A história estava ali tão perto. Pela primeira vez nos últimos 16 anos, a Taça de Portugal ia ter um finalista oriundo de fora da Primeira Liga. Aconteceu em 2010 com o Desp. Chaves, que perdeu frente ao FC Porto (1-2). Vai acontecer em 2026, já que a segunda meia-final colocou frente a frente Torreense, da Segunda Liga, e Fafe, da Liga 3. Para lá do eventual regresso de uma equipa do segundo escalão ao Jamor, a meia-final desta quinta-feira podia ditar o regresso de um conjunto do terceiro escalão à final, algo que não acontece desde 2002, quando o Leixões de Carlos Carvalhal perdeu frente ao Sporting (0-1). Por outro lado, a formação de Torres Vedras queria estar na final pela segunda vez, depois de ter perdido frente ao FC Porto em 1956 (0-2), ao passo que os fafenses queriam superar as duas eliminações anteriores em meias-finais (1977 e 1979) para se estrearem no Estádio Nacional.

Depois do empate registado em Fafe (1-1), o Estádio Manuel Marques viu os seus 4.315 bilhetes esgotarem rapidamente para aquela que acabou por ser a partida decisiva desta meia-final. O emblema azul-grená chegou a este jogo com o favoritismo do seu lado, não só por jogar em casa, mas por estar nas divisões profissionais e a lutar pela subida ao Campeonato Nacional. Ao longo da época, a equipa treinada por Luís Tralhão tem vivido momentos positivos, sendo que, no fim de semana, derrotou o líder Marítimo no seu reduto (1-0). Por seu turno, os justiceiros encontram-se a lutar pela manutenção na Liga 3, que está bem encaminhada. O grande destaque da época fafense foi a prestação na prova rainha do futebol português, onde deixou pelo caminho Moreirense (casa, 1-0), Arouca (casa, 2-1) e Sp. Braga (casa, 2-1).

“Enquanto clube, seria um orgulho tremendo estarmos na final da Taça e vamos fazer de tudo para lá chegar. Pessoalmente, é um motivo de orgulho. Enquanto miúdo, assisti várias vezes à final da Taça. Morava lá perto e continuo a morar perto do estádio. Passo lá muitas vezes quando vou correr. Nunca pensei que pudesse chegar lá tão cedo. Este pequeno passo é um grande passo, mas ainda falta muito. Para lá chegar temos de trabalhar bastante amanhã [quinta-feira], mas temos esse grande objetivo. Para mim seria uma honra ficar com o meu nome gravado na história do clube e, daqui a uns anos, lembrarem-se de que o Luís Tralhão chegou à final da Taça de Portugal. Fafe? É uma equipa que defende muito bem, é muito solidária, tem as linhas muito juntas e jogadores muito experientes. Nesse sentido, vai obrigar-nos a elevar bastante o nível, a ser resilientes, a ser pacientes e a ter uma atitude positiva do início ao fim”, antecipou Tralhão.

“Há favoritos e o favorito é o Torreense. Temos de ser sérios e honestos. Estamos num nível inferior, apesar de a Liga 3 estar a crescer. Dentro das nossas possibilidades, vamos olhar para o plano estratégico. A responsabilidade é da equipa da Segunda Liga, que está a lutar pela subida de divisão. Estamos na meia-final da segunda competição mais forte do nosso país. Fizemos um trajeto maravilhoso. Eliminámos uma equipa do Campeonato de Portugal com muito valor [Oriental], uma de Liga 3 numa deslocação difícil a Évora [Lusitano] e três equipas da Primeira Liga, duas delas com um futebol fantástico. E uma delas está na meia-final da Liga Europa. Portanto, temos o nosso valor, mas vamos apanhar um adversário difícil, que tem tudo para lutar pela subida à Primeira Liga e vai fazer deste um dos grandes jogos da época”, realçou Mário Ferreira.

Para este jogo decisivo, o Torreense entrou em campo com Lucas Paes na baliza, atrás da linha defensiva composta por David Bruno, Stopira, Mohamed Ali-Diadié e Javi Vázquez. No meio-campo, Léo Azevedo, André Simões e Alejandro Alfaro foram escolhidos por Luís Tralhão, que lançou Dany Jean e Luis Quintero no apoio ao ponta de lança Kévin Zohi. Já Mário Ferreira começou com Tiago Martins, Diogo Castro, João Batista, Leandro Teixeira e João Vigário no setor mais recuado, Filipe Cardoso, João Oliveira e Carlos Daniel no miolo e Théo Fonseca, Picas e João Santos no ataque.

Depois de um início equilibrado e de muito estudo entre as duas equipas, a primeira oportunidade pertenceu aos justiceiros, com Leandro Teixeira a roubar a bola a David Bruno e a desferir um remate que saiu para fora, quando estava praticamente sozinho e com tudo para fazer melhor (25′). Já na parte final do primeiro tempo, Quintero recebeu a bola na direita, puxou para dentro e, à entrada da área, desferiu um remate colocado que acabou nas mãos de Tiago (43′).

Com o nulo a imperar ao intervalo, a equipa da casa entrou forte na segunda parte, com os fafenses a responderem com um remate de longe de Diogo Castro, para defesa de Lucas Paes (54′). Pouco depois, na ressaca de um canto na esquerda, a bola sobrou para Quintero na meia-direita, o extremo voltou a puxar para dentro e, de pé esquerdo, obrigou Tiago Martins a nova defesa (59′). Ferreira respondeu com a entrada de Vasco Braga para o lugar de João Santos, com Tralhão a responder com Guilherme Liberato (saiu André Simões) e Ismail Seydi (Quintero). Na reta final, já com Tiago Veiga (Picas) e Ká Semedo (Théo Fonseca) em campo, um erro de Stopira concedeu uma nova ocasião para o Fafe, com Semedo a recuperar e a desferir um remate cruzado que saiu ao lado (83′). No lance seguinte, Kévin Zohi embrulhou-se com Tiago Martins e desviou para a baliza, a defesa cortou perto da baliza e, no meio da confusão, Javi Vázquez cruzou para a área, com David Bruno a atirar de primeira para o golo inaugural (84′).

Com o empate desfeito, Luís Tralhão lançou de pronto Musa Drammeh no lugar de Zohi e, já na compensação, Diogo Castro voltou a dispor de uma boa ocasião de perigo, mas o seu remate saiu muito ao lado (90+2′). Ainda houve tempo para Brian Agbor render Alejandro Alfaro nos homens da casa, que passaram a jogar com uma linha defensiva de cinco elementos, e para Drammeh desferir um grande remate, à entrada da área, para uma enorme defesa de Tiago, a meias com o poste esquerdo (90+6′). Já para lá dos dez minutos de descontos, Drammeh voltou a receber no ataque, cavalgou para a área e, já dentro da área, foi rasteirado por Leandro Teixeira (90+11′). Na cobrança do castigo máximo, Stopira carimbou aquilo que praticamente todo o Manuel Marques pedia: Torreense no Jamor (90+13′). Curiosamente, o central já tinha feito o golo que sentenciou o apuramento de Cabo Verde para o Campeonato do Mundo deste ano.

Com este resultado, o Torreense continua praticamente imaculado em casa em 2026 — só perdeu com o FC Porto B — e, acima de tudo, está de regresso ao Jamor 70 anos depois (2-0, 3-1). A inédita final da 86.ª edição da Taça de Portugal está marcada para o dia 24 de maio, no Estádio Nacional, em Oeiras. O jogo deverá arrancar às 17h15, como habitual.