O fundador do Bloco de Esquerda e histórico da UDP, Mário Tomé, é um dos 60 militantes que anunciaram esta terça-feira que vão abandonar o partido. Os militantes, que incluem membros ligados à fundação, ex-deputados, autarcas e dirigentes nacionais, justificam a debandada num comunicado público: “O Bloco a que aderimos e ajudámos a construir com entusiasmo e empenho já não o é.” Os militantes de saída criticam com estrondo as direções de Catarina Martins e Mariana Mortágua por se terem iludido com o PS durante a geringonça e arrasam toda a estratégia Louçã, que tem orientado o partido nos últimos anos.
Os dissidentes lamentam assim o “fim de um projeto que se destinava a unir amplos setores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal, tendo como horizonte a radical transformação da sociedade”. E decretam: “Deixamos de ser bloquistas porque o nosso Bloco acabou.”
O grupo de saída lembra que se, no passado, “o Bloco esteve na iniciativa e na primeira linha da necessária resposta à política brutal imposta pela troika”, o que aconteceu depois foi que “o restrito núcleo dirigente, iludido com um PS supostamente interessado na continuidade da chamada ‘geringonça’, cedo transformou um acordo fruto das circunstâncias numa estratégia que o fez perder autonomia política.” E apontam várias críticas à era Martins/Mortágua: “Confundiu-se com a prática do Governo. Cedeu na afirmação de propostas fundamentais de reforço do SNS, enfrentamento da crise habitacional, abolição das medidas que vieram a estar na base das propostas do Governo para revisão da legislação laboral.”
Além disso, acusam, o Bloco “não foi claro na recusa da ofensiva contra lutas sindicais, como a dos motoristas de matérias perigosas e a militarização do direito de greve, o ataque à luta dos estivadores pelo contrato coletivo e a resistência à requisição civil, as medidas laborais na crise pandémica.”
Os militantes demissionários constatam que “a perda sucessiva de eleitos, sendo muito significativa e contínua, foi sintoma evidente de acentuada quebra de influência política e social.” Atirando também a Francisco Louçã, que foi sempre o cérebro por detrás do rumo das últimas direções do Bloco de Esquerda, os agora ex-bloquistas dizem que “a estratégia de uma ‘esquerda grande’ ou da ‘participação no Governo’, com indicação de ministros concretos, substituindo uma estratégia autónoma, levou ao caminho da derrota.”
Os sessenta militantes denunciam que “a centralização das decisões num Secretariado sem competências para tal, mas omnipotente, levou ao afastamento de quem expressava posições críticas ou alternativas, nomeadamente de muitos que lhe tinham dado o primeiro fôlego aquando do seu aparecimento, levou à desmotivação e mesmo ao abandono de centenas de militantes, de muitos dirigentes nacionais e distritais.”
À semelhança do que esta facção já tinha feito nas últimas Convenções do Bloco, é criticado o apoio a Kiev. “O apoio à guerra da Ucrânia, em vez da defesa com toda a urgência de um plano de paz, com medo de perder votos, sob o pretexto de que era uma luta pela autodeterminação, escondeu toda a intervenção da NATO a Leste que acabou por ser argumento para a condenável invasão russa”, lamentam.
A direção do Bloco já reagiu a esta saída, desvalorizando a dimensão da saída, que garante não ser novidade: “Os membros do grupo Convergência, como é do conhecimento público, têm vindo a sair parcelarmente do Bloco de Esquerda, numa decisão programada e repetidamente anunciada na comunicação social.” O secretariado do Bloco acrescenta que “as divergências deste grupo manifestam-se desde há muito — nomeadamente na crítica da posição solidária do Bloco com o povo ucraniano, vítima da invasão de Putin.” E lamenta: “O Bloco lamenta esta decisão, esperando encontrar todas estas pessoas em lutas fundamentais da esquerda.”
Mário Tomé: “Queriam ir para o Governo com o PS. Foi o caminho para o fim do Bloco”
O fundador do Bloco de Esquerda, Mário Tomé, diz que o que leva “a bater com a porta é que a casa já está toda esburacada.” O histórico do UDP diz que “as sucessivas direções violaram todo o projeto estratégico do Bloco”, nomeadamente a ideia maior de “transformar radicalmente a situação política no País”.
Mário Tomé diz que “as direções, na verdade foi sempre uma, que tinham o deus ex machina por trás, o Louçã, que eu respeito, e o Fazenda, que eu respeito, mas eram eles na verdade quem dirigia o BE estivessem ou não na direção.” Mas a “questão fundamental” para a saída é facto de o BE ter trocado “a sua estratégia, de responder aos interesses de quem trabalha, de quem promove a cultura, e decidiram que o que era preciso era criar um grande partido, integrarem-se na geringonça, que começou a ser olhada como um caminho.”
Para Mário Tomé, o Bloco de Esquerda em vez de se ter conseguido desvincular de um imperativo estratégico inicial de se juntar à geringonça, acabou “encostado ao PS”. E atira: “Isso está expresso em Convenções: em 2019, que queria ir para o Governo. E com quem? Com o PS. Foi o caminho para o fim do Bloco”.
Em baixo pode ver a lista completa dos militantes que abandonam o Bloco de Esquerda:
Adelino Granja – 4507 – Leiria
Alberto de Sousa e Silva – 197 – Vila Nova de Gaia
Ana D‘Espiney – 15161 – Lisboa
Ana Paula Vidal Bastos – 16582 – Porto
Ana Rute Domingues Araújo – 11619 – Maia
André Queirós Amorim – 1227 – Maia
Aniceto Correia – 968 – Seixal
António Castela – 14823 – Lisboa
António Joaquim Soares da Luz – 342 – Porto
António Miguel – 10714 – Lisboa
Armando Rocha – 14192 – Lisboa
Carlos Madruga – 300 – Lisboa
Carlos Marques – 1095 – Lisboa
Daniela Louro – A3144 – Lisboa
Diogo Miguel Pinto Borges – 12897 – Porto
Eduarda Monteiro -1094 – Lisboa
Eva Luísa da Rocha Coelho – 10108 – Penafiel
Fernando Bessa Ribeiro – 14319 – Braga
Fernando Napoleão Campos Oliveira – Ovar
Filomena da Conceição Sousa Cirne – 9050 – Vila Nova de Gaia
Francisco Amorim dos Santos Baptista – 1235 – Maia
Francisco Tomás – 755 – Seixal
Gabriela Mota Vieira – A3844 – Açores
Israel Silas Domingues Araújo – 10508 – Maia
Ivo Emanuel Moreira Barros – 9043 – Penafiel
João Eugénio Teixeira Loureiro – 12544 – Maia
João Marques – 6763 – Lisboa
João Mota – 15430 – Sintra
João Vaz – 2743 – Lisboa
Joaquim Fernando Pereira Araújo – 10222 – Maia
Jorge Afonso – 102 – Aveiro
Jorge Nicolau de Sousa Lourenço – 1240 – Porto
José Bastos – 5958 – Lisboa
José Carlos Lopes – 697 – Ovar
José Casimiro – 660 – Lisboa
José Domingues Pereira Frutuoso – 10436 – Maia
Leandro Miguel Bastos Pires – 16051 – Porto
Leonor Antunes Magalhães Carvalho Pinto – 15350 – Amarante
Liberato Ribeiro de Almeida – 702 – Ovar
Luís Miguel Vale – 3823 – Porto
Luís Possantes – 14559 – Lisboa
Lurdes Maria da Silva Gomes – 9844 – Vila Nova de Gaia
Luz Celeste Vieira Queirós dos Santos Baptista – 1246 – Maia
Manuel Carlos Silva – 12121 – Braga
Maria do Carmo – 6132 – Lisboa
Maria do Sameiro – 596 – Lisboa
Maria Elisa Carvalho Antunes Magalhães – 3812 – Amarante
Maria José Magalhães – 1340 – Porto
Mário Correia – 7958 – Lisboa
Mário Tomé – 3716 – Lisboa
Miguel Cabral – 2247 – Lisboa
Nelson Jorge Pereira Moura – 14875 – Maia
Nuno Manuel dos Santos Silva – 14874 – Maia
Paulo Renato Cardoso Ricardo – 2055 – Porto
Pedro Queirós Amorim – 1261 – Maia
Pedro Soares – 108 – Lisboa
Ricardo Salabert – 1961 – Porto
Rui Castro – 4760 – Lisboa
Vítor Ferreira – 719 – Lisboa
William Naval – 7334 – Lisboa
[Um poderoso empresário concorre à Câmara de Lisboa e vai fazer tudo para ganhar as eleições, ao mesmo tempo que vive um drama familiar: o filho foi raptado e está desaparecido há quase um mês. Onde está afinal José Valbom? “O Candidato Perfeito” é o novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, e é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]