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Stephen Colbert
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▲A grande pergunta que se segue é: então, o que vai Stephen Colbert fazer a seguir? Há forte possibilidade de nem o próprio saber, pelo que nos restam exercícios de especulação, mais complexos do que parecem à primeira vista

Scott Kowalchyk /CBS

▲A grande pergunta que se segue é: então, o que vai Stephen Colbert fazer a seguir? Há forte possibilidade de nem o próprio saber, pelo que nos restam exercícios de especulação, mais complexos do que parecem à primeira vista

Scott Kowalchyk /CBS

E agora, Stephen Colbert: quem vai rir por último?

Líder de audiências no formato "late night", símbolo internacional do humor feito de sátira política, o americano fica sem programa em maio. Susana Romana reflete sobre causas, consequências e piadas.

Na peça basilar de Shakespeare Rei Lear, o monarca protagonista permite que a personagem do Bobo o critique abertamente, enquanto exige obediência e bajulação de todos os outros. Apesar da sua aparente tontice, o Bobo surge como uma espécie de voz da lucidez, de criança que grita desvairadamente que o rei vai nu. Porém, no final do terceiro ato, quando o rei está irremediavelmente louco, o Bobo desaparece da peça: Lear encontra-se completamente fora do alcance da racionalidade ou da crítica. Em 1606 como em 2025, o calar da voz do Bobo nunca é um bom sinal. Sabemos como as ditaduras, nas suas diferentes formas e feitio, são intolerantes com o humor.  E, nas ditaduras assentes no culto da personalidade, o potencial vexame ao líder é o pior dos crimes.

É, por isso, natural que se extrapolem os sintomas e as consequências da morte anunciada de um dos programas de televisão mais importantes do panorama atual (mesmo que, assuma-se, isso dos “programas de televisão” tenha um impacto notoriamente menor do que já teve). No passado dia 17 de julho, poucos dias depois do regresso das férias de verão, a CBS anunciou que vai cancelar The Late Show With Stephen Colbert no final desta temporada, em maio de 2026, encerrando definitivamente após 33 anos no ar o mítico formato que começou com David Letterman.

A CBS fala em perdas financeiras significativas do programa (fonte do canal avança com 40 a 50 milhões), mas a dúvida instalou-se automaticamente perante os ventos (furacões?) de mudança nos Estados Unidos. É que esta inesperada decisão surge dias depois de Colbert ter criticado a empresa-mãe, Paramount, por pagar 16 milhões de dólares a Donald Trump de modo a resolver um processo relacionado com a edição de uma entrevista a Kamala Harris no programa 60 Minutes. O apresentador, no tom cáustico que o caracteriza, acusou a Paramount de “um grande suborno”. O monólogo coincidiu com a tentativa da Paramount de obter aprovação para uma fusão de 8,4 mil milhões de dólares com a Skydance Media. Colbert, que apresenta o programa desde 2015, sentou-se três dias depois de olhos humedecidos na icónica secretária do programa e deu a notícia ao público, sublinhando que não haverá substituição: “Não é só o fim do meu programa, é o fim do Late Show na CBS”.

Reações e piadas: “Late night squad assemble!”

A avalanche de reações foi quase imediata. Por um lado, Donald Trump regou gasolina nas teorias de que os verdadeiros motivos são políticos. “Adoro que o Stephen Colbert tenha sido despedido”, escreveu na sua própria rede social, a Truth Social. “O talento dele era ainda pior que as audiências. Ouvi dizer que o Jimmy Kimmel é o próximo, é ainda menos talentoso.” Os posts têm prosseguido, continuando a pedir a cabeça de Kimmel e acrescentado à lista o aparentemente inócuo Jimmy Fallon, ele que se tornou um símbolo da normalização da figura de Trump quando, na campanha de 2016, o convidou para o seu sofá e lhe fez (literalmente) festinhas na cabeça.

O Presidente dos Estados Unidos fala na ótica do seu gosto pessoal (o único que interessa), mas também pelo lado das audiências. É preciso não esquecer que Trump, tal como o conhecemos hoje, lucra de um estatuto de celebridade que lhe vem, exatamente, da televisão, depois do sucesso do reality show The Apprentice. E mesmo sentado na Sala Oval da Casa Branca pela segunda vez, continua a ser uma criatura competitiva nessa rodinha de hamster da popularidade no seu nível mais star system.

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▲ A CBS fala em perdas financeiras significativas do programa (fonte do canal avança com 40 a 50 milhões), mas a dúvida instalou-se automaticamente perante os ventos (furacões?) de mudança nos EUA

Anadolu via Getty Images

Do outro lado, políticos democratas, atores e comediantes apressaram-se a defender Stephen Colbert. Os fiéis depositários das outras secretárias de talk shows humorísticos foram dos mais efusivos, cientes de que isto pode ser só o início. Jimmy Kimmel foi logo dos primeiros, no seu monólogo de abertura do dia seguinte: “Adoro-te, Stephen. Vão-se foder e todos os vossos Sheldons, CBS!” (uma referência aos constantes spin offs que o canal televisivo continua a fazer de Big Bang Theory). O Late Night with Seth Meyers está em pausa, mas o apresentador usou as redes sociais: “Por mais excelente comediante e anfitrião que seja, o Stephen Colbert é uma pessoa ainda melhor. Vou sentir falta de o ver todas as noites na TV, mas estou entusiasmado porque ele já não vai poder usar a desculpa de que está demasiado ocupado para sair comigo”. Fallon, geralmente cauteloso, também usou o monólogo do seu programa da NBC:  “O Stephen fez anos de televisão incrivelmente inteligente e hilariante e já ganhou 10 Emmys. Trump ouviu isto e disse: ‘Grande coisa, ainda na semana passada ganhei um troféu da Taça do Mundo da FIFA.’”  — isto numa referência ao facto de Trump ter permanecido com a equipa do Chelsea mesmo depois de ter entregado a taça da final do campeonato do mundo de clubes, que decorreu nos Estados Unidos.

Já a série South Park, que estreou esta semana a sua 27.ª temporada, foi direta à questão sem passar pela casa de partida e recolher dois contos, com um episódio arrasador, chamado “Sermão da Montanha” — isto dias depois dos criadores Trey Parker e Matt Stone terem assinado um mega contrato de 1,5 mil milhões de dólares com a… Paramount, dona da CBS. O episódio centra-se na presença de Jesus nas escolas de South Park em forma de paródia ao programa 60 Minutes, numa clara sátira ao recente conflito entre a Paramount e Trump em torno do principal programa noticioso da CBS. Em determinada altura da trama, Jesus diz aos pais dos alunos: “Vocês viram o que aconteceu à CBS? Adivinhem quem é o dono da CBS? A Paramount. Querem mesmo acabar como o Colbert? Vocês têm de parar de ser estúpidos… Ele também tem poder para processar e aceitar subornos e pode fazer tudo a qualquer pessoa. É o fucking president, meu… é o fim do South Park!”.

Até David Letterman, antecessor de Colbert no formato que comandou durante 22 anos, partilhou uma montagem das muitas vezes em que gozou com a sua própria cadeia ao longo dos anos, quando ainda trabalhava na CBS. “A CBS não se escreve sem BS”, lê-se na legenda do vídeo. BS é a abreviatura para “bull shit”, uma expressão informal que se refere a uma mentira e/ou conversa fiada para tapar o sol com a peneira.

Mas a reação mais longa, detalhada e apaixonada veio de um antigo colega de armas de Colbert: Jon Stewart. De novo aos comandos do Daily Show, programa onde trabalhou com o quase ex-CBS durante praticamente uma década, Stewart argumentou, gritou, cantou e até chamou um coro de gospel. “Reconheço que a televisão late night é um modelo financeiro em dificuldades. Basicamente, estamos todos a trabalhar num quiosque da Blockbuster dentro de uma loja de CDs da Tower Records. Mas quando a tua indústria enfrenta mudanças, não te limitas a desistir. (… ) Se estão a tentar perceber porque é que o programa do Stephen vai acabar, não acho que a resposta esteja num e-mail bombástico ou numa chamada do Trump para os executivos da CBS, nem sequer nas folhas de cálculo da CBS sobre a saúde financeira do late night. Acho que a resposta está no medo e no pré-conformismo que está a dominar todas as instituições americanas neste preciso momento, instituições que escolheram não enfrentar as ações vingativas e rancorosas do nosso Presidente (…). Para essas empresas, anunciantes, universidades e escritórios de advocacia, a todos eles: se ainda pensam que se curvarem vos vai salvar, tenho uma coisa a dizer: [começa a cantar] Eu sei que tens medo, sei que estás cansado, sei que os teus planos não me incluem a mim, mas estes são tempos difíceis, por isso despacha-te e encara-os — sack the fuck up!”.

Os cavaleiros dos talk shows juntaram-se mesmo no programa de Colbert, para o apoiarem publicamente num sketch que parodiava a recente bronca com um casal de amantes num concerto dos Coldplay. Num aparente momento musical para consolar os fãs, Stephen chamou Lin-Manuel Miranda e Weird Al Yankovic para interpretarem Sky Full Of Stars enquanto uma câmara filmava o público, em busca de casais. Só que os “casais” apanhados pela câmara de público do Late Show foram: Jimmy Fallon e Seth Meyers da NBC; Anderson Cooper, da CNN, e Andy Cohen, da Bravo (que têm apresentado juntos a contagem decrescente da Passagem de Ano na CNN nos últimos anos); Adam Sandler e Christopher McDonald (Happy Gilmore, Hacks); e ainda John Oliver, do Last Week Tonight da HBO, e Jon Stewart. Na partilha do excerto pela equipa de Colbert na rede social Tik Tok, a conta oficial de Fallon Tonight comentou: “Late night squad assemble!” (algo como “grupo do late night reunido”, mas numa referência ao linguajar dos filmes de super-heróis).

Apesar de uma certa unanimidade em torno do apresentador e comediante, há mesmo no meio vozes discordantes. O ator Robert Schneider, ex-membro do programa SNL (e muito amigo de Adam Sandler, que deu a cara no sketch acima mencionado e que tem a fama de ser quem vai mantendo a carreira do Deuce Bigalow à toa) começou por dizer: “Os programas de late night, e não quero ofender, iam desaparecer de qualquer maneira. Acho que é só porque as pessoas estão a olhar para os seus telefones.” E acrescentou, mais crítico: “No que toca à comédia, o que é engraçado vai ser sempre engraçado. Se for demasiado narcisicamente político, vai ser rejeitado. Quero dizer, porquê deixar de lado metade do país? E isso é um dos problemas que se têm visto. Mas esses problemas, numa sociedade capitalista, acabam por ser corrigidos.”

Stephen Colbert: repórter, comentador, alvo

Mas quem é, afinal, o homem no centro desta discussão, “o mártir” como o próprio se apelidou ironicamente no primeiro programa que fez depois da oficialização do fim do programa? Stephen Colbert nasceu a 20 de abril de 1964 em Charleston, curiosamente o local que em agosto de 2017 foi palco do comício “Unite the Right”, que atraiu nacionalistas brancos e outros grupos da extrema-direita. O evento tornou-se violento, com confrontos entre manifestantes e contra-manifestantes, e é tristemente célebre pelo ataque com um carro que matou uma contra-manifestante. É num rescaldo deste acontecimento que Trump, então no primeiro mandato, proferiu a famosa tirada de que havia “very fine people on both sides”. Colbert não tardou a reagir:

Treinado em comédia de improviso pelo Second City de Chicago, uma das escolas de comédia mais influentes do mundo, Colbert tornou-se conhecido como repórter e comentador do Daily Show (entre 1997 e 2005). Apesar de usar o seu nome, estava sempre em personagem – mais concretamente como o Reverendo Sir Dr. Stephen T. Mos Def Colbert D.F.A.. Esta personagem teve tal sucesso que ganhou o próprio espaço, no programa “The Colbert Report” (e, ocasionalmente, ainda apareceu no The Late Show da CBS). Ironia das ironias tendo em conta o desfecho atual: este Stephen Colbert era um comentador político satírico de direita, uma caricatura dos comentaristas conservadores, que frequentemente defendia argumentos rebuscados e raciocínios ilógicos, mantendo sempre uma atitude pomposa e segura de si. Uma caricatura numa altura em que o mundo era um lugar bem diferente e um ou outro apresentador da Fox News, agora considerado moderado ou até woke, era um pináculo do pensamento conservador.

“Late night”: um formato em declínio?

Apesar das incongruências da argumentação da CBS para acabar com o programa, a verdade é que o atual prognósticos dos talk shows humorísticos é reservado. A própria CBS terminou em 2024 o The Late Late Show com James Corden, um programa que até tinha um segmento constantemente viral nas redes sociais: Carpool Karaoke, em que o apresentador dava boleia a cantores para que ambos cantassem em plenos pulmões. O fim do programa terá sido ditado pela decisão de Corden sair para passar mais tempo com a família, mas a verdade é que o programa estaria a perder cerca de 20 milhões por ano e Corden nunca foi verdadeiramente substituído por outro apresentador para o formato.

Mais: a receita publicitária dos programas de late night nos Estados Unidos caiu para metade nos últimos sete anos e recentemente a televisão em sinal aberto (broadcast) caiu pela primeira vez para menos de 20% de toda a audiência televisiva. É o YouTube quem domina consistentemente a maior parte do consumo de televisão e streaming, segundo a empresa de audiências Nielsen Media Research, representando 12,8% de todo o uso de streaming e TV em junho deste ano. Além disso, a empresa de dados publicitários Guideline estima que os late nights tenham gerado 439 milhões de dólares em receitas publicitárias em 2018 e apenas 220 milhões em 2024 — uma queda de quase 50 por cento.

Em 2025, o programa de Colbert teve uma média de 2,42 milhões de telespectadores ao longo de 41 episódios inéditos, superando confortavelmente o Jimmy Kimmel Live! da ABC (1,77 milhões) e o The Tonight Show Starring Jimmy Fallon da NBC (1,19 milhões).  O Hollywood Reporter sumariza: "O teu negócio tem um problema sério se não consegues vencer simplesmente vencendo". Colbert já era número 1, o que podia fazer mais?

Falamos de um tipo de programas que é inerentemente caro de produzir, com centenas de colaboradores e produções elaboradas em estúdio. Além disso, este tipo de talk shows diários em cima da atualidade noticiosa são kryptonite para as plataformas de streaming, uma vez que a ligação à atualidade limita muito a longevidade do conteúdo. Ninguém vai fazer binge da primeira temporada décadas depois, como se fosse o Friends.

No meio deste Titanic, porém, não deixa de ser curioso que seja Stephen Colbert a levar com o iceberg em cima. É que o host da CBS é, apesar de tudo, quem apresenta melhores números. Em 2025, o seu programa teve uma média de 2,42 milhões de telespectadores ao longo de 41 episódios inéditos, superando confortavelmente o Jimmy Kimmel Live! da ABC (1,77 milhões) e o The Tonight Show Starring Jimmy Fallon da NBC (1,19 milhões).  O Hollywood Reporter sumariza: “O teu negócio tem um problema sério se não consegues vencer simplesmente vencendo”. Colbert já era número 1, o que podia fazer mais?

“Vê lá se agora tem graça?”

Com a ideia de que podemos estar perante um caso de censura a ganhar adeptos, é importante contextualizar que a comédia e a censura têm uma história longa – e internacional. Teremos de nos focar em apenas alguns exemplos.

Nos EUA, em 1972, o comediante de stand up George Carlin lança o infame monólogo Seven Words You Can Never Say on Television, que compila as sete palavras consideradas impróprias ou obscenas que, segundo Carlin, não podiam ser ditas na TV americana (sob as regras da FCC – Federal Communications Commission): shit, piss, fuck, cunt, cocksucker, motherfucker, tits.  Em 1973, o monólogo levou a um caso famoso (FCC vs. Pacifica Foundation) quando foi transmitido por uma rádio, resultando numa decisão do Supremo Tribunal dos EUA que definiu regras para conteúdo “indecente” no ar.

No Egito, o comediante Bassem Youssef, considerado “o Jon Stewart egípcio”, foi investigado pelo Ministério Público do país em 2013 por “distúrbios à segurança pública” com o seu programa, acabando perseguido até fugir para o Dubai em 2014. Na Índia, Vir Das (que tem atualmente um especial de stand up no top da Netflix) fez um texto em que falava de “duas Índias” – e o porta-voz do partido no poder Bharatiya Janata (BJP), apresentou uma queixa à polícia contra Das por “insultar o país”, sendo considerado um traidor.

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▲ Apesar das incongruências da argumentação da CBS para acabar com o programa, a verdade é que o atual prognósticos dos talk shows humorísticos é reservado

Getty Images

Ainda muito recentemente, o angolano Gilmário Vemba foi impedido de entrar em Moçambique, onde tinha um espectáculo esgotado, por alegados problemas de visto – semanas depois de ter criticado o governo e celebrado a oposição. Mesmo no seu país natal, Vemba incorre em tensões com o poder político — como explicou em entrevista ao Observador: “Em Angola temos uma ‘política tóxica’ e eu estou de um lado que é perigoso, é roçar o fio da navalha”.

Mas mesmo em democracias, o caminho das pedras do humorista nem sempre é fácil. Que o diga Herman José. Teve grande parte dos seus 50 anos de carreira já fora do lápis azul do Estado Novo, mas isso não o impediu de dois casos bem conhecidos: o sketch com a Rainha Santa Isabel em Humor de Perdição (1987) e a rábula sobre a Última Ceia do Herman Zap (1996). O primeiro ditou o cancelamento do programa e um período de más relações entre o comediante e a estação de televisão pública. E o segundo foi criticado pela Igreja e pelo líder da oposição: Marcelo Rebelo de Sousa.

E acabamos sempre a voltar a Jon Stewart, o maior aliado de Colbert. Depois de duas temporadas do programa de atualidade The Problem, para a Apple TV+, o mesmo foi cancelado em 2023. O New York Times noticiou que apresentador e plataforma tiveram divergências sobre os temas a abordar na terceira temporada, incluindo inteligência artificial e a China. Mais tarde, membros da Câmara dos Representantes dos EUA questionaram o CEO da Apple, Tim Cook, sobre se a decisão da gigante tecnológica de cancelar o programa de Stewart se deveu ao facto de o apresentador poder estar a planear um episódio sobre a China.

O que pode acontecer agora?

A grande pergunta que se segue é: então, o que vai Stephen Colbert fazer a seguir? Há forte possibilidade de nem o próprio saber, pelo que nos restam exercícios de especulação, mais complexos do que parecem à primeira vista. A primeira hipótese, quase unanimemente descartada, é que o apresentador de 61 anos (62 quando o programa acabar) simplesmente se reforme. Porém, o fim do programa não foi uma escolha dele (nomes como Trevor Noah abandonaram a televisão, mas por vontade própria). Por isso, esta opção soaria como um atirar da toalha, como uma espécie de admissão de culpa e de irrelevância.

Há quem especule que Colbert se pode dedicar a uma carreira bem diferente, já que na sua Carolina do Sul natal um dos lugares no Senado ficará vago no próximo ano. Colbert tem sido, ao longo do seu percurso, algo esquivo quando entrevistadores lhe perguntam se sonha com a Casa Branca. Poderá um dia a televisão eleger outro Presidente, desta vez democrata?

Porém, os possíveis caminhos são ardilosos. Os canais clássicos dificilmente quererão suportar os custos e os riscos de albergar um nome tão assumidamente anti-Trump. Mas o streaming está longe de ser o el dourado que durante muito tempo se pintou. A Apple TV+, como já evidenciado, não se quererá voltar a meter num conteúdo de humor político depois do que sucedeu com Stewart. E, já agora, aqueles que sonham com regresso ao Daily Show podem tirar o cavalinho da chuva: a Comedy Central também faz parte da Paramount, dona da CBS.

A HBO Max já tem John Oliver e o seu Last Week Tonight (grande responsável por Late Night With Stephen Colbert nunca ter ganho um Emmy, já que perde sempre para o britânico). Oliver é constante na sua crítica não só a Trump, mas aos sucessivos donos da HBO (desde 2022 que é a Warner Bros. Discovery, Inc), que classifica de “business daddies”. Talvez não precisem de outro programa com características semelhantes – e dores de cabeça para equipas de advogados idênticas.

Uma solução muito apontada pelos fãs tem sido a Netflix. Nesse caso, Colbert voltaria assim a seguir os passos de David Letterman, seu antecessor na CBS, que apresenta o programa de entrevistas My Next Guest. O gigante de conteúdos já arriscou em vários talk shows, como Chelsea com Chelsea Handler, Everybody’s Live com John Mulaney e Patriot Act com Hasan Minhaj. Mas este último foi cancelado em 2020 com algum estrondo, alegando audiências fracas e um ambiente de trabalho tenso – e, já agora, os riscos causados por um polémico episódio sobre a Arábia Saudita.

Colbert pode também optar por ter o seu próprio podcast, com as suas próprias regras, seguindo o retumbante sucesso do segundo fôlego da carreira de Conan O’Brien (polemicamente despedido pela NBC em 2010, mas por motivos de incompatibilidade com o canal e com Jay Leno). O’Brien não só lançou um podcast de sucesso pioneiro (Conan O’Brien Needs A Friend), como também criou uma rede inteira de podcasts, que vendeu à SiriusXM por uns confortáveis 150 milhões de dólares.

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▲ O próximo capítulo é um gigantesco ponto de interrogação. Mas os devotos de Colbert podem meter o babete enquanto gozam de um enorme banquete de despedida

Getty Images

Mas… e se o futuro não só não passar pela televisão ou pelos media mas sim pelo terreno do seu maior adversário, a política? Há quem especule que Colbert se pode dedicar a uma carreira bem diferente, já que na sua Carolina do Sul natal um dos lugares no Senado ficará vago no próximo ano. Colbert tem sido, ao longo do seu percurso, algo esquivo quando entrevistadores lhe perguntam se sonha com a Casa Branca. Poderá um dia a televisão eleger outro Presidente, desta vez democrata? É que The Apprentice, ao fim de dez temporadas, também foi cancelado por causa de audiências e estagnação do formato…

O próximo capítulo é, assim, um gigantesco ponto de interrogação. Mas os devotos de Colbert podem meter o babete enquanto gozam de um enorme banquete de despedida. Até maio de 2026 (será que lá chega?) vão ser 10 meses de “gloves off”, segundo o próprio. “Go fuck yourself”, disse diretamente para a câmara, interpelando Trump. Se era mesmo verdade que já ninguém estava a ver Colbert, é provável que nos próximos tempos tenham todos os olhos postos num homem que já não tem nada a perder. Há de dar boa televisão.

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