O secretário-geral da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) defendeu esta terça-feira que Portugal e Espanha têm um papel crucial para construir pontes entre América Latina e União Europeia (UE), que ainda têm agenda pendente em várias matérias.

“As pontes naturais entre a União Europeia e a América Latina são Espanha e Portugal. Este é um facto evidente. Estes são os países que realmente se interessam e preocupam [com] a América Latina, porque temos uma tradição, línguas comuns e um volume económico e uma atividade económica muito fortes”, declarou Mariano Jabonero à Lusa, em Lisboa.

Segundo Jabonero, há uma “agenda pendente” entre a UE e a América Latina e a posição de Portugal e Espanha é crucial, porque têm uma ligação forte com os latino-americanos, assim “são os países que têm de liderar esta relação, de uma forma ou de outra”. Indicou ainda que França e Itália também se interessam em manter uma relação mais próxima com a América Latina.

“A ligação euro-americana é essencial. Para mim, trata-se de uma questão ainda por desenvolver [em diversas áreas]”, afirmou o secretário-geral da OEI, sublinhando que houve um hiato de oito anos (entre 2015 e 2023) nas cimeiras UE-CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

“Oito anos sem uma cimeira entre a América Latina e a Europa não é um bom sinal”, referiu, indicando que, posteriormente, já houve duas reuniões, em Bruxelas, Bélgica (2023) e em Santa Marta, na Colômbia (2025).

Estas duas mais recentes cimeiras “acontecem precisamente quando a Europa está a atravessar um momento traumático, nomeadamente com a guerra na Ucrânia, a pressão de África, o problema da energia, o lítio”.

O secretário-geral da OEI sublinhou que “estamos a viver um momento de uma crise estratégica muito forte, uma crise multilateral, não vou explicá-la porque é bem conhecida”. “Atualmente, existem três centros de poder, nomeadamente Pequim, Moscovo e Washington. A América Latina e a Europa são a periferia, certamente, neste momento”, afirmou.

“Nós somos a periferia. É a primeira vez que a história da América Latina e da Europa está a ser escrita para nós a partir do exterior e não por nós. Isto nunca aconteceu antes. Entretanto, ser a periferia não precisa ser mau, pode ser uma grande oportunidade. É uma grande oportunidade, se juntarmos o Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e o da Europa, estaríamos a falar de mais de 25% do PIB mundial”, disse.

O responsável da OEI referiu que esta é uma ótima oportunidade para a América Latina e Europa compreenderem-se e entenderem-se mutuamente, porque os europeus têm “uma capacidade de conhecimento incrível” e a América Latina “tem a região mais rica do mundo em termos de recursos naturais”.

Mariano Jabonero afirmou, entretanto, que a atual configuração de poderes — China, Estados Unidos e Rússia — não é uma geometria estável, que pode mudar em qualquer altura.

Sobre a guerra do Irão, declarou que “é uma guerra conduzida por Israel e pelos Estados Unidos e que afeta claramente as economias dos países das regiões” da OEI, assim como o mundo como um todo. “E quando afeta a economia, começa-se sempre por cortar no mesmo sítio: na cooperação, na educação e na cultura”, sublinhou.

“De uma forma ou de outra, está a afetar a economia da região [ibero-americana]. Isto é complicado. A este respeito, estamos numa situação algo especial, porque somos a única organização de cooperação ibérica que não depende dos Estados Unidos em um único dólar”, sublinhou, dizendo que também não o quiseram e que os seus parceiros são a União Europeia e outras entidades, como o Banco Mundial.

Mariano Jabonero também destacou o papel de Portugal no seio da OEI, indicando que é um país com uma forte reputação — nomeadamente no campo da educação, desenvolvendo vários projetos — e por ser uma ponte com os países africanos de língua portuguesa.