Era o Mundial que ninguém queria, foi o Mundial em que todos acabaram por participar – mesmo com todas as manifestações públicas de protesto antes e durante a fase final da competição. Pela primeira vez, como um verdadeiro sinal dos tempos que já se tinha refletido em parte na escolha da Rússia para organizar a prova em 2018, a FIFA decidiu atribuir a edição de 2022 ao Qatar. Era a força do dinheiro que “esmagava” tudo o resto, na primeira paragem no Médio Oriente que era também o segundo Campeonato do Mundo organizado na Ásia. No entanto, havia outro pormenor na fase final que antecedia o alargamento de 32 para 48 equipas: devido às elevadas temperaturas no Qatar durante o verão, este foi também o primeiro Mundial realizado a meio da temporada, entre novembro e dezembro, com tudo o que isso poderia trazer de bom e de mau.
A powerful look back at the moment that changed everything. ????⚽
In December 2010, the late Father Amir Sheikh Hamad bin Khalifa Al-Thani stood in Zurich and made history by securing the 2022 FIFA World Cup for Qatar.
#Qatar #FatherAmir #WorldCup2022 #LovinDoha pic.twitter.com/QrjtJhWC8a— Lovin Doha | لوڤن الدوحة (@lovin_doha) July 14, 2026
Em menos de um mês, 29 dias de forma mais concreta, o país recebia 64 encontros em oito estádios que, à exceção do majestoso Al Bayt Stadium, estavam ligados por linhas de metro (e até mesmo esse palco em Al Khor, que deveria ter acessos que nunca saíram do papel, estava a 30/40 minutos de carro do Lusail, o maior símbolo de todas as infraestruturas que recebeu a final). Durante a competição, pelos vários dias sempre com quatro partidas nos grupos ou duas na fase a eliminar, essa logística permitiu que a organização montasse uma espécie de Disney do futebol num raio de 30 quilómetros onde só o melhor entrava nas contas. Antes, do desrespeito pelos direitos humanos às mortes de trabalhadores migrantes na construção dos recintos que iam sendo denunciadas por várias organizações e publicações internacionais, passando pela falta de cultura de futebol no país aos alegados subornos para receber a fase final da prova, o contexto era um pesadelo.
Dinheiro não faltava. Apesar de ser o país organizador mais pequeno de sempre a receber o torneio com uma equipa do Qatar que era a primeira a marcar presença no Mundial sem nunca se ter qualificado, este foi, de longe, o Campeonato do Mundo com maior investimento de sempre, num total estimado entre 220 mil milhões e 300 mil milhões de dólares – 14 vezes mais caro do que em 2014 no Brasil, 18 vezes mais caro do que em 2018 na Rússia, mesmo tendo alguns exemplos de sustentabilidade como o 974 Stadium, o primeiro e único recente desmontável e feito a partir de 974 “blocos” que deveria ser retirado no final da prova mas que, em 2026, continua no mesmo sítio. Também a nível de adeptos a tão esperada enchente ficou aquém das expetativas, com vários jogos da fase de grupos a terem vários lugares em aberto ou entradas ao intervalo para deixar tudo mais composto com bilhetes para o recinto que já iam sendo oferecidos cá fora.
Stadium 974 in Doha was designed to be dismantled after the 2022 FIFA World Cup—but it is still standing.
The 40,000-seat venue was constructed with 974 shipping containers integrated into a modular steel frame. The number refers both to the containers used in the project and… pic.twitter.com/SRxfUa0DUi
— Architecture Hub (@archpng) July 11, 2026
Na parte desportiva, imperou a Argentina. A França, que chegava como campeã mundial, conseguiu voltar à decisão mas acabou por cair nas grandes penalidades frente à Albiceleste, numa prova onde Marrocos, que eliminou Espanha e Portugal, se tornou a primeira equipa africana de sempre a chegar às meias-finais. Ainda assim, grande parte da história deste Mundial-2022 acabou por ser contada à luz de um ícone chamado Lionel Messi, capitão e grande referência da Argentina que, aos 35 anos, fez aquilo que poucos pensavam ser possível e conduziu a formação sul-americana ao título mundial – o único que ainda lhe faltava entre as oito Bolas de Ouro conquistadas. Tudo começou com uma derrota inesperada diante da Arábia Saudita, passou por decisões ao limite como contra os Países Baixos e fechou com uma das melhores finais de sempre: 2-2 no final do tempo regulamentar, 3-3 no final do prolongamento e 4-2 no desempate por penáltis.
Uma história. A “boca” para Fernando Santos e os primeiros jogos de Ronaldo no banco
Após vencer Gana e Uruguai, com Ronaldo a marcar de penálti no encontro inaugural, Portugal tinha um jogo quase para cumprir calendário diante da Coreia do Sul, treinada por Paulo Bento. Fernando Santos fez várias alterações nas opções iniciais mas deixou o capitão da Seleção, que procurava marcar mais golos no torneio. Aos 65′, quando foi substituído, as câmaras apanharam a frase “Estás com uma pressa do car**** para me tirar”. O selecionador não se apercebeu de imediato que era para ele mas mais tarde, vendo todas as imagens, admitiu que não gostara do que se tinha passado. Pela primeira vez em jogos do Mundial, CR7 foi para o banco, entrando na segunda parte da goleada à Suíça nos oitavos (com hat-trick de Gonçalo Ramos) e da derrota nos quartos diante de Marrocos. Em 2026, o avançado voltou… como titular.
Um herói. Lionel “encarnou” Diego e conseguiu o título que ainda faltava aos 35 anos
Nascido um ano depois do ano do último título mundial da Argentina, quando Diego Armando Maradona e companhia tomaram conta do México-1986 entre Mão de Deus e Golo do Século nos quartos, mais um bis de El Pibe nas meias-finais e o triunfo por 3-2 diante da RFA na decisão, Lionel Messi “encarnou” o espírito do mítico número 10, colocou às costas a Albiceleste e conseguiu a tão desejada terceira estrela no Qatar com um desempenho de sonho aos 35 anos: dois golos na fase de grupos com Arábia Saudita e México, golos em todos os encontros a eliminar, bis na final ganha frente à França no desempate por grandes penalidades num total de sete golos. Kylian Mbappé foi o melhor marcador da competição (oito) mas foi La Pulga que teve o condão de imortalizar ainda mais o seu nome na história do futebol com o primeiro título mundial.
Uma curiosidade. O Mundial de todos os protestos entre um número que nunca foi conhecido
As recusas sem fim para participação na cerimónia de abertura do Mundial fizeram com que Jungkook e Fahad Al Kubaisi fossem os principais destaques do momento a par de Morgan Freeman e Ghanim Al-Muftah mas a onda de “protestos” e contestação chegou também a algumas das seleções participantes apesar da proibição de qualquer manifestação política por parte da FIFA. O desrespeito pelos direitos humanos e os milhares de mortes que assolaram a antecâmara do torneio na construção dos recintos, em dados avançados por várias organizações internacionais mas desmentidos pela organização, fizeram com que a Dinamarca jogasse com o seu símbolo esbatido na camisola durante a prova. Mas houve mais protestos: da Alemanha, com a imagem dos atletas a taparem a boca pela proibição de uso da braçadeira LGBT+ OneLove; do Irão, que não cantou o hino por solidariedade com o povo que estava a ser alvo de repressão em Teerão; e da Inglaterra, com todos os jogadores ajoelhados antes do início de um encontro fazendo o gesto do Black Lives Matter.
Como foram os resultados do Mundial-2022
- 20 de novembro (fase de grupos): Qatar-Equador, 0-2
- 21 de novembro (fase de grupos): Senegal-Países Baixos, 0-2, Inglaterra-Irão, 6-2, EUA-País de Gales, 1-1
- 22 de novembro (fase de grupos): Argentina-Arábia Saudita, 1-2, México-Polónia, 0-0, Dinamarca-Tunísia, 0-0 e França-Austrália, 4-1
- 23 de novembro (fase de grupos): Alemanha-Japão, 1-2, Espanha-Costa Rica, 7-0, Marrocos-Croácia, 0-0 e Bélgica-Canadá, 1-0
- 24 de novembro (fase de grupos): Suíça-Camarões, 1-0, Brasil-Sérvia, 2-0, Uruguai-Coreia do Sul, 0-0 e Portugal-Gana, 3-2
- 25 de novembro (fase de grupos): Qatar-Senegal, 1-3, Países Baixos-Equador, 1-1, País de Gales-Irão, 0-2 e Inglaterra-EUA, 0-0
- 26 de novembro (fase de grupos): Polónia-Arábia Saudita, 2-0, Argentina-México, 2-0, Tunísia-Austrália, 0-1 e França-Dinamarca, 2-1
- 27 de novembro (fase de grupos): Japão-Costa Rica, 0-1, Espanha-Alemanha, 1-1, Bélgica-Marrocos, 0-2 e Croácia-Canadá, 4-1
- 28 de novembro (fase de grupos): Camarões-Sérvia, 3-3, Brasil-Suíça, 1-0, Coreia do Sul-Gana, 2-3 e Portugal-Uruguai, 2-0
- 29 de novembro (fase de grupos): Equador-Senegal, 1-2, Países Baixos-Qatar, 2-0, País de Gales-Inglaterra, 0-3 e Irão-EUA, 0-1
- 30 de novembro (fase de grupos): Polónia-Argentina, 0-2, Arábia Saudita-México, 1-2, Austrália-Dinamarca, 1-0 e Tunísia-França, 1-0
- 1 de dezembro (fase de grupos): Espanha-Japão, 1-2, Costa Rica-Alemanha, 2-4, Croácia-Bélgica, 0-0 e Canadá-Marrocos, 1-2
- 2 de dezembro (fase de grupos): Sérvia-Suíça, 2-3, Camarões-Brasil, 1-0, Gana-Uruguai, 0-2 e Coreia do Sul-Portugal, 2-1
- 3 de dezembro (oitavos de final): Países Baixos-EUA, 3-1 e Argentina-Austrália, 2-1
- 4 de dezembro (oitavos de final): França-Polónia, 3-1 e Inglaterra-Senegal, 3-0
- 5 de dezembro (oitavos de final): Japão-Croácia, 1-1, 1-3 g.p. e Brasil-Coreia do Sul, 4-1
- 6 de dezembro (oitavos de final): Marrocos-Espanha, 0-0, 3-0 g.p. e Portugal-Suíça, 6-1
- 9 de dezembro (quartos de final): Croácia-Brasil, 1-1, 4-2 g.p. e Países Baixos-Argentina, 2-2, 3-4 g.p.
- 10 de dezembro (quartos de final): Marrocos-Portugal, 1-0 e Inglaterra-França, 1-2
- 13 de dezembro (meias-finais): Argentina-Croácia, 3-0
- 14 de dezembro (meias-finais): França-Marrocos, 2-0
- 17 de dezembro (3.º/4.º lugares): Croácia-Marrocos, 2-1
- 18 de dezembro (final): Argentina-França, 3-3, 4-2 g.p.