Em dois dias, muito mudou na Volta a França. No final da segunda semana, o pelotão enfrentou mais uma etapa de alta montanha que ficou marcada pelos polémicos testes antidoping feitos a Tadej Pogacar (UAE Team Emirates-XRG) e Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) durante a madrugada. Durante a etapa, o dinamarquês caiu na saída de uma rotunda e abandonou com uma fratura da clavícula. Já esta terça-feira, no único contrarrelógio individual desta 113.ª edição, Florian Lipowitz (Red Bull-Bora-hansgrohe) perdeu o controlo da sua bicicleta durante uma curva, caiu com violência e também foi forçado a abandonar a competição com a mesma lesão de Vingegaard. As duas etapas acabaram por ser conquistadas pelo colega Remco Evenepoel, que deu um passo importante rumo ao segundo lugar no pódio de domingo.

Uma curva que estragou tudo: Remco vence Pogacar no contrarrelógio mas Red Bull perde “escudeiro” Lipowitz

“Foi um bom dia. Estou um pouco dececionado. No topo da subida estava a cerca de 15 segundos do Remco, mas pensei: ‘Está bom, não vou correr riscos até ao fim’. Quase caí numa curva, onde o Lipo caiu. No reconhecimento havia alguns carros da organização e não consegui ver aquela curva como queria. Espero que o Lipo esteja bem e recupere rápido. É triste ver mais um candidato à classificação geral fora da prova. Obviamente queria vencer, mas o Remco é o campeão do mundo, campeão olímpico e campeão europeu no contrarrelógio. Esteve brilhante. Tour? Ainda não acabou. Temos uma semana bastante dura pela frente. A diferença é boa, mas nunca sabes o que pode acontecer num dia. Vamos com confiança e moral para o fim de semana. Vamos ver o que acontece”, explicou o maillot jaune no final do contrarrelógio.

“É incrível conseguir duas vitórias seguidas. Sinto-me muito bem. Nos primeiros quilómetros dei o meu máximo e pensei que isso me pudesse prejudicar na descida, mas senti-me forte. Só posso estar feliz com o que consegui. No início do Tour sentia-me bem, mas não espectacular. No entanto, estou a melhorar, sinto-me melhor a cada dia que passa e estou a chegar a um nível de forma física impressionante. Lipowitz? Vou sentir a sua falta na última semana. Agora tenho de carregar a equipa às costas. Estou orgulhoso e feliz do rendimento que deu neste crono”, analisou o belga da Red Bull.

Esta quarta-feira estava reservada a última oportunidade para os sprinters puros, com a etapa entre Chambéry e Voiron a contar com 2.200 metros de desnível positivo acumulado, num total de 174,7 quilómetros. O percurso contava com quatro subidas categorizadas — uma de terceira categoria e três de quarta —, todas nos primeiros 84 quilómetros. Apesar da exigência na fase inicial junto à “Cidade dos Duques”, o percurso aligeirava, embora o trajeto em direção a Voiron fosse de altos e baixos. É daquela cidade do departamento de Isère que é originário o famoso licor Chartreuse, que é produzido há séculos por monges cartuxos e cuja receita se mantém no secretismo. Foi também ali que nasceu a campeã olímpica e do mundo do lançamento do disco, Mélina Robert-Michon, e a campeã do mundo de andebol, Véronique Pecqueux-Rolland. Em termos de ciclismo, a comuna localizada perto de Grenoble assistiu às vitórias dos belgas Stan Ockers (1956) e Wout van Aert (2019), ambas no Dauphiné.

Os ataques voltaram a ser uma constante desde a partida real, mas as equipas dos sprinters conseguiram anular praticamente todas as tentativas. Nessa altura, contudo, uma grande queda assolou o pelotão, levando ao chão nomes como Tom Pidcock (Pinarello Q36.5), Lenny Martinez (Bahrain-Victorious) e Marc Hirschi (Tudor), e virou a corrida do avesso, de tal forma que uma tentativa de ataque de Matej Mohoric (Bahrain) e Mathieu van der Poel (Alpecin-Premier Tech) cortou o pelotão, deixando para trás Isaac del Toro (Emirates), Mads Pedersen (Lidl-Trek) e Jasper Philipsen (Alpecin). Com 100 quilómetros pela frente deu-se a junção, embora continuasse atrasado um grupo com mais de 60 ciclistas, entre eles Biniam Girmay (NSN). Na frente, Van der Poel e Mohoric voltaram a escapar, mas com a companhia de mais 14 ciclistas, como Jai Hindley (Red Bull), Quinn Simmons (Lidl) e Egan Bernal (Netcompany Ineos).

A partir daí, com poucos sprinters presentes, a Decathlon assumiu o trabalho em prol de Olav Kooij e reduziu a distância, até Pedersen atacar e entrar no grupo da frente. Com o camisola verde seguiram mais de 20 ciclistas, que aumentaram consideravelmente a dimensão da fuga. Atrás, a Emirates continuava com problemas, já que Adam Yates (Emirates) se mostrava frágil em termos físicos e, em poucos quilómetros, passou do pelotão para o último lugar da corrida, em solitário. Por outro lado, Nils Politt estava na fuga, pelo que Felix Grossschartner era o único escudeiro de Pogacar e Del Toro, até o grupo de Girmay reentrar com os restantes Emirates. No sprint intermédio, Pedersen controlou e garantiu mais 25 pontos, mas Jasper Stuyven (Soudal Quick-Step) respondeu com um ataque e isolou-se.

A 3,7 quilómetros da meta, o belga foi neutralizado e a decisão ficou guardada para o sprint final, onde um compatriota deu a terceira vitória consecutiva ao seu país. Van der Poel fez a aproximação final e lançou Philipsen com muita qualidade, deixando o colega completamente sozinho para vencer pela primeira vez nesta Volta a França. Mauro Schmid (Jayco AlUla) ficou com o segundo posto, ao passo que Kooij completou o pódio. O pelotão entrou na meta sem percalços, a 8.46 minutos, ao passo que Yates concluiu ao lado de Tim Wellens e Anders Halland Johannessen (Uno-X Mobility), a 26.36 minutos.

Assim, a geral segue inalterada, com Tadej Pogacar a liderar com 4.32 minutos de vantagem para Remco Evenepoel e 6.51 face a Isaac del Toro. Nos pontos, Philipsen relançou a luta pelo primeiro lugar e está agora a apenas sete pontos de Pedersen (452-445), com Girmay a surgir no terceiro lugar (361 pontos). Coletivamente, o triunfo da fuga acabou por sorrir à Lidl que, depois de ter terminado a etapa de terça-feira com apenas 23 segundos de vantagem para a Emirates, aumentou consideravelmente a distância, para os 18.10.