerca de 20% do volume de negócios em Portugal corresponde a vendas para produtos de marcas da distribuição.