Luís Represas, fundador e vocalista dos Trovante até à dissolução da banda em 1992 e cantor a solo, morreu na manhã desta quarta-feira, vítima de doença prolongada. A Blitz avançou que o músico combatia um cancro do pulmão e que a morte resultou de complicações relacionadas com a doença. O velório está marcado para quinta-feira, na Basílica da Estrela, em Lisboa, e o funeral realiza-se na sexta-feira. O músico de 69 anos celebrava o 50.º aniversário de carreira este ano.
De acordo com a informação divulgada pela Blitz, o cancro do artista estava em estado avançado, tendo sido identificadas metástases, pelo que Luís Represas aguardava um tratamento inovador no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. O velório na quinta-feira na Basílica da Estrela, em Lisboa, será público entre as 16h00 e as 22h30. O funeral realiza-se na sexta-feira, depois de uma cerimónia religiosa às 15h00, naquela basílica, e é reservado à família.
Natural de Lisboa, foi na banda constituída com o irmão, João Nuno Represas, João Gil, Manuel Faria e Artur Costa no verão de 1976 que alcançou a notoriedade na indústria musical do pós-25 de abril. Entre os temas mais populares do grupo estão Perdidamente, inspirado no poema com o mesmo nome de Florbela Espanca, 125 azul ou Fizeram os dias assim. Ao longo dos anos 80, a banda foi enriquecida com novos membros, entre os quais Fernando Júdice, José Salgueiro e António José Martins.
Os Trovante regressaram aos palcos do país em março deste ano. Nos passados 20 e 21 de março, atuaram na MEO Arena, em Lisboa, e nos dias 27 e 28 do mesmo mês apresentaram-se ao público do Porto na Super Bock Arena — Pavilhão Rosa Mota. “Viver Tudo Numa Noite” foi o mote das apresentações ao vivo do grupo que celebrava 50 anos de nascimento e cujo último álbum, Um Destes Dias, foi publicado em 1990.
Entre os álbuns mais célebres da banda estão o disco de estreia, Chão Nosso (1977), que explorou a música popular portuguesa e os temas da revolução de abril, Baile no Bosque (1981) — a catapulta dos Trovante para as luzes da ribalta —, Sepes (1986) e Terra Firme (1987) — reconhecido com o galardão de “Disco de Ouro”. O grupo colaborou com vários ilustres da música, entre os quais Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Vitorino ou Sérgio Godinho.
O artista também alcançou sucesso na carreira a solo. Lançou o primeiro álbum, Represas, em 1993, influenciado por uma viagem a Havana. O tema Feiticeira, em colaboração com o cubano Pablo Milanés, é o mais conhecido desse álbum totalmente gravado em português e castelhano. Com um repertório diverso e rico em colaborações musicais, como Bernardo Sasseti, Simone de Oliveira, Jorge Palma, Compay Segundo, ou Gilberto Gil, lançou uma série de discos marcantes — recordem-se Cumplicidades (1996), Fora de Mão (2003), Olhos nos Olhos (2008), Boa Hora (2018) e o mais recente Miragem (2024).
A solo, tinha duas datas previstas para o próximo ano — com passagem pelos Coliseus de Lisboa e do Porto. “São 50 pisos desde a cave até este andar inacabado”, lê-se na descrição dos eventos, numa citação atribuída ao cantor. “Mais outro virá e outro ainda. Sempre sem teto nem telhado. Todos assentes em letra e música. Porque assim não caem. Todos com vista para o céu de agora, para o rio de ontem, para o mar de amanhã.”
Intervenção e reconhecimento político
Os Trovante estão ligados à luta de esquerda desde a sua formação. Luís Represas tinha 20 anos quando constituiu a banda, com amigos que conhecera na União dos Estudantes Comunistas, e foi associado ao PCP até ao fim da vida. O grupo atuou um total de dez vezes na Festa do Avante — onde estreou em 1977, tendo-se apresentado pela última vez em 2011, quando tanto a banda como o festival celebraram 35 anos de vida. No podcast Posto Emissor, da Blitz, Luís Represas, João Gil e Manuel Faria admitiram que “havia muita gente que dizia que [eram] o grupo oficial do PC”, ideia que sempre rejeitaram — apesar de simpatizantes do partido — e que, reconhecem, os deixava “furiosos”.
Inicialmente composto para a banda sonora do telefilme Flores Amargas (1989), de Margarida Gil — sobre um acampamento de refugiados timorenses no Vale do Jamor —, o tema Timor, dos Trovante, foi reivindicado pela luta pela independência do país em relação à Indonésia. Após um referendo à população concretizado em 1999, e que evidenciou o compromisso do povo com a autonomia, a antiga colónia portuguesa foi vítima de uma campanha de violência e terror levada a cabo pelas autoridades indonésias.
Em 2002, foi declarada a independência de Timor-Leste, em resultado de uma grande mobilização internacional — da qual o então Presidente da República português, Jorge Sampaio, foi um protagonista importante. No ano de 2000, Luís Represas foi convidado a acompanhar o chefe de Estado ao território do Sudeste Asiático e cantou Timor, que logo se tornou num hino da causa timorense. Mais tarde, seria condecorado com a Medalha da “Ordem de Timor-Leste” pelo Presidente Taur Matan Ruak.
A história de “Timor”, a canção que se transformou no “som do direito à audodeterminação”
Em 2005, Luís Represas foi distinguido pelo Estado português com a Ordem de Mérito do grau de Comendador por Jorge Sampaio.