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Rússia abriu pavilhão na Bienal de Veneza sob protestos

Quatro anos após ser afastada, a Rússia regressou ao festival de arte mais prestigiado do mundo. A edição deste anos é marcada por demissões, protestos e tensão com Bruxelas.

Bienal de Veneza
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▲Houve poucos visitantes na zona russa em comparação com as mais populares do festival, sendo o seu acesso condicionado

La Biennale di Venezia

▲Houve poucos visitantes na zona russa em comparação com as mais populares do festival, sendo o seu acesso condicionado

La Biennale di Venezia

A Rússia estreou o seu pavilhão artístico no festival da Bienal de Veneza, nesta terça-feira naquela que parece ser a edição mais caótica do evento de 130 anos, envolvendo demissões internas e protestos.

Os problemas começaram logo que  61ª edição da Exposição Internacional de Arte, sob o tema In Minor Keys, de Koyo Kouoh, anunciou no seu catálogo deste ano a presença dos pavilhão da Rússia. O desagrado surgiu de diferentes lados, tanto no plano internacional e nacional como interno e do próprio público.

Houve poucos visitantes na zona russa em comparação com as edições mais populares do festival, sendo o seu acesso condicionado. Além disso, apesar de não haver boicote ou pressão de manifestantes do lado de fora do edifício, a cidade de Veneza foi preenchida em diversas partes por cartazes anti-Rússia. Também houve alguma contestação nas redes sociais da instituição, como o Facebook ou Instagram, lendo-se termos como “vergonha” ou “a evitar”.

Por outro lado, o júri do festival, que é responsável por nomear o vencedor dos prémios do Leão de Ouro no dia de abertura, renunciou nove dias antes. Nnum breve comunicado publicado no website e-flux, informa que se afastou pelos motivos enunciados há um mês  na mesmo sítio. Ou seja, sendo a organização que os convidara uma “plataforma que liga a arte às urgências do seu tempo”, sentiam-se na obrigação de não “considerar os países cujos líderes estão atualmente a ser acusados ​​de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional.” Ainda que não os tenham especificado, é sabido que o Tribunal emitiu um mandato de prisão para o presidente russo, Vladimir Putin, em 2023. No entanto, Pietrangelo Buttafuoco, o presidente da Fundação Bienal, insistiu junto do jornal italiano La Repubblica, que a iniciativa deveria permanecer “aberta a todos” e que estariam “presentes a Rússia, o Irão, Israel,” bem como a Ucrânia e a Bielorrússia.

A exposição artística também provocou atrito com Itália e a União Europeia (UE). Se, por um lado, Bruxelas ameaçou a suspensão dos 2 milhões de euros garantidos à organização italiana para os próximos 3 anos, existe também divisão dentro do próprio governo de Meloni. A primeira-ministra opôs-se à inclusão do pavilhão russo e Matteo Salvini, o vice-presidente no Conselho de Ministros, acusou o organismo europeu de “chantagem vulgar” contra um dos mais importantes “órgãos culturais livres no mundo” em declarações à agência de notícias Ansa. “A arte deve ser uma ponte, não um muro”, argumentou.

Na segunda-feira, Alessandro Giuli, o ministro italiano da cultura tinha anunciado que a secção destinada à Rússia não seria aberta em pleno ao público, só podendo ser vista de fora por uma janela. Em reação, a ministra ucraniana da cultura, Tetyana Berezhna, disse ao jornal The Guardian que se “as plataformas culturais moldam a perceção global,” definindo “o que é considerado aceitável e cujas vozes são amplificadas,” então “toda a forma de representação importa.” Por outro lado, conta o New York Times, a representante ucraniana no evento, Zhanna Kadyrova, disse que era fácil os italianos aceitarem a Rússia de volta por não terem tido de lidar com ameaças diárias de ataques como os que ela viveu.

O acesso ao pavilhão manter-se-á condicionado e apenas visitável durante a press preview de terça-feira a sexta-feira desta semana. Ainda que fique encerrado ao público a partir deste fim-de-semana, será possível ver vídeos das interpretações musicais do grupo folclórico e de D.J. que atuaram no espaço em vez da exposição de pinturas ou esculturas, por exemplo.

O anúncio de que a Rússia teria o seu pavilhão em maio deste ano foi feito por Mikhail Shvydkoy, o Representante Especial russo para a Cooperação Cultural Internacional, a 2 de março, conta a ARTnews. Frisou junto da mesma revista que a Rússia nunca tinha abandonado o festival e que, assim, não estavam a “voltar”, mas “simplesmente à procura de novas formas de atividade criativa nas circunstâncias atuais.” Contudo, há precisamente quatro anos no mesmo dia, pouco depois do início da invasão russa de larga escala da Ucrânia, a Bienal de Veneza tinha feito um comunicado no seu website oficial em que anunciava apoio e participação ucraniana no festival desse ano, opondo-se aos agressores e seus apoiantes. A Rússia não tinha voltado a participar desde então no evento que ocorre a cada dois anos, tendo em 2024 cedido o seu espaço para a Bolívia na 60º edição do festival.

A Bienal de Veneza é uma das mais prestigiadas instituições dedicadas às artes, existindo há já 130 anos. Além da Exibição Internacional de Arte com que iniciou a sua atividade, em finais do século XIX, os anos 1930 trouxeram novos festivais ligados à música, cinema e teatro. Mais tarde, foi a vez da arquitetura, na década de 1980, e da Dança, em finais da seguinte.

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