Ahmad Esleem seguia ao volante de um comboio de quatro camiões, fretados pela World Central Kitchen (WCK) para distribuir ajuda humanitária na Faixa de Gaza. Imediatamente depois de entrar no enclave, um dos camiões avariou, os acontecimentos precipitaram-se e Esleem ficou frente a frente com soldados do Exército israelita. “Assim que Ahmad levantou as mãos em rendição, um dos soldados sacou da sua espingarda M16 e disparou diretamente contra a cabeça. Foi uma execução no terreno e um assassinato deliberado de um motorista civil”, denunciou Jihad Esleem, diretor adjunto da Associação de Empresas de Transporte de Gaza e primo afastado de Ahmad, ao The Guardian.

Os acontecimentos que terminaram com a morte de Ahmad foram descritos ao jornal britânico por Diaa Mansour, condutor de um dos outros três camiões do comboio. Os acontecimentos deram-se na quarta-feira, no Corredor de Philadelphi, a faixa de território na fronteira entre o sul da Faixa de Gaza e o norte do Egito. Depois de um dos camiões ter avariado, os quatro condutores imobilizaram os veículos e contactaram os superiores. “Esperámos por autorização para poder sair e inspecionar [o camião] porque cada momento tem de ser coordenado antecipadamente”, explicou Mansour.

Enquanto esperavam por indicações, foram abordados por uma patrulha do Exército israelita. Os soldados ordenaram a três dos camionistas — Mansour, Esleem e Alaa Shaat — que saíssem dos camiões. Fares Muheisen, que seguia à frente, manteve-se dentro do veículo. Jihad Esleem assegura que tudo estava em ordem, que a operação tinha sido coordenada com o Exército israelita e o Programa Alimentar Mundial da ONU e que os condutores utilizavam coletes cor de laranja e documentos que os identificavam como condutores de ajuda humanitária. Mas isso não impediu a reação dos soldados.

Mansour e Jihad Esleem denunciam que os camionistas foram agredidos, obrigados a despir-se e a ficar de pé, nus, ao sol, na beira da estrada. “Um dos soldados começou a falar com o Ahmad enquanto este permanecia de pé, com as mãos levantadas. O Ahmad não falava hebraico e parecia que os soldados não compreendiam o árabe. De repente, dispararam contra ele. Foi atingido na cabeça e morreu no local. Parecia que estavam a tentar perceber por que razão tínhamos parado, mas não compreenderam a situação e abriram fogo imediatamente, sem qualquer discussão ou tentativa de comunicação”, relatou Mansour.

Ao The Guardian, um porta-voz do Exército israelita pinta um cenário diferente. Segundo as autoridades de Telavive, quando a patrulha passou, os condutores já estavam fora dos camiões. Quando começaram a interrogar Ahmad Esleem, um dos outros condutores terá corrido na direção da patrulha. “As tropas iniciaram o protocolo de detenção do suspeito e, após perceberem uma ameaça imediata, abriram fogo contra o condutor”, cita o jornal britânico. Os soldados dizem ter prestado cuidados médicos depois de Ahmad ter sido atingido e antes de ser levado para o hospital. Uma imagem partilhada pela Associação de Transportes de Gaza mostra Ahmad ao dar entrada no hospital, com a cabeça enfaixada e sangue visível.

Esta não é a primeira vez que funcionários humanitários são mortos por tropas israelitas. Mas ameaça pôr em risco a distribuição de ajuda humanitária no enclave, que continua a ter muitos entraves. Eyah Esleem, dono da empresa privada que detém os quatro camiões fretados e irmão de Jihad Esleem, relata ao jornal que já teve cinco funcionários que se demitiram e recusaram passar novamente a fronteira ao volante. “Os que ficam não continuam porque querem, mas porque são forçados a sustentar as famílias”, lamenta Eyah. Era o caso de Ahmad. O camionista de 30 anos deixa em Deir Al-Balah a mulher e dois filhos: um bebé de apenas um mês e uma menina.