O presidente da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), José Machado, alertou esta quarta-feira para a crise democrática que se vive em Portugal e criticou os discursos extremistas e populistas.

“É inequívoco que uma das várias crises que testemunhamos em Portugal é, notoriamente, a crise democrática. Em certa medida, gera-se uma autêntica dicotomia, perante um país como o nosso, que através de uma revolução pacífica derrubou um regime autoritário e opressor e que está hoje, amargamente, se vê contaminado por forças partidárias extremistas que diariamente envenenam e manipulam a informação, em prol dos seus propósitos políticos”, afirmou José Machado.

No discurso na cerimónia de abertura solene das aulas do ano letivo 2026/27, que decorreu esta quarta-feira na Universidade de Coimbra (UC), o líder dos estudantes sustentou a sua posição com as dificuldades dos portugueses, frisando que, em 2024, estimava-se que cerca de 15,4% da população vivia no limiar da pobreza.

“A persistência e o agravamento deste cenário fragilizam significativamente todos aqueles que não sabem se o dinheiro chegará ao final do mês, empurrando-os para a constante narrativa dos discursos oportunistas e populistas que propagam pelo nosso quotidiano, virando portugueses contra portugueses”.

José Machado desafiou ainda que se faça uma “reflexão e ponderação em torno do estado da nação”.

No ensino superior, o presidente da AAC salientou que, esta quarta-feira, os desafios de um estudante multiplicam-se e que, “da habitação à ação social, da mobilidade à transição para o mercado de trabalho, o elevador social que outrora o ensino representava encontra-se hoje em estado paliativo”.

Sobre o novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, criticou o facto de os estudantes continuarem a “representar uma minoria nos órgãos de governo das universidades” e apelou à UC que reconheça o papel dessa comunidade no processo de revisão estatutária previsto pela nova lei que irá começar em breve.

“Apelo a que sejamos capazes de reconhecer conjuntamente o papel fundamental desempenhado pela comunidade estudantil, revendo nela a génese do próprio ensino, e que não nos limitemos a cumprir os mínimos em prol de interesses próprios. As soluções para os problemas dos estudantes começam, especialmente, neles próprios“, referiu.

José Machado defendeu que se olhe para a realidade da ação social no ensino superior “com lente crítica” e exija também respostas do Governo para a questão da saúde mental, notando que se estima que na UC “um psicólogo seja obrigado a dar resposta a milhares de estudantes”.

“A incapacidade de contratação de psicólogos reforça a necessidade de o Governo responder, com urgência, à crise na saúde mental. A ansiedade e a depressão não se podem tornar, consequência da nossa perplexidade, meras constantes das novas gerações”, argumentou.