A multidão no exterior do Ed Sullivan Theatre, em Nova Iorque, casa do The Late Show há 33 anos, é evidência da realidade inevitável: após 11 anos como líder de audiências no panorama da late night television, o programa apresentado por Stephen Colbert chegou ao fim. Numa noite emotiva, o humorista despediu-se da “máquina de alegria” das noites da CBS ao lado de um elenco de convidados invejável, sem descartar o habitual humor crítico e ágil: entre censuras à administração Trump e ao canal de televisão, sucederam-se momentos musicais, um Papa Leão XIV mal-disposto e uma pitada de fantasia.
O último programa de Colbert abriu com um segmento de quatro minutos, em que se dirigiu à audiência ao vivo e aos espectadores em casa. “[Durante anos,] estivemos aqui para sentir as notícias convosco e, não sei vocês, mas eu certamente senti-as”, admitiu o apresentador, tirado do ar pela administração da CBS por alegados problemas financeiros. A decisão, tornada pública pelo próprio Colbert no passado mês de julho, esteve envolta em polémica, uma vez que foi avançada poucos dias depois de o humorista acusar a Paramount (empresa-mãe do canal) de ter praticado “um grande e gordo suborno” à administração Trump, a fim de consumar um negócio milionário.
Wow. In one of the most emotional moments in television history, Stephen Colbert signs off his show’s last opening monologue by sharing that he realized his job was to “feel the news” with us.
What a class act and an extraordinary person. Thank you Stephen. pic.twitter.com/q8nZoyTHuQ
— CALL TO ACTIVISM (@CalltoActivism) May 22, 2026
Colbert assumiu o papel de anfitrião em 2015, após a despedida de David Letterman, à frente do The Late Show desde a estreia, em 1993. Com o fim do programa, a CBS fica com um espaço vazio na programação, o qual será ocupado pelo comediante Byron Allen, com o original Comics Unleashed. A nova estrela do canal promete um formato diferente, “sem política”, segundo admitiu no matutino CBS Mornings.
Já a distribuídora homenageou Colbert com uma montagem de colegas apresentadores, com a legenda “Uma mensagem especial dos nossos amigos do late-night do passado e do presente”. “Ele parece um tipo malvado, não é? Está a ficar mais gordo a cada episódio”, dizem vários recortes de lendas do entretenimento televisivo, desde Conan O’Brien a Ed Sullivan ou Arsenio Hall. “Eu preferia ver o The Late Show com o Kanye West e o Voldemort”, continuam.
Com a última emissão agendada para 21 de maio, o The Late Show consagrou o seu estatuto como o programa de entretenimento noturno mais popular dos Estados Unidos através de uma série de episódios especiais, em que entrevistou o ex-Presidente Barack Obama, conversou com Bruce Springsteen e contou com o apoio dos seus homólogos do mesmo horário televisivo noutros canais. Os Avengers da comédia televisionada juntaram-se em reconhecimento do colega, sugado por uma espécie de buraco negro interdimensional “que engole tudo o que conhecemos e amamos”, refletiu o anfitrião do The Daily Show, Jon Stewart.
O fenómeno fantástico, feito à medida de Colbert — que é um fã declarado da saga Star Trek —, projetou uma luz verde fluorescente no estúdio da Broadway durante a noite de quinta-feira. “Um destes buracos abriu no meu estúdio no ano passado, mas desapareceu após três dias”, admitiu Jimmy Kimmel, em referência à suspensão do programa que apresenta (Jimmy Kimmel Live!) durante um breve período no ano passado, por pressão do movimento MAGA e da Comissão Federal de Comunicações americana.
Seth Meyers (anfitrião do Late Night), John Oliver (Last Week Tonight) e Jimmy Fallon (The Tonight Show with Jimmy Fallon) completaram o grupo de gigantes do late-night que ficou conhecido como Strike Force Five, nome do podcast que criaram para apoiar os funcionários da indústria que ficaram sem trabalho durante a greve do Writers Guild of America, em 2023.
Can Strike Force Five save Colbert's wormhole-ridden series finale? pic.twitter.com/5ySxw1yXz6
— LateNighter (@latenightercom) May 22, 2026
Antes do cameo de apresentadores de programas concorrentes, outras caras conhecidas surpreenderam com aparições entre os membros da audiência. O protagonista da série Breaking Bad, Bryan Cranston, interrompeu o monólogo de Colbert reivindicando o direito de ser o último convidado do programa. A proposta foi recusada, mas repetida pelo ator Paul Rudd, que presenteou o amigo e apresentador com não seis, mas cinco bananas — Rudd comeu uma no processo.
O humorista Tim Meadows, que se popularizou no elenco de Saturday Night Live, mostrou-se ofendido por não receber a honra de uma última entrevista no Late Show. “Vai-te lixar, Colbert!”, gritou em tom cómico. “Sabes que mais? Tu tiveste o que merecias. Dá-me essas bananas!”, acrescentou, enquanto roubava o presente de Rudd.
Entre piadas e interações com o público, Colbert introduziu mais participações especiais, nomeadamente da comediante Tig Notaro e do ator Ryan Reynolds. Não poupou nas críticas à CBS, que ameaçou sujeitar a problemas judiciais por utilização ilegal de uma música tocada pela sua banda, nem a Donald Trump. Desde a primeira eleição do republicano que o apresentador se assumiu como uma voz contra a respetiva administração, atitude que muitos fãs pensam ter sido determinante para o fim do programa.
Entretanto, o Presidente já comentou a saída de Colbert da programação da CBS. “Impressionante que tenha aguentado tanto tempo!”, escreveu na rede social Truth. “Sem talento, sem audiência, sem vida. Qualquer pessoa tirada da rua faria um trabalho melhor do que este completo idiota. Graças a Deus que finalmente saiu!”
Uma noite (pouco) abençoada e um adeus temporário
O tão esperado convidado final do programa merecia ser uma pessoa importante, e quem melhor do que o primeiro Papa americano, Leão XIV, para abençoar a saída de cena de Colbert? Pois não, apesar de todas as preces que o apresentador dirigiu ao Vaticano. Enquanto preparava a entrada do sumo pontífice, foi interrompido por um membro de staff que explicou a recusa do Papa de abandonar os camarins. “Não lemos todas as suas exigências e não temos os snacks que pediu”, afirmou, diante de uma porta onde um sujeito de costas e batina branca reclamava da qualidade dos cachorros-quentes disponíveis no estúdio.
Jokingly, Stephen Colbert forgot to introduce Paul McCartney as the last guest on "The Late Show with Stephen Colbert," and Paul replied, "What about me?" May 21 2026 pic.twitter.com/T75f0m4KMx
— DIÁRIO DOS BEATLES (@Diario_Beatles) May 22, 2026
“O Papa, que definitivamente era o meu convidado hoje, cancelou”, admitiu Colbert. “Já mandámos embora as outras estrelas. Isto é terrível. Quem vai ser o meu último convidado agora?” Eis que entra Paul McCartney, entre aplausos do público: “Hei, Stephen, então e eu?” De regresso ao palco de estreia dos Beatles na América, no programa de Ed Sullivan, em 1964, o músico teve direito a uma entrevista que mais pareceu uma viagem no tempo.
Com 83 anos, McCartney recordou a primeira impressão que teve dos EUA e as jovens aos gritos diante de uma das bandas mais marcantes de sempre — um fenómeno que ficou conhecido como beatlemania. “Trouxe uma coisa para ti”, disse a Colbert, antes de lhe oferecer uma fotografia emoldurada do programa de Ed Sullivan em questão com a legenda “Para o Stephen. És melhor do que os Beatles”.
Diante da força de um buraco negro cada vez mais voraz, Colbert juntou-se a Jon Batiste, líder original da banda residente do programa, para cantar a canção de Elvis Costello, que também marcou presença na celebração, Jump Up. Mas a verdadeira despedida tomou a forma de um olá agridoce, ao som da guitarra e voz de Paul McCartney e de um público efusivo, que cantava o sucesso dos Beatles, Hello, Goodbye. Um adeus para o público no estúdio e ao redor do mundo, Colbert pisca o olho a projetos futuros e promete não desaparecer do radar. Como se costuma dizer, quando se fecha uma porta, abre-se uma janela.
12:53 AM ET. The end. The final 90 seconds of The Late Show with Stephen Colbert. pic.twitter.com/bRilV7n90l
— Brent Baker ???????????????? ???????? (@BrentHBaker) May 22, 2026
Abandonando a sala numa marcha ao ritmo da música, o apresentador juntou-se a McCartney nos bastidores, onde a dupla desligou o interruptor legendado com o nome do programa. Com a luz apagada, o edifício da Broadway foi consumido por um raio de luz verde que esmagou a estrutura de cimento como se fosse uma folha de papel. O teatro, sugado pelo vórtex, transformou-se num globo de neve — em referência ao fim do drama da década de 1980, St. Elsewhere, em que tudo foi um sonho.
Mas o The Late Show foi verdade e não deixará de o ser tão cedo: o cenário de gravações foi doado ao Museu de Comunicações e Radiodifusão de Chicago, que os fãs mais saudosistas podem visitar a partir de meados de julho.