Na madrugada do passado domingo, o número 212 da Quinta Avenida, em Nova Iorque, recebeu uma enxurrada de celebridades, num aquecimento para a Gala do Metropolitan Museum of Art, que decorre na noite desta segunda-feira, 4 de maio. Desde Kris Jenner a Nicole Kidman, passando por nomes como Sabrina Carpenter e até Georgina Rodriguez, todos foram recebidos no apartamento milionário de Jeff Bezos e Lauren Sanchez, localizado numa das zonas mais luxuosas e exclusivas de Manhattan, com vista para o Madison Square Park.
Horas depois do desfile de famosos, manifestantes projetaram no prédio onde fica a penthouse vídeos de entrevistas de antigos empregados da Amazon, a denunciar as condições de trabalho na empresa, escreve o New York Times. As mesmas imagens também foram exibidas em outros dois edifícios icónicos da cidade: o Empire State Building e o Chrysler. Um dia antes, na sexta-feira, o mesmo grupo levou cerca de 300 garrafas com urina falsa para dentro do museu, numa referência às reclamações dos trabalhadores, que afirmam não ter pausas para ir à casa de banho, sendo obrigados a urinar em garrafas. “Se podes pagar pela Met Gala, podes pagar mais taxas”, diz uma das projeções, que repete as manifestações feitas em Veneza, na altura do casamento de Jeff Bezos e Lauren Sánchez.
A menos de cinco quilómetros da casa de Bezos, na mesma avenida, a entrada do museu que vai receber o tradicional baile fundado em 1948 e organizado pela Vogue na primeira segunda-feira de maio está “decorada” com cartazes. “Boicotem a Met Gala de Bezos: Um patrocínio da exploração laboral” e “Não há máscara que ajude. Jeff Bezos, patrocinador da Met Gala, foge aos impostos, ajuda o ICE e apoia Trump. Não deixem que ele se safe”, lê-se. Os manifestantes apontam o dedo à associação de Bezos com Trump e à polémica conexão da Amazon com o ICE, que alegadamente hospeda dados para a empresa criadora do software de rastreio e identificação de imigrantes ilegais. A questão tem sido central também para os protestos online. “Alerta para as celebridades: não podes usar um pin que diz ICE Out para a Met Gala patrocinada por Bezos”, diz a influencer e comediante Meredith Lynch num vídeo partilhado nas redes sociais que recebeu o gosto de Bella Hadid — ausente no baile do Metropolitan Museum há três edições.
▲ Cartazes de protesto foram afixados nos arredores do Metropolitan Museum ao longo das últimas semanas
AFP via Getty Images
Uma ausência que deve ser sentida este ano, pelo menos de acordo com a revista Elle, é a da atriz Zendaya, um dos nomes mais proeminentes desta passadeira vermelha, que deve falhar a festa para descansar, depois de duas digressões para a divulgação do filme O Drama e da terceira temporada da série Euphoria. Mas é o alegado “boicote” de Meryl Streep que tem gerado mais manchetes na imprensa internacional. A atriz, que está em plena divulgação de O Diabo Veste Prada 2 (filme no qual vive uma espécie de alter ego de Anna Wintour); e que foi capa da Vogue ao lado da diretora editora global da revista, na verdade nunca pisou a blue carpet, mas de acordo com o Hollywood Reporter chegou a ser convidada para co-anfitriã, mas terá recusado o papel. E para alguns, como a biógrafa de Wintour, Amy Odell, a recusa terá sido motivada pela associação dos Bezos ao evento.
O atual autarca de Nova Iorque, Zohran Mamdani, já declarou que não vai à gala. Entre os seus antecessores, Bill de Blasio e Eric Adams foram pelo menos uma vez ao evento e Michael Bloomberg é figura frequente pelo menos desde 1998. Contudo, a diretora de moda do New York Times, Vanessa Friedman, destaca que nem sempre os presidentes da Câmara Municipal vão ao baile e a principal diferença é que os antigos autarcas não faziam anúncios sobre a sua presença ou ausência na gala. Ao comentar o papel político do evento, Friedman recorda o episódio em que Alexandria Ocasio-Cortez escolheu usar um vestido que dizia “Taxem os ricos” em 2021, mas acabou a ser criticada por ter ido à festa, que atualmente tem bilhetes a serem vendidos por 85 mil euros.
Bezos e a moda
A verdade é que não é sequer a primeira vez que Jeff Bezos patrocina a Met Gala — o milionário já faz parte dos bastidores de grandes eventos de moda desde 2012, quando pisou a blue carpet pela primeira vez ao lado da antiga mulher, Mackenzie Scott, e se sentou entre Anna Wintour e Miuccia Prada na apresentação de imprensa da exposição que deu o mote do baile daquele ano: “Schiaparelli and Prada: Impossible Conversations”. Horas depois, na gala, usou um fato Tom Ford — o que admitiu em entrevista ao New York Times ter sido uma recomendação de Anna Wintour.
▲ Jeff Bezos e a primeira mulher, MacKenzie Scott, na sua primeira aparição na Met Gala, em 2012, quando usou um fato Tom Ford por recomendação de Anna Wintour
FilmMagic
Nesta época, a imagem de Bezos era a de um milionário do setor tecnológico que tentava entrar num novo nicho. A Amazon já vendia roupas, mas naquele ano entrava num setor focado em marcas de luxo, com uma intenção clara de se transformar numa espécie de Bloomingdales online. Para tal, a Amazon assinou contratos com etiquetas como a Michael Kors, Vivenne Westwood e Kate Spade, apesar da rejeição persistente de gigantes como a LVMH, dona de marcas como Dior, Louis Vuitton e Bulgari. Mas parte da estratégia de posicionamento da empresa, especialmente para chegar aos nomes de maior peso dentro do universo high end, foi o financiamento de grandes eventos de moda, como recorda o Wall Street Journal. Entre 2015 e 2017, a Amazon patrocinou a Semana da Moda Masculina de Nova Iorque, por exemplo.
Foi neste meio tempo que Jeff Bezos conheceu Lauren Sánchez, algures em 2016, apesar dos primeiros rumores de romance começarem a circular em 2019. Ao lado da antiga jornalista e piloto de helicóptero, Bezos passou a frequentar red carpets — neste mesmo ano foram fotografados ao lado de Anna Wintour num desfile da Tom Ford. No ano do noivado, 2023, o casal esteve num desfile da Versace na Califórnia em março, e da Staud em Nova Iorque em setembro, além de ir à festa pós Óscares da Vanity Fair, evento a que Lauren foi duas vezes anteriormente, em 2006 e 2011. A primeira aparição de Sánchez numa Met Gala deu-se em maio do ano seguinte, quando vestiu um Oscar de la Renta — recomendação de Anna Wintour. Em 2025 o casal não foi ao evento, mas Lauren Sánchez protagonizou a sua primeira capa da Vogue com o seu vestido de casamento.
▲ A estreia de Lauren Sanchez no evento foi em 2024, quando vestiu um Oscar de La Renta- também uma indicação de Anna Wintour
Getty Images for The Met Museum/
Enquanto o relacionamento com Lauren Sánchez evoluía, os investimentos no setor da moda continuaram. Em 2020, durante a pandemia, a Amazon doou cerca de 430 mil euros para o Council of Fashion Designers (CFDA)/Vogue Fashion Fund, um programa que apoia designers norte-americanos, o que Anna Wintour agradeceu publicamente, através de um comunicado, valorizando “a partilha de recursos para ajudar os criadores afetados pela pandemia”. Desde 2022 que a empresa é uma das patrocinadoras do CFDA Awards, e em outubro de 2025 o Bezos Earth Fund, um fundo criado com o objetivo de financiar projetos que combatem as alterações climáticas, doou mais de cinco milhões de euros ao CFDA para pagar bolsas de estudo e investiu 29 milhões de euros em pesquisas para o desenvolvimento de materiais sustentáveis. Já em 2024 a empresa chegou a comprar uma parte da Saks Fifth Avenue por pouco mais de 400 milhões euros, e fundou a Saks Global, em que a retalhista de luxo vendia os seus produtos através da plataforma online — mas a parceria chegou ao fim depois do anúncio de falência da loja de departamentos.
Galas levaram Costume Institute para o andar principal do Metropolitan Museum
Apesar de não ser um número confirmado, a imprensa norte-americana avança que os Bezos estão a pagar pelo menos 10 milhões de dólares para financiar o evento e a exposição do Costume Institute com o mesmo tema. São os maiores patrocinadores do baile, além de anfitriões honorários, ao lado de co-anfitriões como Beyoncé — que regressa após uma década de ausência — Nicole Kidman, Venus Williams e Anna Wintour. A festa angariou 31 milhões de dólares em 2025, o equivalente a 26 milhões de euros, e de acordo com o New York Times, deve superar o valor este ano.
O Costume Institute — que este ano viu o seu acervo reforçado com uma criação da portuguesa Constança Entrudo — é um dos departamentos do Metropolitan Museum e depende financeiramente da gala. A operação total, incluindo o pagamento de salários, o armazenamento e conservação das mais de 33 mil peças e os custos de exibição e divulgação, ronda os cinco milhões de dólares. Parte do valor arrecadado, cerca de 10%, fica para a administração do museu. O resto, é armazenado num fundo em nome do Costume Institute, criado em 2016, que de acordo com as contas do New York Times, dentro de quatro anos deve alcançar o capital necessário para se tornar autossustentável.
Um dos sinais de que o departamento está a chegar a um patamar de prestígio é a inauguração da nova galeria com mais de mil metros quadrados, adjacente ao hall principal do museu, e que passa a receber a exposição anual de primavera do Costume institute e apresentações que explorem moda e arte. O espaço recebe o nome de Condé M. Nast, um reconhecimento ao papel significativo do fundador da publisher da Vogue. “Está a sair do porão, onde sempre esteve, para ser a primeira coisa que se vê ao entrar no museu. É uma mudança enorme”, comenta a editora de moda do New York Times sobre a nova galeria. O site do Metropolitan Museum destaca que a exposição Costume Art e o baile só são possíveis graças a Jeff Bezos e Lauren Sánchez Bezos — assinalando o “apoio adicional” da Saint Lauren e da Condé Nast. Para além dos recursos destinados ao museu, Anna Wintour costuma defender que a gala gera impacto positivo para o setor do turismo e restauração, movimentando hotéis e espaços gastronómicos de Manhattan ao longo da semana em que se realiza o baile. Isso porque o evento conta com um seleto grupo de 400 convidados, no qual se incluem as celebridades A-list, mas também milionários capazes de pagar 350 mil euros por uma mesa no salão.
[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]