Foi a 10 de setembro, há bem mais de um mês. Matheus Cunha, Bruno Fernandes, Benjamin Sesko e Lisandro Martínez marcaram todos e o Manchester United goleou o Sabah, estreando-se na Liga dos Campeões da melhor maneira. O que nenhum deles sabia, porém, era que essa seria a última vitória durante muito tempo — e o início de um ciclo que já se tornou o novo normal na história recente do clube inglês.

Desde a goleada contra o Sabah, o Manchester United somou três derrotas e três empates, um registo que teve como consequência a eliminação da Taça da Liga e o pior arranque na Premier League nos últimos 40 anos. Esta quarta-feira, dias depois de uma nova igualdade contra o Leeds e uma semana depois do desaire com o Atl. Madrid, os red devils voltavam à Liga dos Campeões à procura de um balão de oxigénio e com a mesma pergunta a pairar no ar: como é que Michael Carrick continua a ter trabalho?

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A questão torna-se ainda mais premente depois de, nas últimas horas, Erik ten Hag ter dado uma das primeiras entrevistas sobre o tempo que passou em Old Trafford — abordando diretamente os problemas com Cristiano Ronaldo, a falta de apoio interno que sentiu desde muito cedo e a “cultura tóxica” que diz existir no clube. Para Carrick, porém, as declarações do treinador neerlandês não fazem sentido. Até porque, garante, não precisa de que ninguém lhe demonstre apoio.

“Não preciso de garantia nenhuma. É bastante claro. Sei o meu papel e sei quais são as minhas responsabilidades, não preciso de que ninguém me diga quando as coisas estão a correr bem ou quando as coisas precisam de melhorar. Eu próprio sei disso. Reconheço a realidade e não tenho nenhum problema com isso. É mesmo muito claro e não há muito mais que possa dizer sobre isso. Temos de ganhar jogos para que as coisas aconteçam como têm de acontecer e isso é algo que nós próprios podemos mudar. A parte boa é essa, podemos fazer algo quanto a isso. Tenho uma grande relação com toda a gente no clube e não há questões nem problemas, de parte a parte”, sublinhou o inglês, que parece continuar a circular entre os pingos da chuva numa altura em que até Lisandro Martínez decidiu criticar publicamente a estrutura.

Era neste contexto que, esta quarta-feira, o Manchester United visitava o Como em Itália. Michael Carrick lançava Mason Mount, Bruno Fernandes e Matheus Cunha no apoio a Bryan Mbeumo, com Tielemans e Andrey Santos no meio-campo e Diogo Dalot na direita da defesa. Matthijs de Ligt aparecia ao lado de Harry Maguire no eixo defensivo, na ausência do lesionado Lisandro Martínez, e regressava aos relvados depois de quase um ano afastado por lesão. Do outro lado, numa equipa de Cesc Fàbregas que tinha vencido um jogo e perdido outro na Liga dos Campeões e está em 5.º na Serie A, Tasos Douvikas era a referência ofensiva, com Lucas da Cunha, Martin Baturina e o crónico Nico Paz nas costas.

O Manchester United até começou aparentemente melhor, com Diogo Dalot a desperdiçar uma boa oportunidade com um remate na área que passou ao lado (2′), mas o Como não demorou a deixar claro as intenções que tinha: logo a seguir à ocasião do lateral português, Nico Paz recebeu de Lucas da Cunha à entrada da grande área, enquadrou-se e atirou em jeito para abrir o marcador (2′). 

Os italianos acabaram por controlar toda a primeira parte, gerindo a posse de bola com muita tranquilidade e com as linhas subidas, aproveitando o facto de os ingleses nem sequer conseguirem propriamente explorar a profundidade. Harry Maguire e Matheus Cunha protagonizaram os únicos esboços ofensivos da equipa de Michael Carrick, com um cabeceamento ao lado (17′) e um remate que também falhou o alvo (45′), enquanto que Tasos Douvikas (39′) e Martin Baturina (43′) ainda ficaram perto de aumentar a vantagem, ambos com pontapés à baliza que Senne Lammens defendeu. Ao intervalo, sem qualquer remate enquadrado, o Manchester United estava a perder com o Como em Itália.

Carrick mexeu logo no início da segunda parte, trocando Matheus Cunha e Andrey Santos por Amad Diallo e Carlos Baleba, mas o Como aplicou a mesma receita do primeiro tempo: logo nos instantes iniciais, numa transição rápida brutal, Nico Paz recebeu no corredor central, soltou Tasos Douvikas com um passe vertical e o avançado grego, à saída de Senne Lammens, atirou certeiro para aumentar a vantagem (49′). Menos de 10 minutos depois, o pesadelo do Manchester United tornou-se ainda pior. Nico Paz roubou a bola a Baleba, arrancou sem oposição pela direita e atirou cruzado já na área para bisar (57′).

Cesc Fàbregas fez as primeiras substituições pouco depois, trocando Baturina por Maxence Caqueret antes de também lançar Kaiki Bruno no lugar de Lucas da Cunha, e Carrick chamou Joshua Zirkzee para render… Bruno Fernandes, que saiu claramente desagradado com a alteração. O jogo ficou aparentemente mais equilibrado, com os ingleses a somarem remates não enquadrados e os italianos a gerirem a vantagem, mas a goleada acabou mesmo por aparecer por intermédio de Jacobo Román, que cabeceou na área após cruzamento na esquerda na sequência de mais uma transição letal (76′).

Nico Paz ainda saiu à beira dos últimos dez minutos para a ovação, Zirkzee ainda reduziu nos descontos (90+1′) e o Como goleou mesmo o Manchester United em Itália. Com sete jogos sem ganhar, entre quatro derrotas e três empates e uma clara humilhação às mãos de Cesc Fàbregas, Michael Carrick dificilmente vai escapar a uma máxima que costuma ecoar nos estádios de Inglaterra quando algo corre terrivelmente mal: he’s getting sacked in the morning, vai ser despedido na próxima manhã.