Mais drama no Parlamento. A eleição de Tiago Antunes como novo Provedor da Justiça pode estar, neste momento, hipotecada. A indicação do antigo secretário de Estado de António Costa para o cargo foi muito mal recebida, incluindo na bancada parlamentar do PS. Existem vários deputados que vão ameaçando votar contra a escolha dos socialistas. À boca pequena, existe quem aconselhe Tiago Antunes a desistir da indicação sob pena de ter um dissabor amanhã, quinta-feira, dia em que se elegem os órgãos externos à Assembleia da República.

Sendo a eleição feita por voto secreto, não há garantias de que as direções das bancadas parlamentares de PS e PSD consigam disciplinar os respetivos deputados — no passado, e em diversas ocasiões, os candidatos indicados não receberam sequer a totalidade dos votos dos deputados eleitos pelos partidos de origem. Atendendo às reservas que vão sendo levantadas em relação a Tiago Antunes, é, nesta altura, muito provável que tal venha a acontecer.

Se as resistências entre deputados sociais-democratas seriam mais ou menos previsíveis — afinal, Tiago Antunes foi braço direito de António Costa —, mais alarmantes são as críticas que se repetem a partir da própria bancada socialista. Ao Observador, um destacado deputado do PS assume mesmo que a eleição do antigo secretário de Estado como novo Provedor de Justiça “pode estar em risco”.

Este mesmo deputado socialista questiona a escolha da direção do partido, recorda a “relação muito difícil” que Tiago Antunes tinha quando funcionava como uma espécie de “porta voz de António Costa” e diz ser muito difícil perceber como é que alguém que nunca esteve alinhado com José Luís Carneiro ou com Pedro Nuno Santos conseguiu garantir esta indicação.

“A direção nunca explicou esta escolha. É muito difícil de perceber. O PS tinha e tem gente muito qualificada para o cargo e indicou alguém por quem muitos deputados não nutrem uma simpatia profunda. É mesmo uma grande interrogação.”

Em rigor, Tiago Antunes nunca pertenceu à tribo que hoje lidera o PS. Tendo nascido para a política durante os anos de Sócrates, tendo consolidado o seu estatuto com Pedro Silva Pereira e tendo voltado para trabalhar com António Costa, tornando-se depois seu braço direito, o antigo secretário de Estado nunca esteve alinhado com os pedronunistas e muito menos com os seguristas que hoje estão no poder.

Como recordava o Observador, Tiago Antunes nunca se fez militante do PS, mas percorre os corredores do partido pelo menos há duas décadas. Começou o seu percurso político como adjunto do então secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Filipe Baptista, seu colega de faculdade, passou por Bruxelas, regressando em definitivo a Lisboa para substituir Miguel Prata Roque, onde se tornou rapidamente um dos homens da estrita confiança de António Costa.

Depois dessa primeira experiência como adjunto de Filipe Baptista no primeiro governo de José Sócrates — com o primeiro a ser hoje advogado de Sofia Fava e a ter atualmente uma procuração do ex-primeiro-ministro para vir a defendê-lo no julgamento da Operação Marquês —, Tiago Antunes seria chefe de gabinete de João Almeida Ribeiro, o homem das “secretas” internas que se tornaria um dos colaboradores mais próximos de José Sócrates e que o antigo primeiro-ministro escolheu como secretário de Estado Adjunto (2009-2011).

Com a queda do segundo governo de José Sócrates, Tiago Antunes rumou até Bruxelas, onde trabalhou de perto com o então eurodeputado socialista Pedro Silva Pereira. Posteriormente, a saída de Miguel Prata Roque como secretário de Estado da Presidência abriu-lhe as portas para regressar a Lisboa, passando a trabalhar diretamente com a então ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques.

A partir de 2019, no segundo governo de António Costa, Tiago Antunes tornou-se secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, assumindo verdadeira centralidade no núcleo mais duro do líder socialista. Em público e nos bastidores, foi uma das peças mais importantes na resposta à pandemia de Covid-19. Sempre em articulação com Mariana Vieira da Silva, também ela uma costista, que, integrando a direção da bancada parlamentar do PS, não tem deixado de fazer críticas à forma como José Luís Carneiro tem feito oposição ao Governo de Luís Montenegro.

Por motivos mais ou menos óbvios, o currículo político de Tiago Antunes fez franzir muitos sobrolhos na bancada parlamentar do PSD, com vários deputados sociais-democratas a questionar a adequação do antigo secretário de Estado para um cargo que exige distanciamento em relação aos diretórios partidários e políticos. Hugo Soares, líder parlamentar e pivô do PSD nas negociações com o PS — negociações que envolveram muitos outros cargos —, acabou por acolher a escolha dos socialistas de forma a não deitar por terra os esforços de uma conversação que se arrastou por meses e que ainda não está sequer resolvida.

No entanto, assim que foi conhecido o nome de Tiago Antunes, muitos deputados do PSD fizeram saber que dificilmente votariam a favor do antigo Secretário de Estado. Hugo Soares, sabe o Observador, tem-se desdobrado em conversas com os seus deputados no sentido de garantir que votam a favor de Tiago Antunes, mas não é certo que todos o venham a seguir.

“Tiago Antunes acabou de sair do governo. Fez parte do núcleo duro de António Costa e tem ligações aos governos de José Sócrates. Este salto quase direto de um governo para este cargo para caiu muito mal aqui [na bancada parlamentar do PSD]. Gerou muito incómodo. E, apesar de haver orientações claras da direção da bancada para votarmos favoravelmente, os deputados pensam pela própria cabeça”, ameaça um influente deputado social-democrata.

Sem os votos da totalidade dos deputados de PS e PSD, admitindo que o Chega, muito crítico desta escolha, votará contra, mesmo que os todos deputados do Livre e/ou da IL votassem ao lado dos socialistas e sociais-democratas alinhados com as respetivas direções de bancadas, seria muito improvável que Tiago Antunes recolhesse os dois terços de votos necessários para garantir a eleição.

Tiago Antunes. O Provedor de Justiça que entrou na política com Sócrates, cresceu com Costa e nunca deixou a Faculdade de Direito