O fim de semana que passou expôs uma tensão cada vez mais evidente, e crescente, entre os Presidentes dos Estados Unidos e da Ucrânia, Donald Trump e Volodymyr Zelensky. Com críticas duras de parte a parte, Trump chegou a “sugerir” que os ucranianos devem eleger um novo Presidente — recebendo por isso elogios da Rússia — e acabou a ameaçar cortar o acesso da Ucrânia a armas, para que o país não possa atacar refinarias russas.

O clima de tensão acentuou-se a partir do momento em que os Estados Unidos anunciaram que chegaram a acordo com a Rússia para que esta forneça “imediatamente” 300 mil toneladas de diesel aos EUA e aos mercados internacionais, para tentar reduzir o preço dos combustíveis — numa altura em que falta um mês para as eleições intercalares para o Congresso norte-americano.

Ora, logo após essa notícia, Zelensky expressou frustração com Trump, considerando que o Presidente dos Estados Unidos ofereceu uma espécie de “presente de aniversário” a Vladimir Putin — que fez anos esta semana — e que o acordo é uma notícia “terrível”, “injusta e desonesta”.

Trump não demorou a retaliar: este sábado, disparou contra Zelensky, sugerindo que Zelensky não tem feito o suficiente para pôr fim à guerra com a Rússia. “Sugiro que a Ucrânia encontre um novo líder que consiga fazer um acordo. Acho que é tempo de a Ucrânia encontrar outro Presidente”, atirou.

Depois, criticou a Ucrânia precisamente pelo efeito que os ataques do país contra refinarias russas estarão a ter no preço dos combustíveis: “Nós dissemos: podem fazer o que quiserem com a Rússia mas não atinjam as refinarias, porque isso é um problema mundial. E Zelensky quer arranjar problemas ao mundo. E o que ele fez foi atacar o combustível diesel. É melhor parar de uma vez”, concluiu.

O próprio Presidente ucraniano respondeu, assumindo em entrevista à ABC que se a Rússia der uma trégua de 60 dias organizará mesmo eleições presidenciais — o que tem rejeitado fazer em tempo de guerra. E, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrii Sybiha, o defendia nas redes sociais — “tem o apoio dos ucranianos, e eles têm o direito a decidir; declarações do estrangeiro só confirmam que está a fazer o seu trabalho” — a Rússia vinha celebrar o ataque de Trump.

O enviado russo para a cooperação económica com os EUA, Kirill Dmitriev, escreveu na rede social X que Trump se junta assim aos “muitos que acreditam que a Ucrânia precisa de uma liderança realmente focada na paz, e não do belicismo de Zelensky”. “Icónico e histórico”.

O cessar-fogo que foi “novidade” para Zelensky e a nova ameaça dos EUA

Já este domingo, novo capítulo: primeiro, o Presidente dos EUA anunciou na sua rede social, na Truth Social, que haveria um cessar-fogo “com efeitos imediatos” sobre infraestruturas energéticas entre Rússia e Ucrânia. “Efeitos imediatos. Há um cessar-fogo na energia na guerra entre Rússia e Ucrânia. Ambas as partes concordaram. Não o cessem!”.

Aparentemente, nem todas as partes estavam sequer a par disto, uma vez que de seguida Zelensky declarou à Axios: “É uma novidade para mim, mas se os russos aceitarem um cessar-fogo energético, a Ucrânia também aceitará”.

Passariam poucas horas até que Zelensky e Emmanuel Macron denunciassem ataques russos, desmentindo assim que exista uma disponibilidade do lado de Putin para um acordo. “Os russos atingiram uma central elétrica em Kiev […], mais tarde houve ataques contra infraestruturas energéticas na região de Kharkiv. E tudo isto aconteceu depois de o Presidente dos Estados Unidos ter feito a sua declaração sobre um cessar-fogo energético”, afirmou Zelensky numa mensagem publicada no Facebook.

O Presidente ucraniano veio ainda prometer que os ataques às refinarias russas cessarão se a Rússia parar com as investidas contra as infraestruturas de energia ucranianas.

“A verdadeira causa da guerra na Europa é a Rússia e só a Rússia. É possível parar os ataques a infraestruturas de energia hoje mesmo, mas Putin não o quer fazer. A Ucrânia está disponível para parar os ataques às refinarias russas se a Rússia parar os ataques às nossas infraestruturas de energia”, disse Zelensky, assegurando: “Qualquer passo tem de ser recíproco e com garantias reais”.

E Macron colocou-se ao lado de Zelensky: França “apoia integralmente o apelo para uma trégua energética genuína, à qual a Ucrânia está disposta”, afirmou o Presidente francês na rede social X. Depois, acrescentou: “Neste momento, a Rússia continua a rejeitá-lo, intensificando os seus ataques contra as infraestruturas ucranianas nas últimas horas”. Na Comissão Europeia, Ursula von der Leyen reafirmou o apoio à Ucrânia e acrescentou que esta semana a União Europeia vai dar novo financiamento para drones e mísseis à Ucrânia.

Já na noite deste domingo, mais um passo na escalada de tensão da parte dos Estados Unidos em relação à Ucrânia: o Financial Times veio noticiar que Donald Trump estará a ameaçar bloquear o fornecimento de armas à Ucrânia por causa dos ataques que o país fez a refinarias russas, defendendo que o país de Zelensky — que ainda não reagiu à notícia publicamente — não deve atacar a Rússia. Durante o fim de semana, foi criticado por senadores norte-americanos, que apelam a que mude o rumo da relação com a Rússia.