A China lidava há muito com problemas graves de saúde dos seus cidadãos, sobretudo os que habitavam nas grandes cidades, fruto do excesso de poluição ambiental. Os vapores nocivos que saíam dos escapes dos veículos eram apontados como os grandes culpados pelo excesso de mortes e de doenças graves, mas a realidade é que era o uso de carvão para gerar electricidade, locomover a indústria e aquecer as residências que provocava, no ano 2000, entre 70% e 75% da poluição atmosférica. Contudo, a grande aposta nos veículos eléctricos trouxe reduções palpáveis na poluição nas grandes cidades, com um estudo independente e revisto pelos seus pares, realizado pela britânica Nature Health, a demonstrar que a melhor qualidade do ar permitiu evitar cerca de 262.000 mortes prematuras.
Depois de cerca de uma década a estudar a melhor forma de avançar com a mobilidade eléctrica, os chineses deram o primeiro passo significativo em 2007, quando nomearam Wan Gang, um ex-engenheiro da Audi e especialista em veículos eléctricos, ministro da Ciência e Tecnologia, ele que, segundo a imprensa chinesa, era a única figura do Governo que não era membro do Partido Comunista. Gang foi o pai do programa “Momento da Estratégia de Ultrapassagem”, que visava abandonar os carros a combustão, em que os construtores estrangeiros estavam obviamente mais avançados, e saltar directamente para os veículos 100% eléctricos, criando uma nova indústria em que a China estaria em pé de igualdade com as marcas europeias, norte-americanas e sul-coreanas.
Em 2009, os chineses lançaram um novo programa, o “Dez cidades, mil veículos”, que se assumiu como um projecto-piloto para preparar o arranque da nova estratégia nacional para a indústria automóvel local, bem como para tentar melhorar a qualidade do ar, que já era na altura irrespirável na maioria das grandes cidades devido às enormes concentrações de vários poluentes, com destaque para as partículas PM2.5, isto num país que, em 2000, morriam entre 1,5 e 2 milhões de indivíduos, valor que se manteve estável nos anos seguintes.
Entre 2015 e 2020 foi finalmente implementado o “Produzido da China”, um programa destinado a estimular não só a produção de veículos eléctricos chineses, como incentivar a rápida expansão da produção local de baterias e a construção da rede de recarga de baterias. Com o disparar das vendas de veículos eléctricos, bem como dos híbridos plug-in, modelos designados localmente Nova Energia, o estudo da Nature Health detectou em 2023 uma redução de 23,80% nas partículas finas (PM2.5) e de 30,67% no monóxido de carbono, justificando a estimada redução de 262.000 mortes entre a população devido à melhoria do ar que se respira.
Qualidade do ar melhorou, mas não tanto quanto se previa
Curiosamente, o estudo demonstrou ainda que, apesar da imensa aposta em veículos eléctricos, a quantidade de NOx (óxidos de azoto) baixou apenas 1,81 microgramas por metro cúbico, com a redução de partículas maiores (PM10) a também ficar aquém do esperado. Os autores do estudo apontam a responsabilidade destes maus resultados aos veículos de transporte a gasóleo, a começar pelos pesados — que ainda não começaram a ser electrificados, ao contrário dos veículos ligeiros —, o que explica que os poluentes presentes no ar continuem a ser excessivos.
De recordar que circulam hoje na China cerca de 469 milhões de veículos, entre os quais apenas 30,2 milhões são eléctricos e 13,5 milhões são PHEV, o que significa que 425 milhões continuam a poluir como sempre, um valor impressionante e muito superior aos que circulam na Europa (295 milhões) ou nos EUA (298 milhões). A Nature Health chega mesmo ao ponto de chamar a atenção para o facto de os dados reunidos permitirem concluir que, em 1700 zonas residenciais, comparando as medições realizadas em 2019 e 2023, por cada 200 novos veículos em circulação, a concentração de NOx caiu cerca de 1,1%.