É ainda no rescaldo da tentativa de ataque a Donald Trump, na madrugada deste domingo durante o jantar anual da associação de correspondentes da Casa Branca, que o Rei Carlos III e a Rainha Camilla chegam esta segunda-feira a Washington para uma visita oficial de quatro dias aos EUA. Esta é já a segunda vez que a Família Real Britânica visita o país após uma tentativa de assassinato ao Presidente: a primeira foi em 1976, quando a Rainha Isabel II viajou até aos EUA após as duas tentativas seguidas de ataque contra Gerald Ford em setembro de 1975.
Na época, o 38.º Presidente dos EUA escapou por pouco aos dois ataques de que foi alvo. No primeiro, a 5 de setembro de 1975, Gerald Ford teve uma arma apontada a si a menos de 60 centímetros de distância enquanto cumprimentava uma multidão em Sacramento, Califórnia. A autora do crime era Lynette Fromme, seguidora do líder de culto preso Charles Manson, que apontou uma pistola Colt 45 sem nenhuma bala na câmara. Sem disparar, foi rapidamente imobilizada pelos serviços secretos norte-americanos, que agarraram na arma e derrubaram Lynette Fromm.
Apenas 17 dias depois, a 22 de setembro, Gerald Ford foi alvo de um novo ataque. Após um discurso no World Affairs Council, em São Francisco, o Presidente dos EUA saiu do St. Francis Hotel, na Union Square, para acenar à multidão que o esperava cá fora antes de se dirigir à sua limusina. Foi nesse momento que Sara Jane Moore, no meio da multidão, disparou com um revólver Smith & Wesson 38 a uma distância de 12 metros contra Ford. O tiro falhou a cabeça do líder norte-americano por 13 centímetros e Moore não disparou o segundo porque foi impedida por Oliver Sipple, um homem que se encontrava no local e que, quando ouviu o barulho do tiro, atirou-se sobre a mulher, agarrando-lhe no braço com que segurava a arma. Moore foi depois imobilizada pela Polícia de São Francisco, enquanto Ford foi rapidamente levado para a limusina que o esperava e que se dirigiu depois para o Aeroporto Internacional de São Francisco, onde embarcou no Air Force One com destino a Washington. Sara Jane Moore viria a ser condenada a prisão perpétua a 15 de janeiro de 1976 mas a 31 de dezembro de 2007 saiu em liberdade condicional. Morreu a 24 de setembro de 2025, 50 anos depois do ataque.
Na altura, também Gerald Ford assumiu que iria continuar a sua vida pública como de costume, tal como Donald Trump, reforçando ainda mais a segurança para a viagem da Rainha Isabel II no ano seguinte. Este domingo, o líder norte-americano garantiu a “total segurança” do rei de Carlos III e Camilla na visita a Washington, afirmando que a sua visita será um momento “ótimo” e assegurando que “os terrenos da Casa Branca são realmente seguros”. O Presidente norte-americano disse ainda, em entrevista à CBS, que não existem indícios de ameaças adicionais à sua pessoa depois do ocorrido este fim de semana. O embaixador do Reino Unido em Washington confirmou que, para a visita de Estado de quatro dias, foram tomadas “todas as medidas de segurança adequadas”.
▲ Rainha Isabel II e Filipe durante a visita oficial aos EUA
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Se a visita de Carlos III e Camilla chega um dia depois do ataque, em 1976 a visita oficial de Isabel II aconteceu já meses depois, em julho, marcando o bicentenário da independência norte-americana. Na altura, a Rainha viu a sua segurança ser mais reforçada do que nas visitas anteriores aos EUA: em 1951, circulou num descapotável e, em 1957, misturou-se livremente com os clientes de um supermercado. Para a visita de 1976, as suas principais aparições públicas foram feitas dentro do Lincoln Continental à prova de bala do Presidente norte-americano quando atravessava as multidões que se reuniram para vê-la nas cidades norte-americanas.
Por sua vez, apesar de manter a sua vida pública normal, também Gerald Ford tomou medidas, passando a usar um trench coat à prova de balas em futuras aparições públicas, a partir de outubro de 1975. “O mais importante é que não acho que qualquer pessoa, enquanto Presidente, deva acobardar-se perante um número limitado de pessoas, entre 214 milhões de norte-americanos, que querem fazer justiça pelas próprias mãos”, disse aos jornalistas na Casa Branca, na noite da segunda tentativa de assassinato. “Se não pudermos ter a oportunidade de conversar uns com os outros, de nos vermos, de apertarmos as mãos uns aos outros, algo correu mal na nossa sociedade.”
▲ O trench coat à prova de balas usado por Gerald Ford após os dois ataques de 1975