A tragédia em Urda (Toledo) poderá levar a uma alteração da regulamentação sobre a marcha dos comboios no sistema de alta velocidade espanhol em caso de falhas no sistema de sinalização LZB, reduzindo a circulação para 40 kms/h com uma ‘marcha à vista’, num sistema alternativo, até que haja sinal de confirmação de segurança. A proposta vem da operadora italiana Iryo — que já tinha estado ligada ao acidente ferroviário em Adamuz (Córdoba), em janeiro passado — e dos próprios maquinistas, avança este sábado o jornal El Mundo.

Com vista à implementação de protocolos de comunicação mais rigorosos e um reforço da segurança, operadores e maquinistas estão a colocar pressão sobre a empresa Adif, responsável pela manutenção da infraestrutura e pela gestão da circulação no sistema de alta velocidade. No espaço de nove meses, os desastres em Córdoba e Toledo saldaram-se em pelo menos 115 mortes e mais de 500 feridos.

As falhas no sistema de sinalização LZB em Toledo, na linha Madrid-Sevilha, que terão estado na origem do acidente que fez 69 mortos, motivaram a Iryo a traçar um plano de resposta. Quando um comboio ficar imobilizado devido a uma falha do LZB e receber instruções do centro de controlo para retomar a marcha, os maquinistas deveriam assumir obrigatoriamente o sistema alternativo ASFA para circularem de forma mais lenta, para que possa ser possível parar o comboio sem riscos para os passageiros.

Só perante a confirmação de segurança no próximo sinal informativo é que o comboio poderia recuperar a marcha normal. Com a circulação com o sistema ASFA, os troços separados por sinais de informação são mais pequenos do que com o sistema LZB.

Uma “falha de energia” no sistema LZB (sigla da palavra alemã ‘Linienzugbeeinflussung’) — que atua como mecanismo de proteção dos comboios de alta velocidade que ultrapassam os 160 kms/h — afetou uma área de quase 70 quilómetros. O Centro de Regulação e Controlo de Atocha deu instruções para o maquinista reiniciar o comboio e retomar a viagem à velocidade normal, embora 25 quilómetros mais à frente estivesse outro comboio parado e que não conseguia arrancar, com 147 passageiros a bordo. O resultado? Um choque a cerca de 160 kms/h.

A Iryo já comunicou o seu plano aos maquinistas e, de acordo com as informações adiantadas pelo El Mundo, tenciona fazer o mesmo em relação à Ouigo, um dos concorrentes na operação nas linhas de alta velocidade.

“Com base nas informações recebidas, parece que os fenómenos de desconexão são, na sua quase totalidade, pontuais, com o restabelecimento da ligação em curtos períodos de tempo e em áreas restritas. Os fenómenos de desconexão generalizados e prolongados, como o que ocorreu durante o acidente, são bastante raros. Por conseguinte, o impacto na implementação da alteração regulamentar proposta poderá ser sustentável até que sejam tomadas medidas tecnológicas de mitigação”, lê-se na proposta da Iryo citada pelo jornal espanhol.

Os maquinistas do sindicato Semaf confirmaram a receção da proposta da operadora italiana e mostraram-se interessados “em todas as medidas que aumentem a segurança” dos comboios nas linhas de alta velocidade, sem excluir a apresentação de propostas próprias à Agência Estatal de Segurança Ferroviária (AESF).