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Manifestantes juntaram-se no Bairro do Condado, em Marvila, contra a retirada da mulher de casa
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▲Manifestantes juntaram-se no Bairro do Condado, em Marvila, contra a retirada da mulher de casa

Inês Lacerda

▲Manifestantes juntaram-se no Bairro do Condado, em Marvila, contra a retirada da mulher de casa

Inês Lacerda

Viúva diz que foi despejada da casa onde vivia com os filhos menores após morte do companheiro. Gebalis garante que nunca lá morou

Viuva diz que viveu com o companheiro e filhos na habitação municipal desde 2021 até ao despejo. Gebalis garante que esta nunca integrou o agregado nem lá residiu e que o tribunal deu razão à empresa.

Depois de seis noites de protesto no Rossio, o movimento Acampada de Lisboa decidiu deslocar a ação desta sexta-feira para o Bairro do Condado, em Marvila. O motivo? O despejo de uma viúva e dos seus dois filhos menores de uma casa municipal. A jovem, de 26 anos, alega que vivia ali com o companheiro e a avó deste, a arrendatária. Garante que, quando ambos morreram, tentou regularizar a situação para poder permanecer no andar. A Gebalis — Gestão dos Bairros Municipais assegura, porém, que a mulher “nunca integrou o agregado [familiar], nunca residiu na habitação, nem nunca fez prova desses factos”. Mais: afirma que um idoso de 84 anos, companheiro da arrendatária que morreu e que vivia na casa, foi “coagido” a sair.

O caso remonta ao dia 30 de julho deste ano. Em entrevista ao Correio da Manhã, a mulher disse que nesse dia, ao regressar a casa depois de levar os filhos à escola, encontrou funcionários da Gebalis acompanhados pela polícia, que a informaram de que tinha de sair da habitação municipal. A casa está, desde então, desabitada, confirmou esta quinta-feira numa conferência de imprensa o presidente do Conselho de Administração da empresa que gere os imóveis do município de Lisboa. Foi aí que, pela primeira vez, foi divulgado que um idoso teria sido “obrigado” a retirar-se da casa — e que a Gebalis seria alheia a esse afastamento.

Viúva garante que começou a morar na casa em 2021 e que tentou regularizar a situação após a morte do companheiro

A assembleia do movimento Acampada de Lisboa de quinta-feira, na praça D. Pedro IV, no Rossio, trouxe de volta atenção ao caso da viúva. Durante esse momento, no qual têm sido discutidas e votadas propostas pelos manifestantes, Andreia Galvão, deputada substituta do Bloco de Esquerda, pegou no microfone para expor o seu ponto de vista sobre o problema da habitação e deixou um apelo para que, esta sexta-feira, os manifestantes se deslocassem ao Bairro do Condado, pelas 18h00, “para impedir o despejo de uma viúva”. A medida acabou por ser aprovada.

▲ Os manifestantes juntaram-se esta sexta-feira no Bairro do Condado para protestar contra a saída da mulher de casa

Inês Lacerda

O tema voltou a ganhar destaque, com notícias de que a casa de onde a mulher teria sido retirada continuava desabitada. Esta sexta-feira, em declarações ao Correio da Manhã, Marta Almeida detalhou o caso: contou que a situação se precipitou após a morte do companheiro e da avó deste, arrendatária da habitação gerida pela Gebalis. “Em 2024 dá-se o falecimento do meu marido. Passados alguns meses, falece a avó [dele]. Nós, eu e o meu sogro, que entretanto faleceu este ano, tentámos ir à Gebalis regularizar a situação, isto em 2024”, explicou.

À sexta noite, não houve acampada nem “aconchada” no Rossio. “Recuperar forças” é a estratégia para enfrentar “maratona” de protestos

A mulher afirmou que começou a viver na casa sob gestão da Gebalis em 2021, depois de ter ficado grávida. “Juntámo-nos e, visto que a avó estava sozinha em casa, fazia sentido ficarmos perto dela”, disse. Depois da morte da idosa e do neto tentou com ajuda do sogro regularizar a situação. Na altura, os filhos tinham quatro e dois anos. “Pedimos a documentação, entregámos a documentação que pediram para mais tarde nos dizerem que não era elegível”.

Quando chegou a primeira ordem de despejo, Marta Almeida avançou com uma providência cautelar e depois com uma segunda. “No dia 30, chego a casa depois de ir deixar os meus filhos à escola e tenho a casa cheia de um equipamento policial enorme. Tenho os senhores da Gebalis. Quando subo ao elevador já tenho a minha porta aberta”, recordou na entrevista. “É mais complicado para os meninos do que para mim. Eles já perderam tanto. Eu não queria que eles perdessem mais”, lamentou.

O tema chegou a ser abordado em setembro numa reunião da Assembleia Municipal de Lisboa, depois de ter sido denunciado pela vereação do PCP na câmara. Na altura, o vereador da Habitação disse não ser possível reverter o processo de despejo. Vasco Moreira Rato, independente eleito pelo PSD, indicou que a ação resultou de uma decisão do tribunal.

O vereador acrescentou que se a munícipe tivesse concorrido ao Programa de Arrendamento Apoiado, teria à sua frente 2.800 famílias. “São 2.800 famílias que estão a precisar de casa e fazer esta exceção implicaria retirar uma casa a uma destas famílias”, afirmou. Sublinhou que “ninguém fica contente por despejar pessoas”, mas alertou que não devem contar com o executivo para “incumprir sentenças de tribunal”.

"No dia 30, chego a casa depois de ir deixar os meus filhos à escola e tenho a casa cheia de um equipamento policial enorme. Tenho os senhores da Gebalis".
Marta Almeida

Numa nova reunião na semana seguinte, o porta-voz da Comissão de Moradores e Utentes de Marvila (COMUM) usou o período de intervenção aberto ao público para revelar que a jovem continuou a pagar a renda à Gebalis, que aceitou os pagamentos. A empresa municipal confirmou essa informação esta sexta-feira, afirmando que seria feito o acerto de contas necessário.

João Albuquerque disse ainda nessa assembleia que a jovem procurou regularizar o contrato, solicitando a inclusão na ficha de moradores. Acrescentou que, em dezembro de 2025, a mulher foi informada de que os elementos apresentados, incluindo um comprovativo emitido pela junta de freguesia a atestar a sua residência na casa municipal, não eram suficientes e que deveria abandonar o imóvel. Alegou também que a Santa Casa da Misericórdia propôs à jovem ir para um centro de refugiados, algo que a instituição negou. A SCML garantiu à Lusa que não fez essa proposta, uma vez que o agregado não reúne os critérios para tal, e que a mulher “manifestou não pretender recorrer a uma solução habitacional de emergência”.

Paulo Almeida, o pai da jovem, foi também ouvido nessa reunião. Criticou o facto de a filha ter sido retirada numa ação que contou com a presença de 12 polícias, algo que descreveu como um “abuso”. Já em declarações à Lusa, acrescentou que Marta e os filhos estão a viver com ele num T3 que agora alberga oito pessoas. “Ela não é mais uma, não é 2.801. Ela tinha casa, não assaltou a casa de ninguém. Foi posta na rua, é diferente”, destacou.

Presidente da Gebalis diz que viúva despejada de Marvila nunca foi titular de contrato municipal

Esta quinta-feira, perante a dimensão que o caso voltou a ganhar, a Gebalis convocou uma conferência de imprensa na sua sede para as 15h para prestar esclarecimentos sobre o caso. “A notícia está assente num erro grosseiro”, começou por dizer o presidente do Conselho de Administração. “Quem foi ilegalmente impedido de ter acesso à casa foi um idoso de 84 anos”, afirmou, numa versão dos acontecimentos que não tinha sido apresentada até ao momento. Fernando Angleu explicou que o homem era companheiro da arrendatária da casa e o terceiro elemento do agregado familiar autorizado a residir ali.

Foi a primeira vez que a empresa municipal mencionou a existência de um terceiro elemento do agregado. Em julho, a Gebalis tinha apenas mencionado que na casa viviam a idosa e o neto e que ambos tinham morrido. Questionado esta quinta-feira sobre o facto de até agora não ter sido revelado o caso do idoso, Fernando Angleu indicou que, para a empresa, este assunto “estava resolvido”.

Gebalis

Segundo o presidente da gestora da habitação municipal, depois da morte da idosa, legalmente, o companheiro da arrendatária seria o “detentor do direito àquela habitação”. Angleu revelou ainda que o idoso apresentou entretanto queixa-crime às autoridades por uma alegada coação para abandonar, ele sim, o imóvel. “Um senhor de 84 anos foi obrigado a sair da sua casa e não foi pela Gebalis”, vincou. Fernando Angleu recusou adiantar aos jornalistas quem foi o responsável pela expulsão do idoso: “Isso está na queixa-crime. Temos o processo junto das forças de segurança e, como devem calcular, também não vamos estar a falar nisso”. O homem está a viver com familiares até que lhe seja atribuída uma habitação mais pequena, tendo em conta a diminuição do agregado.

Sobre a decisão de retirar Marta Almeida da casa, Fernando Angleu disse que a viúva “nunca integrou o agregado, nunca residiu na habitação, nem nunca fez prova desses factos”. “A desocupação não incidiu sobre um elemento autorizado, mas sobre os ocupantes não autorizados. O que configura uma ocupação ilegal”, sublinhou.

"A desocupação não incidiu sobre um elemento autorizado, mas sobre os ocupantes não autorizados. O que configura uma ocupação ilegal".
Fernando Angleu, presidente da Gebalis

O presidente da empresa indicou que Marta Almeida intentou duas providências cautelares para impedir a execução da desocupação, “ambas decididas favoravelmente à Gebalis”. O Tribunal indeferiu o primeiro pedido, decisão que o Tribunal Central Administrativo Sul manteve depois de recurso. Na segunda ação, o tribunal absolveu as entidades requeridas. A decisão foi confirmada numa instância superior depois de um novo recurso da viúva.

“A atuação da GEBALIS no presente caso não teve como destinatária uma arrendatária municipal, nem visou a desocupação de uma pessoa idosa que coabitava legitimamente com a titular do contrato de arrendamento”, concluiu Fernando Angleu.

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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