Pedro Gomes Sanches só admite uma exceção à sua pouca inclinação para integrar grupos políticos: o passismo. O rótulo dá-lhe “um gozo especial” porque “irrita muita gente”. O comentador político que foi adjunto do ministro da Segurança Social no Governo de Passos Coelho esteve no programa Vichyssoise, na rádio Observador, no dia em que Cristiano Ronaldo abandonou a seleção nacional de futebol e não se furtou à comparação, mas com uma ressalva: “Não diria que Montenegro está no fim da carreira. Se calhar a comparação melhor seria com Rui Borges” — que saiu esta semana do Sporting.
Luís Montenegro não terá chegado ao fim da carreira política, mas Sanches parece acreditar que está próximo do fim do ciclo à frente do Governo. Acredita que se fragilizou na crise atual da habitação antes mesmo de ter sido conduzido pelo Presidente da República a fazer uma declaração ao país a oferecer diálogo à oposição. Considera que o Governo não tem uma posição clara perante os protestos e que Luís Neves perdeu autoridade política.
Acredita que Passos “tem um capital político quase único” e desdramatiza eventuais futuros acordos com o Chega — que o antigo primeiro-ministro defende –, sublinhando que as “coisas inomináveis que o Chega defende” podem ficar “de fora”. Afinal, “na geringonça, a saída da NATO, do euro e da União Europeia, que o Bloco de Esquerda e o PCP defendem, ficaram de fora”, recorda sobre 2015 e a maioria socialista que destronou Passos — que tanto a criticou.
[Ouça aqui a primeira parte da Vichyssoise:]
Comandante Seguro, as oito de Montenegro e tendas nas praças
[Ouça aqui a segunda parte da Vichyssoise:]
Cristiano Ronaldo abandonou esta quinta-feira a seleção nacional, por entender que já não podia acrescentar muito mais serviço ao país. Luís Montenegro, que é seguidor da mentalidade de Cristiano Ronaldo, devia fazer o mesmo ou é importante que o Luís trabalhe até 2029?
Antes de mais, dar uma nota sobre essa coisa do passista. Eu sou muito pouco gregário do ponto de vista político, admito uma exceção, que é esta coisa do passista, por duas razões: a primeira, porque considero que Pedro Passos Coelho é, enfim, dos políticos conhecidos e disponíveis no panorama português, aquele que melhor pode dar uma resposta aos problemas que o país tem. A segunda é porque, enfim, designar-me assim faz com que isso irrite muita gente e isso dá-me um gozo especial.
E sobre a mentalidade Cristiano Ronaldo?
Sobre a seleção e a comparação de Cristiano Ronaldo com Luís Montenegro, eu, claro, quero sempre que a seleção ganhe, mas este diferendo entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo trouxe-me uma novidade, que é fazer com que eu torcesse tanto pela seleção nacional quanto torço pela única coisa a que se me pode aplicar o prefixo ista, que é sportinguista. Ou seja, quero que a seleção nacional pós-Cristiano Ronaldo ganhe tanto quanto desejo que o Sporting ganhe. Enfim, eu acho que eu percebo as declarações de Luís Montenegro in illo tempore sobre Cristiano Ronaldo. Cristiano Ronaldo é uma figura incontornável da história recente do país, com feitos absolutamente admiráveis e quis-se comparar com ele. Não sei se a comparação é própria porque não diria que Luís Montenegro está no fim da carreira. Mas, enfim, mantendo a metáfora futebolística, se calhar a comparação melhor seria com o Rui Borges.
O Presidente da República convocou os partidos, marcou o Conselho de Estado e depois disso acabaram as cargas policiais, as tendas até tomaram conta das praças nas últimas duas noites e os partidos vão reunir em São Bento. Esta é uma vitória do Presidente da República sobre o Governo? É também uma manifestação da autoridade do Presidente da República?
Onde é que se pode fazer política? Em que lugares é que se pode fazer política? Pode-se fazer política na rua e pode-se fazer política na tribuna, não é? Há um outro lugar onde se pode fazer política, que é na mesa das negociações. Quando a política é feita na rua e na tribuna, eu acho que partidos reformistas, ainda por cima, em circunstância minoritária no Parlamento, têm tudo a perder, porque a rua é muito vocal e a tribuna é muito vistosa e, de facto, há de, nesta circunstância, nós temos um sistema que ficou anómalo. Dir-me-ão, mas, enfim, a fragmentação eleitoral um pouco por toda a Europa sempre foi assim e em todos os países é possível fazer coligações. Aqui deu-se o caso de nós estarmos habituados a um regime bipolar, não digo bipartidário, porque, enfim, à direita o PSD sempre foi fazendo coligações com o CDS e, à esquerda, ineditamente, a partir de 2015, o PS passou a admitir apoio parlamentar dos partidos de extrema-esquerda. Dá-se o caso de termos hoje três polos, termos um sistema tripolar que tem esta circunstância diferente do resto da Europa, que são vasos comunicantes, mas quase exíguos. É possível estabelecer aqui um acordo ou outro a propósito de uma legislação ou outra, mas não é possível, enfim, com estes atores e no momento presente, admitir grandes ímpetos reformistas com a junção de dois destes três blocos. Ora, isto paralisa o país. O país tem um conjunto de bloqueios estruturais a que somou este bloqueio institucional. E agora respondo à pergunta.
Sobre o Presidente.
A voz do Presidente da República é a voz da razão e a voz da sensatez. É curioso porque o Presidente da República tem sido fustigado com críticas das tribos. À esquerda porque não é vocal o suficiente quando lhe convém e à direita porque não adere às suas teses. Mas ainda bem. Eu apoiei António José Seguro, como sabem precisamente por isso, não por nenhuma filia ideológica com António José Seguro. Nunca votaria António José Seguro para primeiro-ministro. Votei António José Seguro porque me parece que é um político, das opções que estavam disponíveis, suficientemente equilibrado para garantir isto.
E neste caso teve uma vitória?
E neste caso teve uma vitória. Acho que foi uma vitória dele. Aliás, nós ouvíamos na terça-feira, o primeiro-ministro na declaração ao país e víamos a cara do primeiro-ministro e ouvíamos a voz de António José Seguro. Mas é uma vitória do país. Do país sensato. Do país que quer soluções. Porque, de facto, vejam como este debate sobre a habitação foi evoluindo no espaço e no tema. Começou no Parlamento, a propósito das leis das rendas. E, desse ponto de vista, o Governo tem capital político útil, onde podia ter vencido o debate. Deslocou-se para a rua. Na rua, a questão da habitação foi abandonada para se começar a debater o conflito de direitos. O direito à manifestação e à lei e à ordem. E no final da caminhada, onde estamos agora, mais ou menos, começou-se a discutir, enfim, o fascismo de volta e a autoridade abusiva da polícia sobre os manifestantes. Eu acho que isto é um caminho para a indigência. O que é que na segunda, com o Conselho de Estado e com o almoço que precedeu o Conselho de Estado entre o primeiro-ministro e o Presidente da República, aconteceu de novo? Foi um recentrar no essencial. E muito bem. Os partidos têm posições diferentes. É normal que tenham posições muito diferentes, até ideologicamente muito marcadas. Isso é virtuoso na democracia que vive da dissensão. Mas numa matéria cujos resultados só se conhecerão daqui a anos. E que, não obstante, é urgente, deixem-me fazer aqui uma nota de rodapé sobre a questão da habitação.
Vamos a isso.
Desde 1991 até 2021, havia um movimento sociodemográfico que estava à vista de toda a gente. Nós passámos de três qualquer coisa milhões para quatro qualquer coisa milhões de agregados familiares. Porquê? Porque os agregados familiares na sua dimensão contraíram. Por força de um conjunto de fatores vastamente estudados em sociologia e demografia. Mas houve aqui uma contração dos agregados familiares. Em cima disto, depois de 2021, somámos a entrada de mais de um milhão de pessoas que vieram para cá trabalhar. Alerta à esquerda, tão preocupada sempre com o humanismo e com a receção, o humanismo e a boa receção fazem-se garantindo boa resposta. Nada disso foi planeado ou acautelado. E a habitação também não. Portanto, em síntese, neste movimento sociodemográfico que era visível para toda a gente, e com este acréscimo populacional, nada foi feito em 2018. O primeiro-ministro de então, António Costa, disse que em 2024 a coisa estava resolvida. Não esteve. Portanto, o Governo de turno, hoje, choca de frente com esta urgência, que é de facto urgente, que é de facto atendível. É muito importante para a sociedade portuguesa, até porque a ausência de habitação atrasa a vida, constituição de família, projetos de vida, até uma autonomia psicológica e um amadurecimento dos jovens que permanecem em casa dos pais. Isto é bastante mais profundo do que uma crise de casa. Isto é uma crise de lugar e é uma crise nacional. E, enfim, tendo hoje no colo esta questão para resolver, nós vamos ter resultados daqui a algum tempo. Ora, admitindo todas as divergências ideológicas, eu pergunto-me se não é possível um módico de consenso para dar resposta, um choque de oferta, por exemplo. Enfim, alguém destes três blocos discorda da necessidade de melhorarmos, de aumentarmos o número de habitação pública de 2%, que é um número tão baixo, tão baixo dos mais baixos da Europa, se não o mais baixo da Europa, para um número maior?
A questão é que esse caminho da habitação pública demora a ter resposta, até pela crise na construção. Pode haver consensos para as respostas mais urgentes, as que produzem resultados imediatos? Há ambiente político para isso?
Enfim, ambiente político não há. O ambiente está altamente crispado e esta coisa das eleições em microciclos premeia a irresponsabilidade, porque premeia a demagogia, premeia a simplificação de respostas que são necessariamente complexas. Eu não vejo nenhuma bala de prata para resolver o problema da habitação. Vejo um somatório. É por isso que eu dizia que o Governo tem, de alguma maneira, capital a seu favor, por força de algumas coisas que foi fazendo. Primeiro, do lado da oferta, é preciso aumentar a habitação pública. Demora tempo, é verdade. É preciso disponibilizar terrenos para que sejam urbanizáveis. Depois, é preciso que esses terrenos sejam disponibilizados, não só para a habitação pública, mas também para a habitação privada, mas também para cooperativas. Mas demora tempo. É preciso que a construção se torne mais barata para ser útil à população que temos. Isto implica que haja uma redução de licenciamentos. O Governo também está a trabalhar nessa matéria, numa simplificação burocrática, porque não é só o custo da construção, é o tempo. Um investidor avalia em quanto tempo é que vai estar disponível o terreno para a construção e depois somar o tempo da construção e só depois é que pode tratar do break-even do investimento. Também demora tempo. Casas no mercado de arrendamento. É preciso dar segurança. Bom, a menos que das assembleias populares surja uma coisa bastante radical de expropriação da propriedade privada, que é uma coisa que me terá na linha da frente a combater…
António José Seguro cometeu um erro em ir conversar com os manifestantes?
Enfim, eu não faria isso se fosse Presidente da República. Mas enfim, o país está protegido dessa eventualidade. O Presidente da República Mário Soares partia para o povo, para conversar com o povo. E isso, desse ponto de vista, não tenho nada a obstar. As coisas apresentadas desta maneira conferem uma legitimidade que eu manifestamente acho que não tem. Eu sou do tipo de pessoas que têm saudades do tempo em que as manifestações eram controladas pelo Partido Comunista Português. Com ordem, com um caderno de encargos, com uma lista de reivindicações que podiam ser atendidas. Hoje, enfim, eu não sei, a partir dos porta-vozes destas manifestações, quais é que são as pretensões.
E tem-se mantido um bocadinho à margem o PCP. Foi aliás o único partido que não esteve no cordão humano.
Pois tem, pois tem. Enfim, mostra sensatez do Partido Comunista. Também mostra a perda de força. Mas enfim, é uma lástima para o país. Mas dizia que pretensões dos porta-vozes, o que eu fui ouvindo, é que devemos satisfazer a destruição da ordem liberal, o combate ao capitalismo, o apelo à revolução, a intifada. Nada disto é atendível. Não há ali interlocutores suficientemente sérios para que se possa dar uma resposta capaz.
Na declaração ao país, Luís Montenegro saiu fragilizado por ter de vir a reboque do Presidente da República cumprir essas exigências de diálogo?
Bom, eu acho que o Governo se fragilizou antes disso. Qual é a posição do Governo? É a posição de Miguel Pinto Luz e da Patrícia Costa, a secretária de Estado, empenhados em encontrar soluções, em apresentar trabalho feito, disponíveis para conversar, para ouvir os anseios da população? Ou é a posição de Luís Neves, um ministro sem nenhuma autoridade política, enredado num sem-número de casos de incumprimento da lei, que sendo ministro das polícias, para simplificar aqui a conversa, vem dizer que acabaram as acampadas para no minuto seguinte ser desafiado pelos manifestantes como mais uma acampada? Ou é a posição de Luís Montenegro, de quem nós não sabemos nada durante tanto tempo, que convocou um Conselho de Ministros a meio de uma crise para faltar e se filmar numa visita a uma escola lá ao pé de casa para fazer vídeos para o Instagram e para o TikTok? Nós não sabemos muito bem qual é a posição do Governo. Em resposta a essa pergunta, se se fragilizou, bom, fragilizou-se, mas fragilizou-se antes. Aquela comunicação foi o momento menos mau destes dias de debate sobre a habitação, porque recentrou o debate nos temas importantes e no lugar próprio, que é a mesa negocial. O Presidente da República tem sido muito injustamente atacado. Num tempo em que toda a gente grita, falar mais baixo é visto como fraqueza. Pois eu não o acho. Eu acho que ele está do lado da razão. António José Seguro tem duas preocupações. É esta dos consensos – vejam bem que agora até se critica isto, dizendo que é uma coisa de Miss Mundo, quando é da mais elementar sensatez política tentar encontrar pontos de convergência – e tem uma outra preocupação, que é a sustentabilidade das escolhas políticas, sob pena de, na legislatura seguinte, se o poder for de cor diferente, reverter. Isto não é reforma, não há capacidade de avaliação, não há sequer capacidade de obter resultados daquilo que foi feito. Estas duas preocupações são as preocupações do Presidente da República e eu acho que são boas.
Falou de Luís Neves, uma remodelação governamental é essencial para que o Governo consiga chegar ao fim?
Obviamente eu acho que Luís Neves não está capaz de continuar a exercer funções de autoridade, ainda para mais numa pasta de soberania, ainda para mais numa pasta tão convocada à exigência do cumprimento da lei. Não está. Eu não estou a dizer que Luís Neves é culpado das acusações que lhe fazem. Ele próprio assumiu, na conferência de imprensa que deu, há uns meses, o incumprimento de um sem-número de regras. Algumas bastante críticas e não estou a falar do tanque e do licenciamento do tanque, estou, por exemplo, a falar da declaração patrimonial. Alguém que dirige nacionalmente a Polícia Judiciária e que faz apreensão de bens, de dinheiro, de droga, de tanta coisa, que não apresenta declarações patrimoniais ab initio, para poder ser avaliado à saída, é alguém que está a fazer um incumprimento grave do ponto de vista da transparência. Portanto, obviamente, que me parece que Luís Neves já devia ter saído e não devia sequer ter sido nomeado.
E seria suficiente para garantir que o Governo chega a bom porto?
Não acho que seja. Porque os riscos sobre todos os governos, não é só sobre este, são muito grandes. Em 2023, estávamos com uma maioria absoluta de um partido que quis ser, in illo tempore, um single party, o partido do single party system. Um partido inamovível do poder. E com maioria absoluta caiu. Tinham caído, no espaço de um ano, 12 ministros e depois, enfim, a história do parágrafo e o aparecimento dos 70 mil euros no gabinete de Vítor Escária, mas enfim, foi uma salganhada que resultou na queda de uma maioria absoluta. Há imensos riscos: a contestação na rua e os taticismos dos oponentes que podem, em algum momento, convergir na ilusão de que vão tirar vantagem se convocarem eleições, algum caso judicial que nos tem assaltado a toda a hora e que torne insustentável a permanência de governo em funções, enfim, não faço prognósticos.
Pedro Passos Coelho foi muito claro: se Montenegro falhar, avança. Com o cenário que tem hoje, acha mesmo que Passos Coelho será o próximo líder do PSD?
Não acho nada, não sou militante de nenhum partido; reconheço obviamente, porque sou um democrata, a importância dos partidos na vida da democracia, mas lastimo como cidadão que a democracia portuguesa se tenha transformado numa partidocracia há algum tempo, com lógicas de recrutamento muito peculiares e muito pouco convergentes com o interesse público. Nessa dimensão mais sombria dos partidos, tenho por isso um profundo desprezo. Portanto não sei muito bem quais é que são as possibilidades de ele voltar à liderança do PSD. Seguramente ele fará, se entender, quando as circunstâncias o obrigarem, as cogitações que entender e o caminho que for necessário.
Porque é que o regresso de Passos Coelho é o melhor para o país?
Pedro Passos Coelho tem um capital político quase único. Governou o país no período mais difícil desde o PREC. De repente passa o tempo e começamos a tratar o passado como passado e obliterando as circunstâncias de cada momento do passado, mas 2011-2015 foi o momento, foi o tempo mais difícil de governar o país desde o PREC, e incluo nisto os tempos das intervenções do FMI. Estávamos sob um protetorado férreo. Fiz parte como adjunto do ministro da Segurança Social, estive em várias reuniões da troika e aquilo era terrível, porque perdemos soberania durante esse tempo e perdemo-la de uma forma muito ativa. Tínhamos de estar com equipas que se iam renovando a cada nova reunião, a explicar, como a um aluno mal comportado, o que é que tínhamos de fazer para reverter a situação. Foi um período terrível, mas bem-sucedido: não só nos livrámos no tempo certo deste jugo externo, como o desemprego, que era crítico, começou a crescer e a economia começou a crescer. Agora também se fala tanto de Mário Centeno, e nós entre 2011 e 2015 trouxemos um défice de 11% para 3%. Os governos que vieram a seguir trouxeram o défice de 3% para 0%, com um pequeno superávit, e o ministro responsável por esta baixa de 3% para 0%, que o fez à custa de cativações que depauperaram os serviços públicos, foi designado como o Cristiano Ronaldo das Finanças.
Há muito aquela ideia de que Passos Coelho consegue secar ou meter no bolso André Ventura. Acredita que isso é possível? André Ventura não provou já que uma maioria à direita com o Chega é impossível de ter sustentabilidade?
Passos, além de capital político, tem capital moral, ninguém tem dúvidas sobre a sua idoneidade; e tem autoridade política, que é uma coisa que também vai faltando. Sobre o Chega apetece-me citar Bernard Shaw: “Tu vês coisas que existem e perguntas porquê; eu sonho com coisas que não existem e pergunto porquê não”. Nunca se tentou. Os argumentos das pessoas que acham que não se pode tentar um acordo de governo à direita – o que Pedro Passos Coelho disse foi que se devia ter tentado um acordo com o CDS, a Iniciativa Liberal e o Chega, que não seria coisa fácil, que não seria garantido que fosse bem-sucedido, mas que esse esforço devia ter sido feito. Isso é diferente de dizer “eu quero fazer uma coligação com o Chega”.
Mas com esse tipo de discurso não corre o risco de estar a afastar também o centro moderado?
Eu sou sensível ao argumento de que Luís Montenegro poderia não ter vencido as eleições em 2024 se não tivesse dito o “não é não”. Admito que eleitoralmente faça sentido. A interpretação que fiz das eleições de 2024 e de 2025 foi que houve uma imensa maioria que disse não ao PS. Sei que nas eleições presidenciais houve um wishful thinking, das pessoas que andam a defender o Bloco Central, de que houve aqui um conjunto de portugueses que votaram contra André Ventura. Acho essa interpretação bastante errada e muito perigosa. Em 2017, Marine Le Pen, na segunda volta contra Macron, teve 33%; cinco anos depois teve 40%. Os moderados – ponho aspas – acharam que tinha sido uma vitória da moderação. Le Pen e, em Portugal, Ventura vão crescendo. O partido dele tem sete anos. Há sete anos teve 1,6%. Nas eleições presidenciais, sozinho teve 33%. O que é que eu defendo e o que é que Pedro Passos Coelho defende. Que as soluções se encontrem em torno de propostas concretas. Seguramente há coisas inomináveis que o Chega defende que ficam de fora. Na geringonça, a saída da NATO, do euro e da União Europeia, que o Bloco de Esquerda e o PCP defendem, ficaram de fora. Isso não foi testado e os argumentos sobre André Ventura só se podem avaliar forçando-o a ir à mesa da negociação. Forçar tem a virtude de o expor e responsabilizar. E nas eleições a seguir os eleitores saberão a quem atribuir a responsabilidade. Deste ponto de vista da gestão de uma coisa tão complexa como esta, eu acho que Pedro Passos Coelho é quem tem mais autoridade política para o fazer.
O regresso de Pedro Passos Coelho não pode também voltar a trazer um certo fantasma da troika, que Montenegro se esforçou por enterrar, e assustar alguns eleitores que ainda têm essa memória fresca?
Pode. E eu estou convencido de que Pedro Passos Coelho sabe disso. Pedro Passos Coelho é uma pessoa muito consciente, muito informada, muito atualizada e muito consciente do país. Não acho nada que Pedro Passos Coelho seja o D. Sebastião. D. Sebastião destruiu o país numa guerra quimérica e o país perdeu a independência. Pedro Passos Coelho recuperou a independência, pegando naquilo que estava a dizer há pouco sobre a perda de soberania durante os anos da troika. Pedro Passos Coelho, aqui no Observador, numa entrevista que deu à Maria João Avillez, no podcast “Eu estive lá”, encerrou o capítulo do passado. E daí em diante, Pedro Passos Coelho está sempre a falar do presente e do futuro. Eu não sou passista, pegando na primeira resposta que vos dei, porque tenho saudades do passado. Eu sou passista porque olhando para os atores disponíveis, tenho ambição de futuro. E eu acho que Pedro Passos Coelho também. Portanto, sim, esse risco existe, mas, enfim, é um risco que se pode correr, ou não, o país decidirá. Estamos sempre a dizer, pobre Brasil que está entre Lula e Bolsonaro, pobres os Estados Unidos que estão entre Trump e Kamala Harris, pobre França que está entre Melenchon e Le Pen. Bom, mas os países, os povos, também têm a responsabilidade dos atores políticos.
Consegue escolher, nesses casos. No Brasil votava em quem?
No Renan Santos.
E no caso de França, por exemplo?
Le Pen. No cenário Mélenchon, Le Pen.
E no caso de Kamala e Trump?
Já lá vai.
Está quase a sair o estudo, coordenado por Pedro Passos Coelho, quais acha que vão ser as reformas prioritárias no estudo? E a habitação, terá um papel central?
O estudo foi obnubilado pela presença de Pedro Passos Coelho. Na verdade, o estudo foi encomendado pela Associação Municipal do Porto, é coordenado por Pedro Passos Coelho e por Sérgio Sousa Pinto, mas de facto o estudo está a ser feito sob a liderança de Óscar Afonso, que é o diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Eu tenho a ideia de que o estudo se conhecerá lá para janeiro. Dar nota de que Pedro Passos Coelho, no prefácio que escreveu ao meu livro, considera a habitação uma questão muito crítica, mas não a trata como uma questão setorial. E bem, acho eu. Porque a questão da habitação, como eu disse há pouco, é uma crise de lugares. Eu posso viver a 30 km do meu local de trabalho e demorar uma hora e meia para lá chegar, ou a 80 km e demorar 30 minutos. Há uma interligação com as redes viárias, que é importante considerar. E depois, eu defendo no meu livro a construção em altura, mas sou muito contra duas coisas: primeiro que a habitação pública seja designada por habitação social, é um estigma de que não precisamos, de que as pessoas não precisam, e que estraga mais do que ajuda; a segunda coisa que eu derrogo é a ideia de guetos habitacionais, torres imensas, sem vida. Eu sou um conservador. Eu quero bairro. E eu não acho que a construção em altura inviabilize a possibilidade de ter bairro. Com infraestruturas capazes. Isto é planeamento. Isto é muito mais do que uma questão setorial. De qualquer das formas, se me pergunta, acha que vai haver um capítulo sobre habitação, seguramente o estudo contemplará isso.
Vamos avançar para o Carne ou Peixe, onde tem de escolher uma de duas opções. Com quem é que preferia partilhar um camarote para ver o Sporting no Estádio de Alvalade, José Luís Carneiro ou André Ventura?
Com um qualquer, porquanto o Sporting vencesse, para eu poder dizer, incha!
Com quem partilharia um charuto, Hugo Soares ou Sebastião Bugalho?
Sebastião Bugalho.
Com quem é que bebia um bom whisky, António José Seguro ou João Coutinho Figueiredo?
Boas companhias. Gosto muito dos dois. Com quem não começasse a torcer o nariz à questão do álcool, do consumo de álcool. Eu diria que João Coutinho Figueiredo.
Com quem é que preferia acampar, Luís Neves ou Renata Cambra?
Eu preferia não acampar. A melhor tenda de campismo é um quarto no Ritz.