A Rússia de Putin, líder que sempre demonstrou uma certa fixação pela União Soviética, que desmoronou em 1991, decidiu recuperar os automóveis Volga, as berlinas com o nome do maior rio europeu e as mais respeitadas entre as fabricadas localmente durante o regime comunista. Inicialmente previsto para 2024, o renascimento da Volga sofreu alguns atrasos, mas finalmente os novos modelos começarão a ser entregues a clientes a partir de meados de 2026. Porém, ao contrário dos antigos Volga da era soviética, que espelhavam o (reduzido) potencial da indústria automóvel do país, os novos Volga têm muito pouco de russo, uma vez que foram concebidos e produzidos pela Geely, tendo como base modelos deste grupo chinês.
O Volga K50 é um SUV de grandes dimensões, concebido sobre a base do Geely Monjaro
Os Volga sempre foram dos modelos mais procurados na União Soviética, sendo o meio de transporte de eleição da classe dirigente e dos membros de topo do Partido Comunista. Produzidos pelo construtor soviético GAZ, os Volga foram fabricados entre 1956 e 2010, com o Gaz Volga 24 a ficar na história por ser o mais conhecido e sofisticado, tendo sido produzido entre 1970 e 1985. A decisão de fazer renascer a Volga surgiu originalmente em 2024, com os russos a tentarem reconstruir a marca com base em chassis de veículos chineses da Changan, construtor controlado pelo Estado, estratégia que não funcionou.
Este é o Volga 24, o melhor dos GAZ Volga. Foi fabricado até 1985
O negócio não avançou, mas a Rússia estava decidida a recuperar a Volga, tanto mais que a saída dos construtores estrangeiros, após a invasão da Ucrânia, deixou espaço suficiente para lançar uma marca própria. Daí que os russos tenham tentado uma segunda vez, desta vez em colaboração com os chineses da Geely, um grupo privado que, curiosamente, é também o maior accionista da Mercedes, controlando cerca de 10% do capital do construtor alemão, além de 50% da Smart.
A Geely concebeu os dois primeiros veículos para a Volga a partir de dois dos modelos da sua gama, gerando o SUV K50 com base no Geely Monjaro, para a berlina C50 assentar sobre o Geely Preface. Ambos os veículos rondam os 4,8 metros de comprimento e recorrem a motores de combustão a gasolina, especificamente unidades 2.0 sobrealimentadas com quatro cilindros em linha, que fornecem 215 cv e estão associadas a transmissões automáticas de dupla embraiagem com sete velocidades.
Os C50 e K50 diferem muito pouco dos Geely que lhe dão origem, com modificações apenas a nível de grelhas, faróis e farolins, além de alguns cromados. No interior, as diferenças entre os modelos Volga e Geely também não são evidentes, sendo certo que se as primeiras unidades serão produzidas na China e exportadas para a Rússia, o objectivo é passarem a ser fabricados em Nizhny Novgorod, na antiga fábrica abandonada pelo Grupo Volkswagen, que produzia ali modelos da VW e da Skoda. A Rússia pretende, assim, recuperar o aparelho produtivo e actualizá-lo com tecnologia mais moderna, em colaboração com os chineses, com a perspectiva de mais tarde conseguir conceber os seus próprios modelos.