“Capitão valente e imortal”. Uma única tarja, vários locais da cidade do Porto. Primeiro na ponte de D. Luís na última noite, depois no viaduto do Dragão durante o dia, por fim em plena bancada do Estádio do Dragão. Apesar de ter viajado a seguir ao almoço de Madrid para Riade, chegando à Arábia Saudita ainda a tempo de ver o encontro da Seleção diante da Noruega, Ronaldo voltou a ser a figura omnipresente da noite. Jorge Jesus falou, Pedro Proença falou, o jogador não – e é isso que deixa margem para vários cenários possíveis em relação aos próximos dias e à convocatória de Portugal para a próxima paragem, no mês de novembro.

Este era o jogo Dele mas ele mostrou que também é capaz (a crónica do Portugal-Noruega)

O presidente da Federação foi-se multiplicando em contactos para começar a preparar um contexto mais apropriado para inverter a saída abrupta de Ronaldo da Seleção. Objetivo? Criar uma espécie de “cimeira” entre o jogador e o selecionador, por forma a que tudo pudesse ser falado, explicado e encerrado antes de apontar para outro cenário diferente de saída para o melhor atleta português de todos os tempos. Problema? A viagem do número 7 para Riade, que foi antecipada por um dia face ao que estava previsto, numa altura em que o Al Nassr vai começar uma fase de maior densidade competitiva com encontros da Liga saudita e da Liga dos Campeões asiática de três em três dias… até à próxima paragem para as seleções. Mais: entre a FPF e a entourage de Ronaldo, é claro que em nenhuma parte fechou a porta a representar Portugal.

O jornal francês L’Équipe falou este domingo na possibilidade de haver um encontro de despedida que estaria a ser combinado com Ronaldo para promover outra saída da Seleção. Esse não deixa de ser um cenário em cima da mesa mas, nesta fase, não houve qualquer avanço ou sequer conversa nesse sentido. Por um lado, a ideia da Federação passa por abrir a porta ao capitão em qualquer cenário, seja para fazer os encontros oficiais, seja para disputar um último particular. Por outro, o próprio Ronaldo, que no dia em que abandonou a concentração em Copenhaga assegurou que iria contar a sua “verdade”, não tem ainda data para a tal posição pública sobre o tema nem sequer tomou qualquer decisão sobre os passos seguintes. Foi nesse contexto que, num primeiro passo, Jorge Jesus e Pedro Proença tomaram a iniciativa de abrir a porta.

“Não sei o que vai acontecer. Por mim, está tudo em aberto. O Cris é que tem de decidir a vida dele. Na próxima convocatória, se o Cris estiver a jogar e quiser estar na Seleção, porque não? Ressentimento? Nada, foi um mal-entendido. Na minha opinião é fácil resolver. Quando vou resolver? Não sei. O jogo acabou e só depois vamos saber como as coisas vão acontecer. Não falei com ele. Isto foi um caso que continua mal resolvido, criou-se aqui um problema que deu no que deu. O mais importante é que sou o selecionador de um país em que eu não mando. Eu faço parte de um todo e, se todos quiserem partilhar naquilo que seja o melhor para a Seleção, estou aberto a tudo. Mais triste do que é normal? Ele é que decide o que quer para a vida dele. Como foi antes da primeira convocatória, em que partilhámos, será na segunda. Não sou eu que vou decidir, nem posso. Não estou triste. Tive um ano a trabalhar com o Cris na Arábia Saudita, temos uma amizade muito grande profissionalmente. Só isso”, disse Jesus na zona mista da RTP e da SportTV.

“Não sei o que é que o Cris pode decidir. Para mim, no princípio, nunca foi um caso. Foi uma coisa que achava normal como treinador. Ter um jogador como símbolo que ele é para o país e para a Seleção… Há princípios como treinador que são inegociáveis mas como não houve nada de especial em termos do que é a minha autoridade. Para mim o Cris na próxima convocatória será, caso esteja a jogar no Al Nassr, um jogador convocável se ele quiser regressar à Seleção. Não pode cobrar, na minha opinião, uma amizade de um ano numa situação que não dá para entender. Só porque foi ele criou-se, e se calhar bem porque é um símbolo, este problema todo de entrar, aquecer, não entrar. Quantos hoje aqueceram e não entraram? Vai haver algum problema? Não. Com o Cris é diferente, é o símbolo. Mas é um problema? Para mim não foi problema. Se o Cris quiser e estiver a jogar no Al Nassr, na próxima convocatória vai estar dentro. Falámos antes desta convocatória e podemos falar antes da próxima. O Cris é que vai decidir”, frisou na conferência.

“Concordo completamente com o que o Bruno [Fernandes] disse, essa também era a minha ideia. Uma das coisas que disse ao Cris era que não podia acabar de jogar na Seleção no Campeonato do Mundo a perder e a chorar. Tinha de acabar na Seleção a jogar. Por isso é que foi jogar no primeiro jogo no Estádio de Alvalade, era para jogar hoje aqui. Face ao que aconteceu, tudo foi diferente. Eu sou selecionador, convoco quem quero. Não pergunto a ninguém quem quer, não pergunto quem vai jogar. Há vários momentos e princípios que são inegociáveis. Portanto, mais claro do que isto, sei lá, não posso ser…”, prosseguiu Jesus.

“Eu também partilhei ao longo de um ano tudo o que é o símbolo e a marca que é o jogador Cristiano, principalmente para as crianças. É uma referência mundial. Por isso é que depois do jogo disse que o Cris só não volta à Seleção se ele não quiser. A mim não se coloca. O tema que houve entre mim e ele foi precipitado. Houve muitas pessoas que se meteram no caso que fizeram com que isto parecesse um problema, quando não houve problema. Um treinador pôr um jogador a aquecer, e ele é diferente pelo estatuto, e não entrar deu este problema. Acham que é motivo para o símbolo que o Cris é acabar assim, de uma maneira para a outra? Ele sabe que vai acabar, isto não dura para sempre. Mas gostava que ele acabasse na Seleção como ele quer. Ele é que vai decidir. Foi assim que falámos. Na primeira convocatória eu disse-lhe ‘Preciso de ti’. Jogando ou não jogando, preciso de ti. E agora é a mesma coisa”, reforçou o técnico.

Só mesmo numa das últimas questões houve uma resposta que “quebrou” toda a tónica supracitada: a ideia de que tinha feito um pedido de desculpas na reunião que teve na véspera do caso com Ronaldo ou que podia fazer quando falasse com o capitão. “Desculpas? Não peço desculpas a ninguém. O problema que gerou isto tudo foi o jogador estar a aquecer. Ponho o ónus na decisão e naquilo que aconteceu. Mas pedir desculpa de quê? A quem? Isso é mentira. Desculpas? Qual era o tema para pedir desculpa?”, salientou.

Já Pedro Proença falou à RTP pouco depois, quebrando o silêncio pela primeira vez sobre o caso entre os elogios iniciais às quatro vitórias consecutivas que Portugal somou no arranque da Liga das Nações.

“Estou muitíssimo satisfeito neste novo ciclo. Um novo treinador, novas metodologias. Os resultados falam por si. São 14 dias de trabalho intenso, com 25 jogadores de eleição. Somos a primeira seleção europeia qualificada para os quartos de final e isso é o que me interessa elogiar. Aquilo que sentimos é que os portugueses voltaram a acreditar na nossa Seleção. É resultado da envolvência destes 25 jogadores, desta equipa técnica, do suporte da Federação que acredita no futebol português, nesta dinâmica de acreditar que Portugal tem tudo para ganhar. Este registo de todos os portugueses voltarem a acreditar na nossa Seleção era o que tínhamos prometido. E aconteceu em apenas 14 dias de trabalho, com esta equipa técnica, nova estrutura e novo staff, com estes jogadores. Quatro jogos, quatro vitórias, com equipas muito fortes. Neste momento somos a primeira apurada para os quartos de final”, começou por dizer o líder federativo.

“O que aconteceu entre Ronaldo e Jesus? Esse esclarecimento não vou dar porque são conversas normais entre treinador e jogadores. Essa é a área técnica e presidente da FPF não se envolve aí. É só o melhor jogador de todos os tempos. Tem dado mais de duas décadas ao futebol português. Cristiano Ronaldo é o símbolo maior da portugalidade. Temos de prestar a vénia a Cristiano Ronaldo. Está na Seleção Nacional por mérito desportivo próprio e isso é absolutamente inquestionável. Fará sempre parte deste grupo de trabalho sempre que tecnicamente estiver capaz. Cristiano sabe que é este o sentimento. Sobre o tema em concreto, deixe-me dizer que estamos perante um mal-entendido que tem de ser resolvido dentro de casa. Ontem [Sábado], os jogadores que estiveram na conferência mostraram esta relação umbilical com o nosso atual capitão. Faz parte da Seleção, é a nossa bandeira”, comentou, em consonância com Jorge Jesus.

“O mister diz que conta, assim ele esteja em condições físicas. Acontece assim com todos os jogadores. Cristiano Ronaldo é uma marca portuguesa, um jogador absolutamente extraordinário que podia ter acabado a carreira no Campeonato do Mundo e não o quis fazer pelo amor que tem pela sua Seleção. Sou testemunha desta relação que Cristiano tem com o povo português, com a nossa Seleção. Agora que acabaram estes quatro jogos, e era importante terminar com tranquilidade porque o tema desportivo era o que nos guiava, vamos ter todos tempo e tranquilidade para nos sentarmos e resolver um mal-entendido. Os mal-entendidos resolvem-se quando este triângulo que é a FPF, treinador e jogadores fazem parte deste processo. Ronaldo faz parte do nosso património e estará cá sempre que o mister assim o quiser”, destacou.

“Com certeza que a FPF não está a ser uma casa sem regras. Estas dinâmicas acontecem dentro do grupo de trabalho. A FPF resolve as situações na sua própria casa, volto a reiterar. Existe uma relação muitíssimo forte entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo. Se assim não fosse, se calhar Ronaldo já tinha abandonado a nossa Seleção. Não o faz por esta relação umbilical e respeito. Tudo o que vai acontecer nos próximos dias são momentos de tranquilidade, de conversa, de discussão e o que queremos é que em novembro possamos estar novamente todos com a nossa Seleção”, concluiu o líder federativo.