Foi numa conferência de imprensa que terá funcionado como gatilho para o abandono da concentração de Cristiano Ronaldo, foi na flash interview seguinte já no relvado que tentou quase minimizar os danos que já sabia estarem a acontecer, foi noutras conferências de imprensa que passou ao máximo ao lado do assunto – com essa garantia de que, quando acabasse o quarto e último encontro desta paragem para seleções, estaria mais à vontade para se pronunciar sobre o caso que marcou os últimos dias da Seleção (e do país). Se a análise ao jogo com a Noruega era sempre o propósito principal, as atenções estavam agora focadas noutro tema num dia em que, a seguir ao almoço, o avançado deixou Madrid no jato privado para rumar a Riade.
Este era o jogo Dele mas ele mostrou que também é capaz (a crónica do Portugal-Noruega)
“Até ao jogo que vem a seguir no Dragão tenho de estar focado no jogo. Depois, logo se vê o resto… Difícil de me focar? Difícil era se não soubesse o que se passa ali dentro. Tenho de focar-me é em treinar os jogadores. O importante é ganhar. É a vida de um treinador. A defesa de um treinador, sabe qual é? Esqueça todos os nomes, chama-se vitória. Arrependido? Não, zero. Há jogadores com estatuto, mas as regras são iguais para todos. Sempre pensei assim ao longo da minha carreira e vou continuar a pensar”, referiu depois da vitória de Portugal na Dinamarca, naquele que foi o melhor encontro coletivo desde que assumiu a Seleção.
“O foco tem que ser a Seleção, por tudo. Isso não quer dizer que posso ignorar o Cris, claro. O Cris é um símbolo da Seleção, de Portugal. Depois do jogo há muito tempo para se falar sobre isso. Vou-me focar na equipa, no adversário. Depois temos mais dois jogos, mas primeiro temos que carimbar a qualificação. Dias mais difíceis da carreira? O mais difícil na carreira de um treinador é resolver e quando não ganha arranjar formas para que a vitória esteja próxima. Por muito que possa dizer que a vitória na Dinamarca me encheu de orgulho… Também posso dizer que poderia estar mais feliz”, frisou antes do jogo com a Noruega.
Agora, na sequência do quarto triunfo de Portugal na Liga das Nações, Jorge Jesus abordou sem problemas a questão de Ronaldo quase “relativizando” tudo o que se passou e passando a “bola” para o jogador.
“Não sei o que vai acontecer. Por mim, está tudo em aberto. O Cris é que tem de decidir a vida dele. Na próxima convocatória, se o Cris estiver a jogar e quiser estar na Seleção, porque não? Ressentimento? Nada, foi um mal-entendido. Na minha opinião é fácil resolver. Quando vou resolver? Não sei. O jogo acabou e só depois vamos saber como as coisas vão acontecer”, começou por dizer o técnico na zona mista da RTP.
“Tudo o que projetámos em relação à nossa equipa, não preciso de dizer. Os resultados no Mundial estão aí. Tem o melhor ponta de lança do mundo atualmente. Tem Ödegaard, um dos melhores segundos avançados do mundo. A Noruega é uma equipa muito completa e fisicamente muito grande e potente. Só com muita qualidade de jogo técnica podes vencer esta equipa, de outra forma não tens hipótese de equilibrar. Ganhámos sem fazer um jogo como fizemos com a Dinamarca, mas o importante era ganhar e apurarmo-nos. São quatro jogos e quatro vitórias. É um percurso que quando comecei se calhar não pensei que podia ter, independentemente de acreditar muito nesta equipa. Há que esperar pelos últimos dois jogos na próxima convocatória”, prosseguiu Jorge Jesus ainda nessa primeira zona de entrevistas rápidas após o encontro.
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Pela primeira vez na história, a seleção portuguesa venceu os quatro primeiros jogos da UEFA Nations League. pic.twitter.com/HVQADBWjZS
— Playmaker (@playmaker_PT) October 4, 2026
“Não falei com ele [Cristiano Ronaldo]. Isto foi um caso que continua mal resolvido, criou-se aqui um problema que deu no que deu. Para mim, o mais importante é que sou o selecionador de um país em que eu não mando. Eu faço parte de um todo e, se todos quiserem partilhar naquilo que seja o melhor para a Seleção, estou aberto a tudo. Mais triste do que é normal? Ele é que decide o que quer para a vida dele. Como foi antes da primeira convocatória, em que partilhámos, será na segunda. Se ele estiver interessado… Não sou eu que vou decidir, nem posso. Não estou triste. Tive um ano a trabalhar com o Cris na Arábia Saudita, temos uma amizade muito grande profissionalmente. Só isso”, voltou a reforçar na flash interview da SportTV.
“Vitória com reviravolta? Temos uma qualidade de jogadores que, a qualquer momento, sacam uma ideia. O 1-1 foi criado a partir de um lançamento lateral, de lateral para lateral. Não foi estratégia do treinador, foram os jogadores que criaram uma situação, e isso só acontece quando há muito talento. A expulsão do Chico [Conceição] tirou-nos alguma nota artística. Íamos fazer o terceiro golo de certeza, a Noruega já estava toda partida e podíamos ter criado superioridade e sair com alguma facilidade, porque já não nos pressionavam tanto. Também senti a Noruega mais cansada do que nós na segunda parte. Fui mudando o meio-campo para a frente, eles não. Já não os senti tão frescos e poderosos”, acrescentou.
— Playmaker (@playmaker_PT) October 2, 2026
“Não sei o que é que o Cris pode decidir. Para mim, no princípio, nunca foi um caso. Foi uma coisa que achava normal como treinador. Ter um jogador como símbolo que ele é para o país e para a Seleção… Há princípios como treinador que são inegociáveis mas como não houve nada de especial em termos do que é a minha autoridade. Para mim o Cris na próxima convocatória será, caso esteja a jogar no Al Nassr, um jogador convocável se ele quiser regressar à Seleção. Não pode cobrar, na minha opinião, uma amizade de um ano numa situação que não dá para entender. Só porque foi ele criou-se, e se calhar bem porque é um símbolo, este problema todo de entrar, aquecer, não entrar. Quantos hoje aqueceram e não entraram? Vai haver algum problema? Não. Com o Cris é diferente, é o símbolo. Mas é um problema? Para mim não foi problema. Se o Cris quiser e estiver a jogar no Al Nassr, na próxima convocatória vai estar dentro. Falámos antes desta convocatória e podemos falar antes da próxima. O Cris é que vai decidir”, frisou na conferência.
“Concordo completamente com o que o Bruno [Fernandes] disse, essa também era a minha ideia. Uma das coisas que disse ao Cris era que não podia acabar de jogar na Seleção no Campeonato do Mundo a perder e a chorar. Tinha de acabar na Seleção a jogar. Por isso é que foi jogar no primeiro jogo no Estádio de Alvalade, era para jogar hoje aqui. Face ao que aconteceu, tudo foi diferente. Eu sou selecionador, convoco quem quero. Não pergunto a ninguém quem quer, não pergunto quem vai jogar. Há vários momentos e princípios que são inegociáveis. Portanto, mais claro do que isto, sei lá, não posso ser…”, prosseguiu Jesus.
Após a conferência de imprensa do Selecionador Nacional, e no seguimento de uma conversa com o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional.
A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses sobre as razões que… pic.twitter.com/j8Qrws9KTS
— Cristiano Ronaldo (@Cristiano) September 30, 2026
“Eu também partilhei ao longo de um ano tudo o que é o símbolo e a marca que é o jogador Cristiano, principalmente para as crianças. É uma referência mundial. Por isso é que depois do jogo disse que o Cris só não volta à Seleção se ele não quiser. A mim não se coloca. O tema que houve entre mim e ele foi precipitado. Houve muitas pessoas que se meteram no caso que fizeram com que isto parecesse um problema, que não houve problema. Um treinador pôr um jogador a aquecer, e ele é diferente pelo estatuto, e não entrar deu este problema. Acham que é motivo para o símbolo que o Cris é acabar assim, de uma maneira para a outra? Ele sabe que vai acabar, isto não dura para sempre. Mas gostava que ele acabasse na Seleção como ele quer. Ele é que vai decidir. Foi assim que falámos. Na primeira convocatória eu disse-lhe ‘Preciso de ti’. Jogando ou não jogando, preciso de ti. E agora é a mesma coisa”, reforçou o técnico.
Só mesmo numa das últimas questões houve uma resposta que “quebrou” toda a tónica supracitada: a ideia de que tinha feito um pedido de desculpas na reunião que teve na véspera do caso com Ronaldo ou que podia fazer quando falasse com o capitão. “Desculpas? Não peço desculpas a ninguém. O problema que gerou isto tudo foi o jogador estar a aquecer. Ponho o ónus na decisão e naquilo que aconteceu. Mas pedir desculpa de quê? A quem? Isso é mentira. Desculpas? Qual era o tema para pedir desculpa?”, salientou.