A pressão foi, de uma vez por todas, sacudida depois daquele golo que Nuno Mendes marcou de pontapé livre, já com a contagem aberta por Cristiano Ronaldo. Houve um susto, é certo, com um golo anulado ao Uzbequistão, mas Portugal conseguiu chegar ao primeiro triunfo no Mundial-2026 (5-0). As reações à vitória marcam um momento de descompressão, após semanas de uma polémica que ganhou (ainda maior) eco depois do empate com a RD Congo: as idas à praia, as redes sociais, a eterna discussão sobre o papel de Ronaldo na Seleção Nacional e a entrada em falso nos EUA — “barulho” para Martínez. Em Houston, depois do jogo, tudo isso ficava para trás: era momento de saborear a primeira vitória na prova. Esse era o sentimento partilhado pela comitiva portuguesa, que se confessava “de volta”, nas palavras de Cristiano Ronaldo, escassos segundos depois do jogo terminar. “I’m back! I’m back!“, gritou o capitão da Seleção para uma das câmaras da transmissão do jogo.
O agora maior marcador da história da Seleção em Mundiais afirmou que Portugal levou “muita porrada durante a semana, mas a equipa trabalhou bastante bem”. “Muito feliz, mas para mim o mais importante é o trabalho que a equipa fez, a confiança que tivemos. Levámos muita porrada durante a semana, sabíamos que iria acontecer. Mas a equipa trabalhou bastante bem, melhorámos bastante, há males que vêm por bem, como se costuma dizer. Falando de mim, os recordes, é sempre bonito batê-los, mas o meu objetivo é ajudar a Seleção a alcançar os seus objetivos. Nesta parte era passar e acho que com quatro pontos já está e estou muito feliz”, afirmou.
E acrescentou: “Sabia que os meus companheiros me iam ajudar também. Foi uma semana difícil, uma semana escura. Parecia que eu já estava retirado do futebol, mas aguentei-me, como aguento sempre. Porque acredito mais no trabalho do que noutra coisa. Foi difícil, tenho de confessar, mas estamos de volta.”
“Uma grande virtude é controlarmo-nos a nós próprios. É isso que tento fazer. Foi uma semana difícil. A crítica foi muito forte, principalmente a mim… Mas [são] 24 anos de carreira, já consigo suportar bem. Na crítica surge sempre uma oportunidade de melhoria. Treinámos forte, focados e o que conta são os que estão cá dentro, a nossa família. Do exterior vem muita coisa má”, disse. Questionado sobre o recorde de golos de Lionel Messi batido ontem diante da Áustria, Ronaldo foi perentório: “Quero lá saber dos outros”.
Martínez chegou à zona mista do NRG Stadium com o sorriso de quem já está praticamente na próxima fase. “Há momentos em que precisamos de jogos como o primeiro para crescer. Vimos uma equipa com a mesma atitude e esforço. Com uma maturidade que deixou de fora a emoção da estreia. Fico muito contente porque merecem este resultado”, afirmou o técnico espanhol, que deixou elogios ao capitão. “Era uma questão de momento. Os movimentos do Cris são os melhores de um ponta de lança dentro da área e hoje a bola entrou, mas ele continua a criar oportunidades em todos os jogos, que é o mais difícil”, afirmou.
Com o mesmo sorriso estava João Félix. “Estivemos bem. Ajustámos alguns pontos táticos que fez diferença hoje. Tivemos mais gente entre linhas, pudemos entrar por fora e por dentro, criámos oportunidades das duas maneiras e acho que essa foi a chave do jogo”, afirmou. O atleta português alertou, porém, para a necessidade de a equipa se recentrar e olhar já para a próxima partida, diante da Colômbia. “É sempre importante passar em primeiro lugar, vencer a Colômbia, uma equipa difícil. Vamos para ganhar, não jogar na retranca. Vamos para fazer o nosso futebol como sempre e passar em primeiro”, antecipou.
Nuno Mendes, o marcador do segundo golo de Portugal, concordou. “Estamos muito contentes, mas também concentrados. Temos o último jogo para poder ganhar e passar em primeiro lugar, que é o nosso objetivo”, afirmou o lateral esquerdo do Paris-Saint Germain. “As críticas fazem parte, nós estamos habituados, acho eu. Temos um grupo muito forte, um grupo que se ajuda muito uns aos outros. Acho que isso é o mais importante para nós, estarmos concentrados, focar-nos na nossa bolha, isso é o mais importante. O que dizem no exterior não nos importa muito. O que nos importa é o que vamos fazer dentro de campo e o que o mister nos diz para fazer”, acrescentou.
Sobre o lance do golo, Nuno Mendes esclareceu a fórmula: “Toda a gente espera que seja o Cristiano a bater os livres, mas é algo que está treinado. Há muitos jogadores que podem bater os livres. Dá para repetir, pode não ser comigo, mas com outros. O guarda-redes não estava bem no centro, não foi preciso muita força, nem muita colocação, foi preciso só desviar a bola um bocadinho do guarda-redes”.