Passos tinha avisado, logo à partida: “A política e a economia existem porque existem pessoas. A economia existe para resolver problemas, como a política, por mais incrível que às vezes possa parecer”. E por isso deixou o alerta sobre um problema que, da sua perspetiva, é preciso resolver com urgência: o risco de desemprego associado à nova revolução tecnológica, que deve envolver e “mobilizar” Estado, empresas e trabalhadores, “mudando de atitude” e resolvendo necessariamente a falta de produtividade portuguesa.

Foi na apresentação do livro O que fazer e não fazer para ter sucesso, do empresário Ricardo Costa (que revelou que entrou para a política aos 16 anos, graças a Passos), na Feira do Livro de Lisboa que o antigo primeiro-ministro fez esta quarta-feira — dia de greve geral, como fez questão de lembrar — a sua mais recente aparição pública, escolhendo falar dos desafios que a economia e a produtividade enfrentam.

Os desafios são muitos e não estão apenas relacionados com a atual “reforma laboral”: “Estão além disso e exigem uma mobilização muito grande do Governo, sindicatos, empregadores, do Estado. Todos não serão demais para pôr em cima da mesa propostas de solução que tornem a nossa economia mais produtiva para ajudar no processo de transição” e para garantir um futuro para os jovens, pediu. “Só conseguiremos se mudarmos de atitude“.

Passos tinha começado por chamar a atenção, como já tinha feito numa intervenção recente, para o risco de desemprego que pode ser gerado pela nova revolução tecnológica. “No tempo em que vivemos, em que tantos desafios se colocam às empresas e ao trabalho, cada vez mais o processo tecnológico está a correr a um ritmo tal que antecipamos que o número de emprego que essa revolução vai tornar supérfluo pode não ser acompanhado pela criação de outro tipo de oportunidades e empregos. Pelo menos o tempo de transição que nos vai levar a esse destino merece alguma preocupação da nossa parte”, avisou.

E se a economia poderá assim oferecer mais e melhores bens e serviços, e assim maior prosperidade, a velocidade do processo torna “problemática” a participação de cada um na mudança, uma vez que cada pessoa ainda depende dos seus rendimentos para aceder a esses bens e serviços. “Ainda não se encontrou outra forma de garantir o acesso à prosperidade sem o rendimento que advém do facto de sermos úteis aos outros e produtivos. Isto suscita grandes problemas, este é um tempo desafiador em que teremos cada vez mais pessoas preocupadas com o seu futuro”, alertou.

E por isso é preciso que os decisores comecem a olhar não apenas para o “resultado material” do seu trabalho, mas também para procurar formas de tornar as pessoas “úteis”. Além disso, na “velha economia” que ainda existe, acrescentou, Portugal continua a ter um problema que persiste há décadas: o da baixa produtividade. “Continuamos a não ser suficientemente competitivos. Ainda hoje, em dia de greve geral, foi conhecido um relatório da Comissão Europeia que continua a insistir que continuamos com esse crónico problema e a comparar mal com os países europeus. Assim não há milagres“.

O livro que estava a apresentar, defendeu, poderia ajudar Governo, empresas e demais decisores a mudar essa atitude e a procurar resultados com “caráter e ética”. O autor do livro rematou a apresentação, depois da qual Passos não quis falar aos jornalistas, descrevendo o antigo chefe de Governo como a figura com “a visão mais clara do que Portugal pode e deve ser”. A plateia pareceu concordar, com algumas pessoas a pedirem para tirar fotografias com o antigo primeiro-ministro.