Tinha um irmão mais velho também jogador de futebol, era central, fintou-o em tudo. Fintou-o logo à cabeça no clube, quando não se resignou com a nega que lhe deram nos treinos de captação do Inter e acabou por rumar ao AC Milan. Fintou-o porque, quando todos achavam que seria o Baresi 2 do futebol transalpino, fez de Giuseppe o “outro Baresi”. Mas isso era normal em alguém que nasceu para ser melhor do que os outros e resistir a tudo e a todos como poucas vezes se viu no desporto. Aquele miúdo franzino a quem chamavam Piscinin cresceu e chegou ao patamar de Kaiser Franz, em referência a Franz Beckenbauer. Agora, aos 66 anos, o adversário que combatia desde o ano passado acabou por ser maior. Morreu Franco Baresi.

Formado no AC Milan, único clube que representou ao longo de toda a carreira (e rival do Inter, onde estava o irmão mais velho Giuseppe), Baresi teve o seu primeiro contacto como “observador” do futebol só aos dez anos, altura em que assistiu pela primeira vez na TV a um jogo na quinta nos arredores de uma pequena cidade no norte, Travagliato, mas não demorou a tornar-se uma enciclopédia da modalidade, começando como médio e recuando depois até à defesa onde foi não só central mas também líbero, essa figura que caiu em desuso com a evolução do jogo mas que estava apenas reservada aos melhores – como Baresi.

Estreou-se com apenas 17 anos na equipa principal, na temporada de 1977/78, e tornou-se uma referência ímpar na história do AC Milan, capitaneando vários dérbis com o Inter tendo do outro lado também como capitão o irmão. Viveu de tudo um pouco ao longo de mais de 700 encontros oficiais pelos rossoneri, dos quais 532 entre Serie A e B, da descida de divisão na sequência do caso Totonero às conquistas europeias. Foi seis vezes campeão da Primeira Liga, venceu duas vezes a Segunda Liga, conseguiu três Taças dos Clubes Campeões Europeus, juntou a isso ainda mais duas Supertaças Europeias, outras tantas Taças Intercontinentais e quatro Supertaças italianas. Despediu-se em 1996/97, com 37 anos.

Também pela seleção italiana essa ligação foi extensa e profícua, “experimentando” todos os lugares do pódio nos três Mundiais que realizou: sagrou-se campeão em 1982, apesar de não ter feito qualquer encontro na competição que foi organizada em Espanha, ficou depois na terceira posição em 1990 após perder nas grandes penalidades com a Argentina no torneio organizado em “casa” e foi segundo em 1994, quando deu mais um exemplo de excelência a tudo e a todos ao lesionar-se na segunda partida da fase de grupos, ser sujeito a uma intervenção cirúrgica no menisco e recuperar em cerca de 20 dias a tempo de ser um dos melhores na final diante do Brasil, que acabaria apenas por ser decidida nas grandes penalidades (com Baresi a falhar logo a primeira tentativa). Apenas sete jogadores na história conseguiram esse feito.

“A história do AC Milan chora pela partida de Franco Baresi. O seu exemplo e dedicação serão, para sempre, como a sua camisola número 6, parte integrante e fundamental do ADN e do caminho de todo o clube. Em memória do Franco, permanecemos unidos, sabendo que ele nos guiará e impulsionará ao longo de toda a nossa jornada rossonera. Para sempre. Porque Baresi é eterno”, destacou o clube esta manhã sobre a lenda que, além das duas décadas como jogador, esteve também nas equipas técnicas das camadas jovens.

Franco Baresi tinha sido operado em agosto de 2025 para remover um nódulo pulmonar, tendo mais tarde surgido como uma das figuras que transportaram a tocha olímpica na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, entrando no “seu” San Siro com o antigo companheiro de seleção e rival do Inter, Giuseppe Bergomi. Acabou por não resistir a complicações sofridas por essa mesma doença pulmonar, com a notícia da morte a ser avançada esta manhã pelo próprio AC Milan.