A Terra nunca acumulou tanto calor como agora. Não é apenas a temperatura média global que continua a subir, é a quantidade de energia que o planeta está a reter. Um novo relatório internacional conclui que o chamado desequilíbrio energético da Terra atingiu um máximo histórico, sinal de que cada vez mais calor fica armazenado nos oceanos, na atmosfera e nos continentes. Ao mesmo tempo, o aquecimento provocado pela atividade humana já chegou aos 1,37ºC acima dos níveis pré-industriais.

O estudo, publicado na revista científica Earth System Science Data e elaborado por mais de 70 investigadores de 56 instituições de 17 países, conclui que, mantendo-se o atual ritmo de emissões de gases com efeito de estufa, o aquecimento global provocado pelo homem deverá ultrapassar os 1,5ºC dentro de aproximadamente quatro anos. O conceito pode parecer técnico, mas ajuda a perceber por que razão os cientistas estão preocupados. O desequilíbrio energético da Terra mede a diferença entre a energia que o planeta recebe do Sol e aquela que consegue devolver ao espaço. Enquanto esse balanço continuar positivo, a Terra continuará inevitavelmente a aquecer.

“Sem a influência humana, o desequilíbrio energético da Terra deveria estar próximo de zero. No entanto, tem aumentado desde a década de 1970 e encontra-se agora num máximo histórico, tendo duplicado nas últimas décadas”, afirma Piers Forster, diretor do Priestley Centre for Climate Futures, da Universidade de Leeds, e principal autor do estudo.

Esse excesso de energia não fica apenas na atmosfera. A maior parte acaba armazenada nos oceanos, que funcionam como o principal reservatório de calor do sistema climático. E é precisamente essa acumulação que está a acelerar mudanças em todo o planeta.

Segundo os investigadores, entre as consequências mais evidentes estão a subida do nível médio do mar, o aquecimento dos oceanos e o aumento da frequência das ondas de calor marinhas, um fenómeno que tem sido observado junto à Europa e à costa portuguesa. O relatório revela que o número de dias com ondas de calor marinhas mais do que triplicou entre 1991 e 2025, contribuindo para alterações nos ecossistemas marinhos e aumentando a probabilidade de fenómenos meteorológicos extremos.

Os autores calculam ainda que as emissões globais de gases com efeito de estufa atingiram um novo máximo em 2024, chegando aos 56,8 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, o valor mais elevado desde que existem estimativas globais comparáveis. Ao mesmo tempo, a taxa de aquecimento provocada pela atividade humana mantém-se em cerca de 0,27ºC por década.

Outra das conclusões é que o chamado orçamento de carbono disponível para limitar o aquecimento global a 1,5ºC continua a diminuir rapidamente. No início de 2026 restavam cerca de 130 mil milhões de toneladas de CO₂ que ainda poderiam ser emitidas antes de esse limite ser ultrapassado. Ao ritmo atual de emissões, esse orçamento poderá esgotar-se em cerca de três anos.

“O planeta continua a aquecer devido às atividades humanas”, afirma William Lamb, investigador do Instituto de Potsdam para a Investigação do Impacto Climático e um dos autores do relatório. “Com as emissões globais de gases com efeito de estufa em máximos históricos, é mais importante do que nunca que os países reduzam rapidamente as suas emissões.”

Publicado anualmente, o relatório Indicators of Global Climate Change 2025 funciona como uma atualização dos principais indicadores utilizados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) entre os seus grandes relatórios de avaliação. É, na prática, um retrato anual do estado do sistema climático.

E o retrato de 2025 deixa uma mensagem forte: o planeta continua a acumular calor a um ritmo sem precedentes e a margem para limitar o aquecimento global continua a diminuir.

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