Petra Urban, ilustradora neerlandesa, recebeu uma indemnização depois do partido de extrema-direita PVV ter manipulado sem autorização um desenho de dois irmãos sírios, presos em janeiro pelo homicídio da irmã. Com recurso a ferramentas de Inteligência Artificial, o partido liderado por Geert Wilders alterou o desenho, de forma a tornar os irmãos mais ameaçadores para “fins políticos”, tendo partilhado a imagem nas redes sociais, relata o The Guardian.
Mohamed al-Najjar, de 23 anos, e Muhanad al-Najjar, de 25, foram condenados a 20 anos de prisão pela coautoria do homicídio da irmã, Ryan al-Najjar, de 18 anos, em conjunto com o pai, Khaled. Segundo os procuradores, o crime terá sido motivado pela alegada convicção de que a jovem estaria a “envergonhar” a família ao adotar comportamentos considerados “ocidentais”, de acordo com a emissora neerlandesa NOS.
“Há três coisas que me incomodam. Primeiro, o meu trabalho foi utilizado sem a minha autorização. Segundo, isto foi feito para um partido político, quando quero trabalhar da forma mais neutra e independente possível. E terceiro – e isto torna tudo ainda mais estranho – a distorção foi feita com Inteligência Artificial”, afirmou Petra Urban, citada pelo jornal britânico.
Após o sindicato da ilustradora ter apresentado uma ação judicial a alegar violação dos direitos de autor e exigir uma indemnização, o deputado do PVV Maikel Boon entrou em contacto com Petra Urban para pedir desculpa e para pagar a compensação, cujo valor não foi divulgado.
Boon já tinha sido acusado de manipular imagens para fins políticos. Em declarações ao De Telegraaf, o deputado neerlandês afirmou acreditar que uma imagem alterada deixaria de estar protegida por direitos de autor, reconhecendo, no entanto, que se tratou de um “ato muito estúpido”.
Numa publicação no Instagram, a ilustradora neerlandesa escreveu que, quando um desenho forense é alterado, “é como se uma notícia fosse modificada, adaptando-a ao que mais convém”. Urban afirmou que a situação foi mais grave porque as imagens foram manipuladas para “fins políticos”, comprometendo a “neutralidade” do seu trabalho. “Além disso, brincar com imagens de tribunais e publicá-las constitui uma violação dos direitos de autor“, acrescentou.
Entretanto, de acordo com o jornal britânico, Urban afastou-se do partido de extrema-direita liderado por Geert Wilders. “Honestamente, o PVV está muito distante das minhas opiniões políticas, mas mesmo que estivesse mais alinhado com os meus valores, não teria concordado com isso”, disse.
O caso dos irmãos sírios
O corpo de Ryan al-Najjar foi encontrado a 28 de maio de 2024, num pântano perto do parque natural de Oostvaardersplassen. Segundo a NOS, a jovem de 18 anos terá sido estrangulada pelo seu pai, Khaled al-Najjar, e atirada à água ainda viva, com as mãos amarradas atrás das costas e o nariz e a boca tapados com fita adesiva.
De acordo com os factos dados como provados pelo Tribunal Judicial de Lelystad, Ryan foi morta de forma “brutal”, ao ter adotado comportamentos considerados demasiado “ocidentais”.
O Ministério Público dos Países Baixos entendeu que, de acordo com as provas reunidas, o pai e os dois irmãos terão planeado o homicídio, vendo a jovem como “um fardo que precisava de ser eliminado”. Um dos irmãos terá mesmo afirmado à polícia que a vítima “manchava a honra da família” por aparecer em vídeos no TikTok sem véu e com maquilhagem, relata a emissora neerlandesa.
O pai, Khaled al-Najjar, foi condenado a 30 anos de prisão pelo homicídio da filha, uma pena superior à pedida pelo Ministério Público. Os irmãos, Mohamed e Muhanad, declararam-se inocentes em tribunal e mantiveram o direito ao silêncio durante vários meses, tendo sido condenados a 20 anos por coautoria do crime.
O juiz considerou provada a responsabilidade do trio e descreveu a morte como “um momento trágico e sombrio na história de uma família marcada pela opressão das mulheres”, classificando a violência como “incompreensível e inaceitável”. Tendo acrescentado que o caso constitui um “crime de honra, uma forma de femicídio”, considerando que “não existe lugar para isso nos Países Baixos”.
Segundo as autoridades, Khaled al-Najjar conseguiu fugir para a Síria, onde voltou a casar, tendo posteriormente enviado duas cartas à imprensa neerlandesa nas quais afirmou ser o único responsável pelo homicídio de Ryan e negou qualquer envolvimento dos filhos.
Khaled faz parte das listas de fugitivos procurados pela Interpol e outras agências internacionais de cooperação judiciária. Contudo, as autoridades dos Países Baixos não têm acordo de cooperação judicial com a Síria, o que impede um pedido direto para a detenção e extradição de Khaled al-Najjar.