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Fotografia de arquivo datada de 16 de maio de 1999, do escritor e jornalista Joaquim Letria, que morreu hoje, aos 82 anos, em Lisboa, 16 de outubro de 2026. MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
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▲Joaquim Letria foi jornalista, escritor, professor e porta-voz presidencial de Ramalho Eanes

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

▲Joaquim Letria foi jornalista, escritor, professor e porta-voz presidencial de Ramalho Eanes

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Joaquim Letria (1943–2026): o repórter e inventor de jornais sem papas na língua

Repórter, fundador de jornais, porta-voz presidencial e professor. Uma vida construída na recusa da autocensura e no serviço ao jornalismo. Morreu esta sexta-feira, aos 82 anos.

“Quando fiz 50 anos, decidi que ia passar a dizer tudo, como os malucos”. Proferida quando já tinha 70 anos, no âmbito de uma entrevista de vida, esta declaração de Joaquim Letria é tão verdadeira quanto esconde uma falácia. Muito antes de cumprir meio século de vida, já o jornalista e escritor tinha pugnado por dizer e fazer aquilo que considerava importante, malgrado o desconforto que pudesse causar seja a quem fosse. Mesmo tendo combatido o Estado Novo e as suas mordaças, considerava que “a autocensura é a pior das censuras”.

Tendo morrido esta sexta-feira aos 82 anos, Letria deixa para trás um legado inigualável ao serviço do jornalismo, pelas inovações que trouxe ao ofício, pela dedicação que teve pelo mester, pelos futuros profissionais que moldou em diversas instituições de ensino, pelos títulos e projetos que ajudou a fundar e que fizeram de Portugal e o seu público mais ricos e bem informados. Numa entrevista ao Expresso em 2021, afirmou que jamais entraria na reforma e cumpriu essa promessa: continuou a escrever crónicas e a manter-se envolvido até ao limite das suas capacidades. “O presente é o que me preocupa. O futuro preocupa-me pouco e o passado já lá vai. Foi bom, mas já lá vai”, afirmou nessa conversa.

“Quer um emprego ou quer ser jornalista?”: do Diário de Lisboa à BBC

Nascido em Lisboa a 8 de novembro de 1943, Joaquim José da Conceição Letria cedo enfrentou adversidades na vida. A mãe, uma violinista da Orquestra Filarmónica de Lisboa por si descrita como uma mulher de grande beleza, morreu no parto. Aos dez anos, contraiu poliomielite, deixando-o debilitado nas mãos e do braço esquerdo, forçando-o a fazer fisioterapia. “Teve muita importância no meu carácter porque me deu força. Perdi o uso das duas mãos e do braço esquerdo. Tive de aprender uma nova maneira de segurar na caneta senão não conseguia escrever. E tinha de me vestir e o mais difícil era o botão. Cheguei a passar horas para meter um botão na casa. E não desistia. Lembro-me de chorar de raiva porque, quando o botão já estava quase, saltava e tinha de recomeçar”, revelou ao Nascer do Sol em 2014.

Não obstante estas dificuldades, Letria cresceu “estragado” de mimos pelos avós paternos e maternos, que viviam na mesma rua em Campolide. Em entrevistas, disse que foram eles que lhe ensinaram tudo, que lhe deram mundo e uma ânsia de aventuras, que lhe contaram histórias quando estava a recuperar, que lhe deram todo o carinho possível. “Não podia ter tido uma infância mais feliz do que tive”, vaticinou.

Os estudos no Liceu Passos Manuel e no Colégio Moderno levaram-no a perceber que queria ser jornalista, em parte empurrado pelas vozes de incentivo que elogiavam o seu talento para a escrita, em parte pelo Diário de Lisboa ter publicado um dos seus contos. “Quando vi aquilo publicado com o meu nome percebi que era mesmo o que queria fazer”, recordou. A entrada no ofício deu-se aos 18 anos, nesse mesmo jornal, mas apenas ao fim de muita insistência, como descreveu à TSF:

Pedi à Emília Neves para falar ao pai: ‘Fala ao teu pai, pede ao teu pai, fala ao teu pai, pede ao teu pai’. Andei meses nisto até que, finalmente, ela disse: ‘Vai lá que já falei com o meu pai’. Depois, tive mais de um mês e meio de persistência, a ir todos os dias à redação tentar falar com o Dr. Mário Neves, um extraordinário jornalista e um homem a quem o Diário de Lisboa deve tudo. Mas não me recebia, tinha mais que fazer até que um dia me recebeu e perguntou-me: ‘Você quer ser jornalista ou quer um emprego? Porque se quer um emprego eu arranjo-lhe na Feira das Indústrias. Se quer ser jornalista, entra para aqui’. E foi assim que eu comecei. Eu ganhava 50 escudos por dia e, quando não trabalhava, não ganhava. Mas aprendi muito, trabalhei com gente fantástica. Comigo trabalhavam o Urbano Tavares Rodrigues, o Manuel da Fonseca, o José Cardoso Pires, o Luís Sttau Monteiro, o Manuel de Azevedo. Tinha um ambiente completamente familiar”.

Começou no menos qualificado dos postos, atender chamadas dos correspondentes. No entanto, ao fim de seis meses, satisfeita com o seu trabalho, a direção perguntou-lhe se queria ser estagiário. O seu primeiro serviço chegou pouco tempo depois, quando o mandaram cobrir um incêndio a decorrer na Avenida Duque de Loulé. “Eu nunca tinha visto um incêndio sequer e também ninguém me disse como é que se cobria um incêndio. De maneira que cheguei lá e fiz uma coisa que os jornalistas agora fazem todos, mas não fiz como eles fazem agora. Fui falar com os bombeiros. Ia tomando notas e sabendo o que se estava a passar, a origem, os prejuízos. Agora chamam um bombeiro, esticam-lhe o microfone e o bombeiro, coitado, tem que fazer a reportagem além de apagar o incêndio. Não foi isso que eu fiz”, apontou, mordaz, nessa mesma conversa.

Essa proatividade, de resto, levou-o a encetar uma autêntica epopeia pela América do Sul, dando origem à rubrica “Algures no mundo há sempre um repórter do Diário de Lisboa”. “Naquela época, a força aérea permitia borlas a estudantes e jornalistas. Aparecia numa base, dizia que era jornalista e perguntava se havia algum voo a sair. E ia. Isto permitiu-me correr o Brasil todo de norte a sul. Depois, Argentina, Bolívia, Peru. Foi uma viagem absolutamente inesquecível”, contou. O que era suposto ser um trabalho de um mês estendeu-se para seis e meio. Foi também a trabalhar para este órgão que foi um dos jornalistas a reportar as Cheias de 1967 — facto que nunca seria esquecido pelo município de Vila Franca de Xira, que o convidou para ser curador de uma exposição evocativa da tragédia em 2019.

O talento e a apetência para a grande reportagem abriram-lhe as portas internacionais. Depois de colaborações com a revista Flama e com o Rádio Clube Português, tornou-se repórter internacional da agência norte-americana Associated Press, onde trabalhou durante sete anos divididos por Lisboa, Rio de Janeiro e Nova Iorque e que considerou ser a sua “grande escola”. “Estive na Bolívia depois da morte do Che Guevara, apanhei as fases piores da ditadura militar do Brasil… Mas aí ninguém sabia que eu era comunista, apesar de manter alguns contactos”, recordou ao Nascer do Sol.

Findada esta experiência, regressa a Portugal mas tem pouco tempo para assentar, visto que abre uma vaga para “Program Assistant para a secção portuguesa” da BBC, em Londres. Arriscou e valeu a pena, foi aceite, rumando à capital britânica em 1970, com a mulher e um filho a acompanhá-lo. A adaptação foi dura por falta de meios, mas o envolvimento com a comunidade emigrada ajudou-o a encontrar um local para viver no bairro de Chelsea. Dessa experiência na emissora pública britânica retirou inspiração para trazer novos formatos para Portugal e refinou a arte da entrevista ao ver figuras como Robin Day e David Frost em ação. “Foram os melhores anos da minha vida”, assumiu anos mais tarde.

A entrada na RTP, o choque com Spínola e a “mentira piedosa” que juntou Soares e Cunhal

Como ele próprio admitiria em mais do que uma ocasião, Joaquim Letria não só não noticiou a Revolução dos Cravos a partir de Londres como só soube do acontecimento dois dias depois — tudo porque estava a “portar-se mal”. A culpa foi de uma escapadela extraconjugal com uma jornalista grega na Áustria. “Quando cheguei à secção estava em alvoroço porque não sabiam de mim. A minha mulher, mãe do meu filho mais velho, por quem tenho um carinho especial porque me aturou coisas muito difíceis ao longo de 20 anos, também não sabia de mim. Ninguém sabia de mim. Na BBC chegaram a pôr a hipótese de eu estar envolvido no golpe e ter fugido para Portugal. Foi uma barraca”, admitiu.

Letria também não pôde gozar do clima de festa que se instalou imediatamente a seguir ao golpe porque teve de ficar sozinho a assumir a secção. O regresso só se dá a 19 de maio e pela infeliz ocasião da morte do seu tão querido avô paterno. Entretanto, na sequência das negociações entre Portugal e a Guiné-Bissau, a RTP pede-lhe um serviço e é assim que entra, finalmente, na estação pública. “Vim para a direção de informação da RTP e, quando há a tentativa de autonomizar o canal 2, passo para lá. É nesta altura que crio o Teledomingo”, revelou.

No entanto, apenas 15 dias após a entrada na RTP, colide de imediato com o poder. António de Spínola ordena o seu afastamento da televisão por, como parte da sua cobertura na Guiné-Bissau, ter entrevistado Pedro Pires, dirigente do PAIGC que o marechal considerava “terrorista”. “Aquele tipo da barba nunca mais aparece na televisão”, terá dito Spínola à direção. Em conversa ao Observador, Letria confessou ter levado a sério essa exigência e começado a fazer contas à vida, até porque ainda tinha os seus bens, vindos de Londres, por alfandegar. No entanto, mereceu a confiança e o apoio de Álvaro Guerra e Ramalho Eanes, ambos membros da direção. “Nunca mais ninguém falou comigo e eu nunca fui despedido. Fui aparecendo sempre na televisão e fui fazendo coisas”, contou.

Joaquim Letria e as eleições de 1975: “Injeções, whisky e café. Foi como aguentei 30 horas seguidas no ar”

Durante o atribulado período do PREC, quis devolver a Eanes a lealdade que este teve para consigo e colocou o lugar à disposição quando o (à época ainda) Tenente-Coronel se demitiu da presidência da RTP após ser acusado de envolvimento na Intentona de 11 de Março de 1975. É convencido a ficar e dessa decisão resultam alguns dos episódios mais marcantes da história da televisão portuguesa.

Primeiro, no fervor das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte, a 25 de abril de 1975, conduz uma emissão de 30 horas consecutivas a acompanhar todas as ocorrências. Quando questionado pelo Observador sobre como fora possível aguentar a maratona no ar sob febre intensa, respondeu: “Injeções, whisky e café”. Depois, ao longo de junho, acompanha o processo de independência de Moçambique, o que inclui uma entrevista a Samora Machel no meio do mato.

As 3 horas 40 minutos e 52 segundos mais importantes da vida de Soares

No entanto, aquela que possivelmente terá sido a sua maior marca no jornalismo nacional foi o debate que, ao lado de José Carlos Megre, moderou entre Mário Soares e Álvaro Cunhal a 6 de novembro de 1975. Esse embate que ainda hoje reverbera só aconteceu devido a uma “mentira piedosa” da parte de Letria. “Eles não queriam, mas eu achava que tinham de discutir os dois na televisão. Pedi para falar com o Soares e menti: ‘Vou dizer que o senhor não aceitou, porque o Álvaro Cunhal já aceitou’. Ele disse que já me ligava e passados uns minutos disse que aceitava. Liguei ao Cunhal a dizer que o Soares aceitava e ele disse que sim. Se não tivesse mentido não tinha havido debate”, contou ao Sol. Sem esta manobra, é crível que estas três horas e 40 minutos de debate nunca tivessem acontecido. “Esse foi o meu truque. Não é honesto, mas soube bem. Sobretudo depois de eles estarem sentados, fiquei muito feliz”, admitiu ao Expresso.

▲ O debate entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. Joaquim Letria encontra-se ao centro, de barba.

O inventor de jornais de espírito livre

Letria, no entanto, acabaria mesmo por sair da RTP ainda em 1975, dedicando-se ao lançamento de um novo título, O Jornal. Foi ao sair da estação de madrugada que encontrou na rua outros dois experientes camaradas, Manuel Beça Múrias e Hernâni Santos, que lhe perguntaram se não estava farto do jornalismo que se estava a fazer em Portugal. “Estou um bocado, estou um bocado cansado disto, de facto”, respondeu ao desafio, conforme contou ao Observador. “Nessa altura, já se sentia muito a pressão do poder político sobre os jornais. Dantes era o poder económico, depois veio o poder político”, completou.

O Jornal era um semanário de inspiração britânica detido inteiramente pela sua equipa. Essa periodicidade, no entanto, não foi uma questão de escolha, foi porque “não tínhamos dinheiro para fazer um jornal diário”, contando ainda assim com a “boa vontade e a generosidade” de António Pedro Ruella Ramos, que permitiu que usassem a sua gráfica. Não obstante, teve um início fulgurante, ocupando um espaço à esquerda não-comunista e com Letria como primeiro diretor — ao longo dos anos 80, no entanto, foi perdendo gás e acabaria por encerrar e transmutar-se na revista Visão no início dos anos 90.

O jornalista, todavia, já tinha saltado fora ainda antes da mudança da década. Depois de uma passagem pela ANOP (atual Agência Lusa), regressa à RTP em 1978 para dirigir a informação do segundo canal e criar novos formatos. É neste retorno que, por exemplo, entrevista Salvador Dali em 1979, no âmbito do programa Directíssimo, que juntava informação e entretenimento. O projeto seguinte, todavia, seria ainda mais marcante. O nome descontraído, Tal & Qual, deixava antecipar o tom que assumiria, sendo dos primeiros produtos televisivos do país a ter uma rubrica de apanhados. O que o meteu em apuros foi, no entanto, outro formato, o de sketches a imitar entrevistas a personalidades históricas. Por ter feito um episódio a parodiar uma entrevista a um cónego e censor da Real Mesa Censória, recebe ordens da administração, liderada por Victor da Cunha Rêgo, para terminar o programa. A justificação dada à época foi a de que tinha “melindrado a Igreja”. Décadas depois, desmentiu essa versão com provas. “Sei isto pela boca do cardeal, que na altura era António Ribeiro. Nunca a Igreja falou em incómodos nem nada disso. Eu penso que estava a incomodar, tanto que eu sei, aquele que me despediu”, afirmou ao Expresso.

Saído pela segunda vez da RTP, volta a lamber as feridas e acaba a dar uma chapada de luva branca à emissora estatal, quando duas semanas depois do despedimento forma um semanário exatamente com o mesmo nome do programa defunto. A ideia nasceu de lampejo numa mesa de restaurante em Alfama, numa noite de Santo António, a comer sardinhas assadas com amigos. “Eu, de raiva, positiva, claro, fiz o jornal. E foi um sucesso. Saiu numa época em que só havia o ‘Diário de Notícias’, que publicava o que a agência Lusa enviava, e o ‘Dia’, que publicava as notícias de direita da Lusa”, afirmou ao Correio da Manhã em 2005.

Irreverente, divertido, polémico, louco. A saga do jornal Tal&Qual, fundado há 40 anos

É com esse lema, de publicar as histórias que não saem nos outros jornais, que o Tal & Qual sai a 28 de junho de 1980 com a icónica manchete “Os dois enfim!” sobre a relação entre Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis. Cáustico, aventureiro, politicamente incorreto, torna-se num sucesso, arranca logo com uma tiragem de 150 mil exemplares e causa mossa. Seria com esse mesmo espírito que, já tendo abandonado a direção do semanário (por um desafio que será mencionado já de seguida) e voltado uma segunda vez à RTP, entrevistou a cadeira vazia do ministro das Finanças do primeiro e segundo Governos de Cavaco Silva, Miguel Cadilhe, já que este desmarcou a sua presença em cima da hora do noticiário. Letria ficaria ainda na história do jornalismo português ao integrar a equipa fundadora da revista Sábado — a convite de Pedro Santana Lopes —, cuja direção assumiu entre 1988 e 1992.

A clandestinidade no PCP, o percurso com Eanes, a campanha com Marcelo

Contrastando com a estabilidade familiar de que gozou fruto do carinho dos seus avós, Joaquim Letria tomou os riscos de desafiar o Estado Novo. Aos 16 anos, filiou-se no Partido Comunista Português (PCP) e chegou a operar na clandestinidade, transportando camaradas e vivendo a oposição nas sombras. Esse período não deixou potenciais sequelas gravosas devido à lealdade de um dos seus amigos de sempre, que não o denunciou à PIDE “mesmo depois de 14 dias de tortura” e, assim, impediu-o de ser preso. Esteve filiado durante oito anos, mesmo já depois de entrar no jornalismo, mas, como tantos outros, rompeu com o partido em outubro de 1968 devido à invasão soviética da Checoslováquia. No entanto, nunca perdeu o carinho e diz ter votado CDU em várias ocasiões subsequentes, o único partido que “nunca o enganou”.

O percurso de Letria voltaria a confluir com o da política mais de uma década depois, quando participou na campanha de reeleição de Ramalho Eanes, em 1980, à Presidência da República. Tendo ficado amigos na RTP, o convite tinha surgido logo na campanha de 1976, mas dessa vez recusou, por várias razões. “Não consegui apoiar uma pessoa — que apoiava pessoalmente — mas cujos apoios públicos incluíam o PSD e o CDS. Expliquei-lhe as minhas razões e acho que ele não ficou melindrado. E havia outro motivo: tinha acabado de criar O Jornal. E estar ligado a um jornal e apoiar um candidato não me pareceu bem”, afirmou ao Nascer do Sol.

Em 1980, todavia, o caso foi diferente. Deixou o Tal & Qual e não só acompanhou o Eanes como se tornou no seu porta-voz para o segundo mandato — seria assim que o veríamos do “outro lado” da relação com os jornalistas, sendo entrevistado na qualidade de representante presidencial. Antes de aceitar, no entanto, teve dúvidas, e foi até Paris para pedir conselhos a Pierre Salinger, correspondente da ABC que antes fora porta-voz de John F. Kennedy e que tentou concorrer ao Senado norte-americano. “Tínhamos amigos comuns e consegui arranjar um encontro. Almoçámos num bistrot bem simpático e disse-lhe que tinha este convite, mas que era jornalista, que nunca tinha saído do jornalismo, e que não sabia o que fazer. E ele disse-me: ‘Aceita porque nunca vais aprender mais do que vais aprender ali’. E confirmou-se. Não me arrependo nada”, completou.

Quando o mandato de Ramalho Eanes terminou em março de 1986, continuou na assessoria política, fazendo a campanha de Francisco Salgado Zenha às subsequentes presidenciais e de Marcelo Rebelo de Sousa às autárquicas por Lisboa em 1989. Do primeiro exemplo, recordou a exasperação de gerir um candidato que foi alvo de uma “campanha suja” e que, mesmo sendo “um ser superior”, era alguém que “fazia tudo o que não devia”, como disse ao Observador. Do segundo, reconheceria mais tarde que não se identificava “de maneira nenhuma com ele” politicamente, mas que achou que “dava um presidente de câmara divertidíssimo”. Para Letria, o critério era identificar-se com as pessoas e, se isso não bastasse, com as suas ideias.

A recusa da autocensura e os 17 anos de afastamento

O fim da experiência na política ditou o seu terceiro e derradeiro regresso à RTP, numa nova fase dourada onde protagonizou programas do segundo canal como o autointitulado Joaquim Letria, Apanhados, Conversa Afiada ou Já Está, no qual entrevistou a polémica D. Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança. No entanto, em 1996 ocorreu um novo incidente que pôs termo à sua relação com a estação pública em definitivo. Foi no decurso do seu programa de rádio na RDP, Cobras e Lagartos, estando em causa acusações de racismo por ter repetido um termo que um dos ouvintes tinha usado numa emissão. Como contou ao Sol: “Há um ouvinte que está sempre a dizer ‘Os pretos isto, os pretos aquilo…’. Eu, quando respondo, uso a expressão do ouvinte. De repente, aparece uma montagem em que só se ouve a mim”. Na altura, mencionou-se que o incidente tinha criado problemas com o Estado angolano, razão para que o programa fosse suspenso e ele acabasse despedido. Quase 10 anos depois, no entanto, ofereceu outra explicação demolidora ao Correio da Manhã:

Não houve crise nenhuma. Dou-me muito bem com os angolanos. Isso foi um dedinho do PS para acabar com um programa que lhe era desconfortável. E para isso usou uma coisa que é o ‘assassinato de carácter’, acusando-me de proferir ideias racistas. Hoje até me rio, porque sou amigo do Amílcar Cabral, do Agostinho Neto, do MPLA. Dizer que eu era racista é admirável e só podia sair da cabeça de algumas pessoas do PS. No final, a justiça deu-me razão. E sei perfeitamente que aquilo era uma montagem com meios do Estado. Típico do PS.”

Esta não seria a primeira nem a última vez que se sentiria visado pelo poder, considerando-se atacado por representar um incómodo. Relativamente ao desaguisado com Victor da Cunha Rêgo quanto ao Tal & Qual, afirmou ao Expresso que, além da inimizade pessoal com o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Soares, foi despedido porque “não fazia as vontades, não fazia fretes”. Já ao Sol afirmou que nunca teve um nome vetado para os programas que realizou porque “não pedia autorização a ninguém”, mas que, “mais tarde houve tentativas” e, nesse aspeto, “o PS foi o pior”. Antes, ao CM, tinha alertado para a tentação de “todos os governos, de todos os partidos, de uma maneira ou de outra, quererem controlar a comunicação social”. Nesse grupo, destacou o Partido Socialista porque “não consegue mesmo resistir e é o que faz esse controlo da pior maneira”.

Após a saída da RDP, entrou num período de exílio no qual teve colaborações com a Rádio Comercial e o tabloide 24 Horas, mas que serviu essencialmente para dedicar-se à escrita e ao ensino: lecionou na Escola Superior de Jornalismo do Porto, na Universidade Independente, na Universidade Autónoma de Lisboa e no ISCIA em Aveiro. Ao longo de 17 anos, diz que não recebeu “nem um convite”, mas também não andou “aí a sofrer por não aparecer”, ao contrário de “gente que mendigava um tempo na televisão”. “Felizmente tinha possibilidade de recorrer a outras atividades, mas nestes 17 anos ninguém se preocupou em pensar ‘como é que aquele tipo come? O que faz da vida? E a família?’. Ninguém se preocupou. Nunca ninguém me perguntou se precisava de alguma coisa”, lamentou.

O regresso só se deu em 2014, depois de regressar ao olhar mediático quando a jornalista Dora Santos Rosa lançou o livro-entrevista Joaquim Letria – Sem Papas na Língua e os dois foram convidados para apresentá-lo no A Tarde É Sua, da TVI. “Ela foi convidada para ir ao programa da Fátima Lopes. E levou o emplastro, que era eu. A Fátima gostou da minha presença, perguntou se não gostava de voltar a fazer televisão”, afirmou ao Sol. Letria aceitou e acabou a ter uma rubrica regular neste programa.

Nas várias entrevistas que foi dando ao longo da vida, Joaquim Letria nunca se arrependeu do que disse ou fez e das suas consequências. “Eu digo porque penso, não é porque fico à espera do resultado do que digo. Em liberdade acho que devemos ser assim. A autocensura é a pior das censuras”, apontou. Olhando para o estado atual do país e do jornalismo, afirmou que é “cada vez mais fácil estarmos entregues à bicharada”, mas não quis culpar os jovens: “há dificuldades muito grandes de que as pessoas não têm culpa. Não têm culpa do que ganham, não têm culpa do tempo que lhes dão para fazer as coisas, da falta de direção…”

Joaquim Letria: “Tenho saudades do Benfica europeu”

Nesse domínio, tentou escrever até quando pôde, assinando crónicas semanais no Minho Digital entre 2019 e o início de 2025. Antes de publicá-las, dava-as a ler a Berta Correia Ribeiro, a sua segunda mulher, que conheceu durante um voo presidencial a São Tomé nos anos 80 quando esta, assistente de bordo da TAP, lhe serviu café em cima do chá. Teve dois filhos e o seu outro grande amor era o Benfica, que acompanhava desde “o tempo do Coluna, do Eusébio, do Germano”, mas que o entristecia por já não ser um clube de dimensão europeia. Muito do que atingiu na vida, assumiu em 2014, ao fazer 70 anos, surpreendeu-o: “Nunca esperei chegar a esta idade. Andei sempre com a ideia que era como Cristo, que ficava nos 33. Quando comecei a ver os anos a passarem, pensei que a partir daí era sempre ganho. Não me sinto angustiado com a ideia da morte. Mas há certas coisas que sinto que já não vou ter tempo para fazer”.

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