Uma confusão nunca vem só, um tema que faz mexer todo o futebol tem sempre um complemento. Neste caso, de forma paralela – mas um complemento. E, numa altura em que se discute a investigação aberta pela Polícia Judiciária na sequência de uma queixa com suspeitas de corrupção na nomeação de árbitros em jogos da Primeira Liga de futebol, relatando ao longo de 20 páginas factos ocorridos entre abril e junho deste ano, agora há uma nova polémica em cima da mesa, neste caso envolvendo Pedro Proença, líder da FPF.
Ao longo da tarde, foram começando a ser colocados a circular na internet alguns áudios de conversas de Proença com pessoas não identificadas sobre questões de arbitragem e disciplina. As conversas terão sido gravadas há cerca de dois anos, quando Proença era presidente da Liga de Clubes e estaria em campanha junto dos clubes tendo em vista o sufrágio para a liderança da Federação Portuguesa de Futebol, falando não apenas nesses temas mas também do programa eleitoral que iria levar a sufrágio em fevereiro de 2025. Nos três pequenos excertos, que já se “propagaram” na rede X, o líder lança críticas em vários sentidos.
Num desses áudios, é possível ouvir Proença admitir que o nível de arbitragem nacional é fraco, ao contrário do que tem defendido em termos públicos nos últimos meses. “Os árbitros são fracos, são todos muito fracos. Tu consegues ter três ou quatro gajos minimamente competentes. O Artur [Soares Dias], o [João] Pinheiro, depois metes o tipo do Algarve [n.d.r. Nuno Almeida], e depois metes ali o [Luís] Godinho ou uma coisa qualquer assim… O resto é tudo muito fraco”, argumentou o então presidente da Liga de Clubes.
Divulgados áudios de Pedro Proença como presidente da Liga há dois anos em que por exemplo considerava quase todos os árbitros portugueses fracos exceto "três, quatro gajos minimamente competentes".
Recorde-se que Proença tem elogiado publicamente a arbitragem. pic.twitter.com/w6kdxXHkAS
— Cabine Desportiva (@CabineSport) July 28, 2026
Numa segunda conversa que acabou por ser partilhada de forma anónima nas redes sociais, Proença fala de José Fontelas Gomes, antigo presidente do Conselho de Arbitragem no último mandato de Fernando Gomes na liderança da Federação que assumiu o cargo de vice-presidente nas eleições em que Pedro Proença venceu Nuno Lobo, o outro candidato. “Aquilo é um produto do Pedro [Proença]. A determinada altura, o [Tiago] Craveiro obrigou a que o gajo fingisse alguma guerra comigo. O Zé [Fontelas Gomes], é o que é. Não estejas à espera do Zé [Fontelas Gomes]… Um gajo competentíssimo como eu, porque o Zé [Fontelas Gomes] tem o 12.º ano, pá, é um gajo que nasceu no bairro da lata, pensa só no futebol”, diz, citado pelo Record.
Por fim, no terceiro excerto que circulou nas redes sociais, onde é possível ouvir o nome Seara que deveria referir-se a Fernando Seara, então presidente da Mesa da Assembleia Geral do Benfica. “Queres jogar esse jogo comigo? Das 32 vezes em que fui chamado à Polícia Judiciária, 27 foram processos do Benfica. Sabes onde é que se faz a instrução dos processos? A instrução dos processos é na Liga. Queres jogar esse jogo comigo, Seara? Não brinques comigo”, refere Pedro Proença nesse terceiro áudio.
Uma gravação de uma reunião do Benfica da altura em que o Fernando Seara ainda andava lá e o Pedro Proença ainda estava na liderança da Liga. ????
O último áudio é o mais interessante de todos, retrata de forma cristalina rigorosamente tudo o que se passa nos bastidores do nosso… pic.twitter.com/19taatv6AD
— McQueeИ Infos ???? (@McQueenInfos) July 28, 2026
Para já, todas as partes envolvidas recusam fazer qualquer comentário sobre o assunto. A Federação não irá promover qualquer reação tendo em conta tratar-se de gravações ilegais de conversas privadas, ao passo que a Liga de Clubes recuperou aquilo que tinha escrito há quase um mês, quando emitiu um comunicado onde solicitava “em ofício enviado ao presidente da FPF, Pedro Proença, esclarecimentos adicionais” sobre “um conjunto de incidências relacionadas com o setor da arbitragem” de que teve conhecimento não só através da comunicação social mas também pela posição pública da FPF. Fernando Seara, que entretanto deixou a Mesa dos encarnados, teve a mesma posição, declinando comentar os áudios em causa.
“Iniciou-se a queda dos últimos Moicanos… Moicanos: uma organização ‘secreta’ liderada pelo atual presidente da FPF, na altura árbitro, onde era tudo discutido e decidido com a APAF. Greves, boicotar cursos de arbitragem, profissionalismo à medida do ‘chefe’, tabelas de prémio, etc. O grupo era constituído só por árbitros internacionais onde tive a infelicidade de participar algumas vezes, o suficiente para não aceitar fazer parte das ‘seitas’ para promover o ego do líder e dos seus eternos seguidores”, escreveu depois nas redes sociais Marco Ferreira, antigo árbitro da Associação de Futebol da Madeira de 49 anos já retirado.
EX-ÁRBITRO Marco Ferreira "atira-se" contra Pedro Proença: pic.twitter.com/rAB0gM4XxJ
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“Justiça seja feita, alguns internacionais na altura recusaram fazer parte de uma ‘organização’ cujo objetivo nunca foi defender a arbitragem nem o futebol português. Os eternos seguidores tiveram a sua recompensa com cargos na FPF… Desde diretor técnico da arbitragem, assessores da arbitragem e Conselho de Arbitragem. Aqueles que se opunham aos ‘arranjinhos’ e bateram com a porta dos ‘Moicanos’ simplesmente foram afastados da arbitragem e da FPF. Tic tac tic tac, está na hora de acabar com esta palhaçada toda”, acrescentou Marco Ferreira na mesma publicação, que remetia para uma notícia dos áudios.
“A cada dia que passa, estou cada vez mais orgulhoso do caminho que percorri contra o sistema que está instalado no futebol português!”, escreveu também Nuno Lobo, antigo presidente da Associação de Futebol de Lisboa e candidato derrotado nas últimas eleições da Federação Portuguesa de Futebol, nas redes sociais.
“A Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) tomou conhecimento, com surpresa e preocupação, dos áudios divulgados publicamente, nos quais são atribuídas ao atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol declarações depreciativas sobre a qualidade dos árbitros do futebol profissional. A APAF condena de forma inequívoca este tipo de discurso que coloca em causa a competência, a credibilidade e a dignidade de uma classe que trabalha diariamente com enorme profissionalismo. Os árbitros portugueses têm demonstrado, ao longo dos anos, uma capacidade amplamente reconhecida pelas nomeações para as principais provas internacionais, de seleções e de clubes”, comentou também a APAF em comunicado.
“A APAF espera que o atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol esclareça de forma clara o contexto, o conteúdo e o motivo das declarações atrás referidas, relativas aos árbitros portugueses, proferidas quando ocupava outro importante cargo no futebol em Portugal. A defesa da honra, da credibilidade e da dignidade da arbitragem portuguesa é um dever da APAF, mas também é uma responsabilidade de todas as instituições do futebol e, principalmente, de todos os seus dirigentes. Os árbitros continuarão a desempenhar a sua missão com independência, rigor, competência e dedicação, mas exigem respeito por tudo aquilo que têm feito em benefício do prestígio do futebol português”, acrescentou o órgão.