A polícia espanhola encontrou mais uma pista que aponta para um possível envolvimento das autoridades marroquinas na crise migratória que se desencadeou em Ceuta, no final de julho. Recorrendo aos 73 vídeos recolhidos durante aqueles dias na zona da fronteira, a polícia encontrou em cinco deles momentos em que é visível a presença de dois altos cargos das autoridades marroquinas no meio da confusão e a dar indicações aos migrantes.

Segundo o El País, que avança esta sexta-feira a notícia, os dois homens são Mohamed El Oualidi, chefe da polícia na prefeitura de Tetuão, e Abdel Fattah El Sayed, supervisor geral da polícia em Fdnideq. O jornal conta que a polícia espanhola enviou um relatório à juíza María Tardón, da Audiencia Nacional (tribunal com jurisdição em Espanha inteira), em que sinaliza a presença destas duas pessoas.

Segundo a polícia espanhola, isto significa que na fronteira entre Marrocos e Espanha estava presente “a categoria mais alta da cadeia de comando operacional do dispositivo de segurança” marroquino, estando agora a rever as imagens para perceber efetivamente o “papel desempenhado” pelos dois homens na chegada de milhares de marroquinos a Ceuta.

Neste relatório, os polícias explicam que se veem os dois responsáveis a “dar indicações a vários imigrantes, a gesticular com os braços e sinalizar a direção para a qual devem dirigir-se”. Num dos vídeos, prossegue o documento citado pelo El País, uma voz em árabe explica que estariam no local “para supervisionar diretamente o dispositivo de segurança para dispersar os indivíduos e restabelecer a ordem”.

O envolvimento de Marrocos na entrada em massa dos migrantes rumo a Espanha tem sido alvo de muita discussão e de grandes trocas de acusações desde o verão. A meio de outubro, os serviços de informação espanhóis enviaram ao mesmo tribunal um relatório em que argumentavam que as autoridades marroquinas estavam “plenamente conscientes” de que se preparava uma entrada em massa em Ceuta no final de julho e que tiveram uma atuação “muito irregular na prevenção e controlo da crise”.

As autoridades de Marrocos conheciam “com detalhe” as convocatórias que circulavam nas redes sociais, e que tinham “um grande seguimento”, para uma entrada em massa em Ceuta coincidindo com a Festa do Trono, o feriado marroquino de 31 de julho cujas celebrações oficiais, este ano, decorreram numa localidade a cerca de 25 quilómetros da cidade espanhola, dizia o Centro Nacional de Inteligência de Espanha, num relatório conhecido esta sexta-feira, citado pela agência Lusa.

Marrocos tem-se defendido destas acusações e culpado precisamente as redes sociais e as notícias falsas sobre a possibilidade de entrada fácil em Espanha nesse dia pelo movimento de massa — mais de 70 mil pessoas em 24 horas — que se gerou.

“Eram plenamente conscientes de que se produziria esse fluxo” de pessoas e “absolutamente conhecedoras de que se estava a gerar uma situação anómala em termos de tentativas de entradas irregulares” em Ceuta, escreveram as secretas espanholas.

[Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes de Rosalina Ribeiro ser assassinada. Tinha encontro marcado com a milionária no Rio de Janeiro mas aterra em Belo Horizonte. Na reconstituição dos movimentos dele, a polícia percebe que o advogado nunca usou o telemóvel pessoal no Brasil. Mas foram detetados contactos a partir de dois telefones portugueses e um suiço. Um deles liga várias vezes para a casa da milionária. Já pode ouvir o terceiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]