De tempos a tempos aparecem treinadores da moda — jovens treinadores que têm sucesso nos primeiros desafios, que apresentam um projeto inovador e refrescante, que parecem talhados para altos voos. Cesc Fàbregas, como tantos outros antes dele, é o atual treinador da moda. Mas não parece ter qualquer tipo de pressa para chegar aos tais altos voos para que está eventualmente talhado.

Aos 39 anos, o antigo internacional espanhol é treinador do Como desde 2024. Começou por subir da Serie B à Serie A, ficou em 10.º lugar na temporada passada e esta época está em sexto — ou seja, dentro da zona de apuramento para as competições europeias, algo que seria inédito na história dos italianos. Pelo meio, alcançou momentos históricos como o passado dia 19 de outubro, onde a vitória contra a Juventus foi a primeira do clube desde 1952. Por tudo isso e por muito mais, já foi associado ao futuro do Chelsea, do AC Milan e até da seleção de Itália. Por agora, porém, não está interessado.

“A Premier League é o melhor campeonato do mundo. Sempre fui muito claro em relação a isso. Senti isso mesmo como jogador e sinto como treinador, como fã. Mas o Mourinho disse-me um dia, no Chelsea: ‘Ainda tenho 30 anos de trabalho pela frente’. Por isso, hipoteticamente, posso estar aqui durante dez anos e ir para a Premier League durante 12, 15 anos. O futebol é tão imprevisível, muda no espaço de um segundo. Num dia és o melhor, no dia seguinte és o pior. Vamos aproveitar o momento, eu gosto de aproveitar o momento. O que estamos a viver aqui é muito bonito e vamos ver o que o futuro nos reserva”, explicou em entrevista ao jornal The Telegraph.

Fàbregas é acionista minoritário do Como, onde chegou em 2022 e ainda como jogador para terminar a carreira. “Quando tomei a decisão de vir para o Como já sabia que estava nas últimas etapas da minha carreira. Não queria saber onde acabava, só sabia que queria acabar a jogar. Não queria acabar no banco ou lesionado. Mas a minha paixão tornou-se trabalhar com as camadas jovens às quintas-feiras e falar com o Diego [Pérez, treinador adjunto] sobre todas as nossas ideias até às três da manhã”, recordou na mesma conversa.

Antes, enquanto ainda estava no Mónaco, tinha começado a tirar o curso de treinador — aproveitando a paragem de quatro meses da Ligue 1 devido à pandemia de Covid-19 e apressando um plano que já tinha, mas que acabou por ser antecipado . “Um dia, depois de um jogo, disse à minha mulher que tinha sido uma m****. Fui muito mau nos últimos três jogos da temporada. Disse-lhe que não estava a jogar nada, não estava a gostar de treinar, o que é que estava a fazer? Foi aí que decidi terminar”, lembra. Deixou os relvados, começou por estagiar nas camadas jovens do Como e depressa subiu à equipa principal depois do despedimento de Moreno Longo.

Espanhol Cesc Fàbregas coloca um ponto final na carreira aos 36 anos

“Algumas pessoas tiveram tempo para planear a carreira de treinador, eu não tive. Reformei-me e de repente era treinador. De repente fomos promovidos. E por aí fora. Nunca tive tempo para pensar sobre um plano propriamente dito”, acrescenta, garantindo que se sente “na universidade” todos os dias por estar a aprender tudo à medida que as coisas acontecem. Para o ajudar, porém, tem “um pequeno livro preto”: um caderno repleto de ensinamentos, aprendizagens e lições que foi recolhendo ao longo dos anos como jogador e a partir das influências de Arsène Wenger no Arsenal, José Mourinho e Antonio Conte no Chelsea, Pep Guardiola no Barcelona e Vicente del Bosque na seleção de Espanha.

“Comecei o caderno quando estava no Arsenal. Não quando tinha 16 anos, mas talvez com 22 ou 23, antes de ir para o Barcelona. E depois continuei a escrever durante toda a carreira. Voltava muito lá no início, porque era tudo novo. Mas agora, com toda a minha experiência, estou muito mais confiante em tudo o que faço. Se ainda estiver inseguro com alguma coisa, posso abrir o caderno e espreitar, mas já não acontece tanto. Os maiores capítulos são provavelmente sobre o Arsène, porque era tudo novo, e sobre o Conte, porque foi um grande choque para mim, era tudo diferente”, indicou o espanhol.

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Fàbregas conheceu Arsène Wenger ainda enquanto adolescente e foi muito influenciado pelo treinador francês

Ainda assim, e mesmo sendo profundamente inspirado por Wenger, Mourinho ou Conte, Cesc Fàbregas é um produto do futebol da Catalunha e tem o ADN de Pep Guardiola profundamente enraizado. Tanto que, nas próprias palavras, seria incapaz de treinar uma equipa que pretendesse um futebol direto. “Eu treino o que sinto, adoro o jogo. Se só puder treinar para obter resultados, não o faço. Não tenho necessidade disso. Faço-o pela paixão e porque quero fazê-lo à minha maneira. No fim do dia, tenho as minhas crenças. Não vou treinar futebol direto, segundas bolas. Porquê? Porque precisamos de acreditar no que fazemos”, garante o antigo médio, que foi campeão em Espanha e Inglaterra e conquistou dois Europeus e um Mundial com a seleção.

Na entrevista ao The Telegraph, o espanhol conta ainda que fala regularmente com Arsène Wenger, que envia mensagens depois de praticamente todos os jogos do Como, que chega ao centro de treinos às 7h da manhã e só sai depois da meia-noite e que participou na remodelação do ginásio, dos relvados e até do refeitório. Cesc Fàbregas até pode ser o treinador da moda — mas está a preparar-se para ser muito mais do que isso.