Foi uma das notícias do fim-de-semana mas nada faz com que Câmara Municipal da Amadora e o seu presidente, Vítor Ferreira, quebrem o silêncio a que se remeteram perante a notícia do Observador de que Ferreira e a sua chefe de gabinete foram constituídos arguidos pelo crime de prevaricação durante as buscas de 28 de maio deste ano.
Mas a oposição do PSD e do Chega na Câmara Municipal da Amadora não se cala e exige explicações a Vítor Ferreira. Suzana Garcia, vereadora da coligação liderada pelo PSD, quer constituir-se como assistente dos processo em investigação e, apensar de não defender a renúncia de Vítor Ferreira, entende “que têm que ser retiradas consequências políticas por não ter sido honesto na informação a que está vinculado insitucionalmente”.
Vítor Ferreira, presidente da Câmara da Amadora, arguido na Operação Imergente
A vereadora social-democrata refere-se ao facto de Ferreira nada ter dito desde 28 de maio sobre a situação processual como arguido — “temos um dever de transparência e lealdade para com os nossos municípios”, acrescenta Garcia.
Já Rui Paulo Sousa diz que o próprio Vítor Ferreira “tem de ponderar, se realmente reúne condições políticas” face à notícia do Observador. Reconhecendo que “há algo aqui que não foi bem explicado” e que “é preciso não esquecer que PS apenas tem quatro vereadores no Executivo. Portanto, o Chega e o PSD têm maioria. Temos no total 6 vereadores. Ou seja, a posição inicial já é um pouco frágil e esta notícia está a aumentar mais essa fragilidade”, diz.
O Executivo reúne-se esta quarta-feira e a reunião promete ser quente.
Vítor Ferreira garantiu na Assembleia da Municipal que a autarquia “não é visada por qualquer investigação”
O próprio Vítor Ferreira e Câmara Municipal da Amadora garantiram publicamente a 28 de maio (através de counicado da autarquia) e a 8 de junho (através de declarações do autarca na reunião da Assembleia Municipal da Amadora) de que a autarquia “não é visada por qualquer investigação”.
Na reunião da Assembleia Municipal da Amadora, que se realizou 11 dias após as buscas realizadas à Câmara da Amadora, o deputado Alexandre Rezende (PSD) questionou Vítor Ferreira com a hipótese de terem sido realizadas outras buscas domiciliárias e não domicliárias, além daquela realizada à sede do municipio. O presidente socialista confirmou a realização de buscas domiciliárias (sem referir a quem) e insistiu em algo que já sido em algo que já tinha sido afirmado em comunicado pelo seu gabinete de imprensa: “o assunto nada tem a ver com a Câmara Municipal. Houve efetivamente buscas domiciliárias. Houve buscas na Câmara Municipal da Amadora e mais não posso dizer porque está em segredo de justiça. Fiz questão de assumir que houve buscas e que isto nada tem a ver com a Câmara Municipal da Amadora.”
Ferreira ainda afirmou que estava “completamente tranquilo quanto àquilo que é o desempenho dos serviços municipais com as questões que tem a ver com a contratação pública”. Ou seja, insinuou que o objeto da investigação tinha a ver com contratos públicos realizados pelos serviços da autarquia quando está em causa um ajuste direto decidido e acompanhado pelo seu gabinete da presidência.
Ou seja, e ao contrário das garantias dadas de que o tema em investigação “nada tem a ver com a Câmara Municipal da Amadora”, estão em causa suspeitas de um crime de prevaricação por parte de Vítor Ferreira enquanto presidente da Câmara da Amadora, e da sua chefe de gabinete, relacionadas com um ajuste direto daquela autarquia no valor de 2.200 euros (mais IVA). Foi através de tal contrato, que não terá respeitado as regras da contratação pública, que Duarte Moral (diretor de comunicação do PS) foi contratado pela Câmara da Amadora para fazer um discurso para a cerimónia do 25 de Abril de 2026.
Acresce que Duarte Moral foi proibido pelo Tribunal Central de Instrução Criminal de entrar em instalações de quaisquer órgãos da Câmara da Amadora — essa é uma das medidas de coação impostas ao ainda diretor de comunicação do PS.
Apesar de várias insistências, nem Vítor Ferreira nem a sua assessoria de imprensa responderam a perguntas do Observador.
Em causa estão alegadas suspeitas do crime de prevaricação. Vítor Ferreira é apontado como suspeito de não ter respeitado as regras da contratação pública ao recorrer a um ajuste direto de 2.200 euros (mais IVA) para um contrato do qual Duarte Moral é o beneficiário, relativo à redação de um discurso para a cerimónia do 25 de Abril deste ano na Amadora.
Suzana Garcia. “Fiquei preplexa ao saber que não há ninguém na Câmara que possa escrever um discurso para o 25 de Abril”
Questionada pelo Observador, a vereadora Suzana Garcia (PSD) diz não ter ficado surpreendida com a notícia do Observador. “Há quase um mês, tive conhecimento de que o sr. presidente [Vítor Ferreira] tinha sido alvo de buscas no seu domicílio e a sua chefe de gabinete também. Falei com o meu grupo [parlamentar na Assembleia Municipal] e o sr. deputado Alexandre Rezende, da minha coligação, perguntou-lhe se ele tinha conhecimento de que tinha de buscas domiciliárias e, se sim, aonde. E o sr. presidente fugiu [à pergunta]”, afirma a candidata à presidência de Câmara da Amadora nas autárquicas de 2025.
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Suzana Garcia diz que, quando “somos presidentes, estamos presidentes de uma autarquia”, logo temos um “dever de transparência e lealdade para com os nossos munícipes. Se eu tivesse sido alvo de uma busca domiciliária, e se tivesse sido constituída arguida — o que não tem mal nenhum — eu diria: ‘meus concidadãos, aconteceu isto assim e assim, estou inocente e irei lutar até às minhas últimas instâncias para provar essa mesma inocência’. O sr. presidente respondeu essa pergunta como responde sempre: com nada. Ele tinha de comunicar à Amadora de que tinha sido alvo de buscas domiciliárias e tinha sido constituído arguido”, enfatiza.
Garcia diz ter ficado “perplexa” por saber que na autarquia da Amadora, “não haja ninguém que pudesse fazer o discurso da comemoração do 25 de Abril de 2026. Já foram feitas dezenas de discursos de comemoração do 25 de Abril. Se tirassem um parágrafo de cada um dos discursos, estava feito. Considero que é absolutamente ultrajante que se tenha pago qualquer coisa como quase três salários mínimos nacionais para um discurso que foi pífio.”
Apesar de não defender a renúncia de Vítor Ferreira — algo que, diz, só deve acontecer após uma condenação em primeira instância —, Suzana Garcia diz que “têm que ser retiradas as consequências de não ter sido honesto na prestação de informação a que está vinculado institucionalmente, quer para com os deputados que lhe fizeram a pergunta, quer para com os senhores vereadores a quem ele devia ter prestado tal informação.” Por exemplo, o que é dito no comunicado emitido pela Câmara da Amadora no dia das buscas, “não é verdade”, conclui Garcia.
Rui Paulo Sousa. “Vítor Ferreira tem de ponderar se reúne condições para continuar”
Já Rui Paulo Sousa, vereador do Chega na Câmara da Amadora, diz ter ficado “um pouco supreendido” com a notícia do Observador. “Até pela memória do que o sr. presidente [Vítor Ferreira] disse, na altura: de que tinha havido buscas na Câmara mas que não havia mais nada. Agora, é um pouco surpreendente ele ter sido constituído arguido”, afirma.
“Obviamente que isso não o condena de imediato, mas sem dúvida que põe em causa, pelo menos a nível político, a sua fiabilidade à frente dos destinos e da governação da própria Câmara”, afirma o também deputado do Chega.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Questionado sobre se Vítor Ferreira continua a reunir condições políticas ou se deve suspender funções enquanto presidente da autarquia, Rui Paulo Sousa diz que o socialista “tem de ponderar se realmente reúne condições políticas” face à notícia do Observador. “É preciso não esquecer que a Câmara da Amadora tem um Executivo onde tem o PS apenas tem quatro vereadores. O Chega e o PSD têm maioria — temos no total seis vereadores. Ou seja, a posição inicial já é um pouco frágil e esta notícia está a aumentar mais essa fragilidade.”
Rui Paulo Sousa enfatiza igualmente que, relação à omissão da informação, “há algo aqui que não foi bem explicado. Tem de ser explicado o que é que se passou ou o que é que está ainda a passar. E se esta questão fica por aqui”, afirma.
“Infelizmente, isto é mais uma situação em que coloca os políticos em cheque. Não abona, obviamente, a favor das instituições, nem abona a favor da imagem dos políticos”, conclui.
O Observador contactou igualmente o vereador João Pimenta Lopes (CDU) para obter uma reação sobre a informação revelada no sábado. Ao contrário das outras forças políticas, Pimenta Lopes não se mostrou disponível para falar, nem para receber perguntas do nosso jornal, tendo-se limitado a enviar uma declaração genérica sem o contexto de questões concretas colocadas pelos jornalistas do Observador.
“A matéria que foi noticiada no passado sábado, e que reporta à denominada “Operação Imergente” e a um eventual envolvimento da autarquia da Amadora, cujas circunstâncias desconhecemos, está a seguir os tramites normais, no quadro das autoridades competentes, para o apuramento de responsabilidades.
Importa que seja tratado com a máxima celeridade, em sede própria. Aguardamos o desfecho deste processo para poder tirar conclusões a respeito”, lê-se na resposta enviada.