Numa aula sobre integridade e prevenção da corrupção numa escola secundária de Lisboa, o diretor da Polícia Judiciária (PJ) acabou esta quinta-feira a responder, perante o desinteresse pelo tema, que ao longo da carreira só matou na Playstation.

“Já joguei Playstation e já matei alguém na Playstation”, disse jocosamente Carlos Cabreiro, no auditório da Escola Secundária Padre António Vieira, em Lisboa, depois de, a custo, terem terminado os risos e aplausos gerados pela pergunta de um aluno que quisera saber se, ao longo da carreira, o dirigente matara alguém com a arma de serviço.

“Já usei da arma, mas, felizmente, não matei ninguém”, acrescentou, num tom mais sério, mesmo que, ressalvou, já tenha acontecido alguém da PJ ter “de abater um arguido ou um suspeito”.

A pergunta foi a última de uma aula para cerca de 200 jovens do secundário em que o diretor da PJ falou sobre integridade e prevenção da corrupção, mas em que acabou a ser questionado apenas sobre o porquê de ter ido para inspetor e sobre o acesso e a atividade da força policial.

Pelo meio ficou, ainda assim, um comentário, sem referência a qualquer caso específico, sobre como, apesar de “todas as razões” que existem para se seguir carreira na PJ, nem tudo ser perfeito no seio da instituição.

“Não temos só gente que cumpre, também temos situações em que nós próprios cometemos erros, em que temos de nos investigar a nós próprios”, frisou.

O desabafo surge numa altura em que está em curso uma auditoria interna, entre outras avaliações, à contratação de empresas e gestão de bens apreendidos pela instituição, nomeadamente no mandato do seu antecessor, Luís Neves.

O próprio Carlos Cabreiro é suspeito, na sequência de uma denúncia, de falsidade de testemunho e abuso de poder, relacionados com declarações prestadas em tribunal e alegadas escutas ilegais no processo Football Leaks, que culminou, em 2023, na condenação a pena suspensa do hacker autointitulado denunciante Rui Pinto.

Na palestra, Carlos Cabreiro apelou ainda por várias vezes aos adolescentes que distingam entre factos e opiniões e apontou alguém copiar nos testes ou pagar aos votantes para ganhar as eleições para a associação de estudantes como comportamentos que não são íntegros.

“É sempre importante saber dizer não. Não podemos deixar que, pelo facto de um, dois, três ou dez assumirem aquele comportamento errado”, esse comportamento seja considerado normal, salientou.

A iniciativa decorreu no âmbito dos Dias da Integridade e Anticorrupção, promovidos pelos ministérios da Educação e Justiça e pelo Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC), que começaram na quarta-feira e terminam na sexta-feira.