Não existe um construtor de veículos de luxo europeu, americano ou japonês e, sobretudo, de modelos desportivos, que ouse equipá-los com pneus chineses, tradicionalmente de qualidade mais fraca, menos seguros e com menor aderência, embora com preços mais reduzidos. Apesar de alguns fabricantes chineses terem evoluído nos últimos tempos em termos de qualidade, o comportamento em piso seco e, especialmente, em molhado está longe dos melhores pneus premium, sobretudo os europeus. E, para evitar que o preço baixo cative os condutores menos atentos ou conhecedores, a União Europeia aumentou os impostos que incidem sobre os pneus vindos da China, a maioria subsidiada — tal como os automóveis — pelo Governo daquele país comunista.
À semelhança do que acontece com os veículos, também nos pneus a China tem vindo a evoluir e há decididamente fabricantes mais sofisticados do que outros, produzindo material de melhor qualidade. Mas a esmagadora maioria exporta para a Europa pneus de fraca qualidade, sobretudo as marcas low cost, que estão longe de garantir que o veículo consegue parar na distância desejável, para evitar um despiste ou um embate, além de assegurar a mesma aderência em curva, capaz de evitar uma perda de controlo por parte de quem vai ao volante.
É claro que, à vista da maioria, todos os pneus são redondos e pretos, com um buraco ao centro, mas os investimentos e a tecnologia que permitem optimizar o desenho do piso, as características da mistura da borracha, com mais aderência e maior resistência ao aquecimento e à degradação sob solicitações elevadas, além de uma carcaça mais robusta, capaz de suportar o esforço e resistir melhor ao rebentamento, têm continuado a separar os melhores pneus europeus dos chineses. E, num período em que se exige que os pneus que equipam os veículos eléctricos sejam simultaneamente melhores para os consumos, mas sem prejudicar a aderência e a segurança — pois os melhores modelos a bateria superam facilmente a potência dos concorrentes com motores a combustão —, os fabricantes chineses têm ainda mais dificuldade em acompanhar a evolução. Excepto no preço, em que as ajudas do Estado, por um lado, e a tecnologia mais barata, por outro, continuam a interessar a alguns clientes.
Os baixos preços tornaram os fabricantes chineses de pneus muito apetecidos em alguns sectores do mercado, a começar pelos utilizadores de veículos (muito) usados e baratos. Isto fez com que, entre 2021 e 2024, a fatia detida no mercado europeu pelos pneus chineses subisse de 18% para 28%, o equivalente a uma importação da China, só em 2024, de 93 milhões de unidades. E, de acordo com a Comissão Europeia, cerca de 336 milhões de veículos de passageiros e de comerciais ligeiros, cujos condutores e passageiros não se apercebem da maior distância de travagem dos pneus chineses, em seco mas especialmente em piso molhado, ou da maior probabilidade de o condutor perder o controlo do veículo numa situação de emergência, continuam a escolher os pneus exclusivamente pelo preço.
Para proteger os condutores e as marcas europeias que produzem e comercializam pneus de melhor qualidade, como a Michelin, Pirelli e Continental, a UE decidiu que alguns fabricantes de pneus chineses que colaboraram com os reguladores europeus para determinar as ajudas estatais chinesas ilegais que recebiam vão suportar uns impostos reduzidos, de apenas 24,5%, enquanto os restantes pagarão 45,3% à entrada do mercado europeu. De acordo com a Automobilwoche, as taxas a aplicar dependem do valor de importação de cada pneu, em vez do seu preço de venda, com o valor médio destes pneus a rondar apenas 30,30€. A taxa de 45,3% vai elevar em 13,70€ o preço de venda, enquanto a taxa reduzida de 24,5% “castiga” o preço em apenas 7,40€. Não parece o suficiente para provocar uma mudança de hábitos, mas é um princípio e a estratégia pode sempre vir a sofrer actualizações para se robustecer e ficar mais justa.
Tal como aconteceu com os veículos exportados para a Europa e acusados de dumping ou de ajudas ilegais pela Organização Mundial do Comércio, também os fabricantes chineses de pneus foram alvo das mesmas investigações europeias em meados de 2025, após queixa dos rivais europeus. As investigações concluíram que o dumping oscilava entre 41% e 104%, o que permitia aos pneus chineses serem 35 a 65% mais baratos.