O retrato de quem recebe o subsídio de desemprego em Portugal mudou nos últimos dez anos. Entre 2015 e 2025, a composição das entradas no regime da prestação mudou e o peso dos trabalhadores com 50 ou mais anos aumentou de 21% para 26% no total de novos beneficiários desta prestação social. Ao mesmo tempo, o peso dos grupos dos mais jovens a receber o subsídio tem vindo a diminuir. As conclusões constam numa análise do Banco de Portugal.
Esta alteração etária fez com que a idade média dos beneficiários do subsídio de desemprego tenha aumentado de 38,9 para 40,6 anos nos últimos dez anos. Olhando apenas para o primeiro episódio de entrada de cada beneficiário no subsídio de desemeprego, a idade média aumenta menos na última década, de 37,9 para 38,5 anos. “Este resultado sugere que o envelhecimento do conjunto das entradas reflete, em parte, a acumulação de episódios de subsídio de desemprego ao longo do tempo”, justifica-se no relatório do estudo do Banco de Portugal.
As mulheres também ganharam mais peso do que os homens entre os beneficiários iniciais do subsídio de desemprego na última década. Eram 51,6% do total em 2015 e passaram a 53,4% em 2025.
O peso dos trabalhadores estrangeiros que começam a receber subsídio de desemprego subiu de 2,2% para 26,6% no mesmo período. O Banco de Portugal alerta que esta evolução em concreto tem de ser “interpretada à luz das alterações na composição do emprego por conta de outrem ao longo da última década, em particular do aumento significativo do peso dos trabalhadores estrangeiros no mercado de trabalho, que têm em média uma idade inferior à dos nacionais“.
Se o critério for o salarial, então quem mais entra no subsídio de desemprego é também quem menos recebia no trabalho que tinha antes. Em 2025, os trabalhadores que menos recebiam — até 880 euros — representaram 40% das entradas no subsídio de desemprego. Na última década aumentou o peso dos trabalhadores com salários baixos a beneficiar do subsídio de desemprego.
Maioria das pessoas que deixa de receber subsídio de desemprego volta a ter trabalho passado um mês
A análise do Banco de Portugal incidiu também sobre a rapidez e as condições em que os beneficiários do subsídio de desemprego regressam ao emprego após deixarem de receber a prestação social. “Na maioria dos casos, o regresso ao emprego ocorre pouco tempo após deixarem de receber o subsídio”, destaca-se no relatório.
Olhando para 2024, entre os beneficiários que deixaram de receber a prestação, cerca de 60% voltaram a ter uma relação laboral no prazo de um mês, sendo que os dados recolhidos no estudo não permitem identificar se o beneficiário esgotou o período de recebimento da prestação.
“Esta proximidade temporal sugere que, em muitos casos, o fim do episódio de recebimento resulta do regresso ao emprego antes de esgotada a duração potencial da prestação”, destaca o Banco de Portugal, notando que desde 2015 “aumentou de forma marcada o peso dos regressos até um mês após a saída do subsídio“.
Da perspetiva salarial, o regresso ao mercado laboral após receber subsídio de desemprego ainda significava em 2024 uma perda salarial para 40% dos trabalhadores. Há que notar que estes ganhos não eliminam a atualização do salário mínimo nacional, pelo que os 60% que veem o seu salário mais alto em relação ao trabalho que tinham pode estar relacionado com esta atualização automática. “Uma parte relevante dos casos com ganhos salariais esteve associada à atualização do salário mínimo nacional (cerca de 20% em 2015 e 30% em 2024)”, lê-se no relatório.
Destaca-se também a mobilidade entre setores, sendo que em 2014 metade dos beneficiários do subsídio de desemprego regressou ao emprego num setor diferente daquele em que trabalhava antes de estar na situação de desemprego. As mudanças ocorrem mais entre setores com salários mais baixos: atividades administrativas e de apoio, o alojamento e restauração, a indústria transformadora e o comércio.