Iván Cepeda, o candidato presidencial de esquerda que perdeu a segunda volta das eleições colombianas para Abelardo de la Espriella, do movimento de extrema-direita Defensores da Pátria, reconheceu esta quarta-feira a sua derrota, afirmando que decidiu aceitar o desfecho do processo eleitoral como forma de contribuir para “a convivência, a paz e o diálogo” no país.

Cepeda sublinhou, citado pelo jornal El Tiempo, que o reconhecimento do resultado “não significa renunciar à verdade nem permanecer em silêncio perante acontecimentos que consideramos graves e que marcaram esta campanha presidencial”. Entre estes acontecimentos, referiu o apoio do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao candidato da direita e uma alegada campanha de compra de votos.

“Nem tudo é válido na luta democrática e, por isso, não traímos o nosso programa, não renunciamos às nossas propostas nem cedemos perante aqueles que pretendiam que eu atacasse o Presidente Gustavo Petro. Não disfarcei nem deixei de ser coerente”, acrescentou.

O candidato do Pacto Histórico afirmou ainda que exercerá uma “oposição democrática, vigilante e construtiva”, mas também “firme e inabalável na defesa dos direitos do povo”. O partido de esquerda deverá constituir a maior força da oposição nas duas câmaras do Congresso, enquanto De la Espriella, sem uma base parlamentar própria expressiva, procurará formar uma coligação com outros partidos da direita.

Abelardo de la Espriella, candidato da extrema-direita apoiado por Trump, dado como vencedor das eleições colombianas

Embora as primeiras projeções apontassem inicialmente para uma vantagem de Cepeda, a contagem acabou por confirmar a vitória do candidato da direita. Com 99,3% das urnas apuradas em pré-contagem, De la Espriella reunia 12.951.391 votos (49,65%). Cepeda, por sua vez, somava 12.703.705 votos (48,70%). Os dois candidatos ficaram separados por cerca de 247 mil votos.

Na Colômbia, a pré-contagem dos votos consiste numa comunicação por telefone feita pelos presidentes das mesas nas assembleias de voto, a fim de transmitir rapidamente ao público uma ideia dos resultados. No entanto, os resultados oficiais só são anunciados depois da contagem física dos votos validada pelas comissões de escrutínio lideradas por funcionários judiciais.

Na sequência da vitória eleitoral do candidato de extrema-direita verificaram-se confrontos em várias cidades colombianas. Milhares de manifestantes saíram às ruas sob o lema “Resistência”, contestando a vitória tangencial de Abelardo de la Espriella, tendo o candidato presidencial de esquerda apelado à serenidade e à mobilização pacífica.

Candidato presidencial de esquerda derrotado na Colômbia apela à calma após confrontos

Em Cali, uma marcha inicialmente pacífica, acompanhada por música indígena, terminou em confrontos entre manifestantes e a polícia, que recorreu a gás lacrimogéneo para dispersar a multidão. Na capital colombiana, centenas de pessoas concentraram-se junto à Universidade Nacional, um símbolo da educação pública, mas a manifestação tornou-se violenta quando alguns participantes incendiaram barricadas e lançaram objetos contra as forças de segurança, que responderam igualmente com gás lacrimogéneo.

Com a vitória de De la Espriella, a Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína, torna-se o mais recente país latino-americano a inclinar-se para a direita, seguindo os passos da Argentina, do Chile e do Equador, cujos líderes, alinhados com Washington, não tardaram a felicitá-lo. Admirador dos presidentes populistas de El Salvador, Nayib Bukele, e da Argentina, Javier Milei, De la Espriella prometeu construir mega-prisões onde os detidos receberiam “pão e água”, bombardear campos de narcotráfico, com o apoio dos Estados Unidos e de Israel, e reduzir a dimensão do aparelho de Estado em 40%.