Os guardas prisionais do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, em Alcoentre, vão continuar em greve até ao final de setembro, num braço de ferro com a tutela que já dura há cerca de cinco meses. A garantia foi dada à Rádio Observador pelo líder do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP), Frederico Morais, após a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) ter aceitado estender o acordo de serviços mínimos para uma greve iniciada a 10 de março e que terminaria esta segunda-feira.
O protesto é motivado pelas falhas de segurança expostas na fuga de cinco reclusos em setembro de 2024. Frederico Morais argumenta que, paradoxalmente, a greve tem sido o único garante de proteção para os profissionais: “Por incrível que pareça, conseguimos provar, através da greve, que se estivéssemos em greve no dia da fuga ela não acontecia.” Segundo o responsável, com as restrições impostas pela paralisação, os detidos passam mais tempo encerrados nas celas e saem apenas duas horas para o recreio com vigilância reforçada.
A dias de se assinalarem dois anos sobre a fuga, o sindicato denuncia o que considera serem atrasos “preocupantes” na modernização da cadeia. Frederico Morais reconhece que a limpeza dos terrenos envolventes e a reparação da vedação elétrica foram concluídas, mas lamenta que a instalação de redes nos pátios continue por fazer: “Em dois anos não se conseguiu fazer aquilo que foi considerado crucial [fazer] na altura da fuga.”
Vale de Judeus. Os momentos-chave da fuga da prisão vistos de cima
“É óbvio que o sindicato não pode permitir que voltemos ao que aconteceu no passado: guardas prisionais condenados por incompetência da parte da Direção-Geral e do Estado. Porque quem sofreu as consequências da fuga de Vale de Judeus — estamos em recursos para o tribunal, temos uma ação contra o Estado no tribunal — foram os guardas prisionais”, referiu ainda o responsável.
Frederico Morais diz que é difícil compreender as opções da tutela para a reinserção dos reclusos, lamentando a falta de aposta no trabalho.
Bastava o próprio senhor diretor do Desenvolvimento Prisional criar uma brigada, pôr os presos a trabalhar — que é isso que a gente defende. Trabalho digno, mas trabalho com que as pessoas sejam capazes de um dia, quando saírem para a sociedade, procurar uma profissão, um emprego, um trabalho. E não temos isso. Temos a insistência para haver aulas de futebol, de outras atividades, todas e mais algumas, que não têm nada a ver com a reinserção social. Enquanto isto não estiver concretizado, a greve vai continuar”, concluiu.