No centro da vila da Charneca da Caparica, as tardes são, por norma, bastante calmas no inverno. Esta segunda-feira de meio de fevereiro não foi exceção. Entre as poucas pessoas que se encontravam nas ruas e dentro dos cafés, um assunto dominava, no entanto, as conversas: o sismo, registado ali muito perto (ao largo da praia da Fonte da Telha). “Foi um grande estrondo, parecia que a casa ia levantar do chão.” Quando a terra começou a tremer, pouco passava das 13h20, Lídia Fonseca saiu imediatamente de casa para perceber se havia estragos. Nada a registar. “Mas foi um grande susto”, atira, à saída do café Lua de Sabores, no centro da vila.
Lídia está acompanhada por duas amigas, que também dizem ter sentido um grande abalo. “A casa abanou toda. Pensava que era a máquina de lavar, mas depois pensei ‘Eu não tenho a máquina ligada’. Vim para a rua e vi os fios elétricos a abanar. Foi aí que me apercebi de que era um sismo”, diz Isabel Santos, sentada numa das mesas do Lua de Sabores. Com receio de possíveis réplicas — comuns na sequência de sismos de dimensão considerável, como o que abalou a região de Lisboa esta segunda-feira –, acabou por permanecer na rua durante alguns minutos. “Deixei o comer ao lume e fugi. Não fui logo para dentro com medo de que se repetisse“, diz ao Observador. Para já, não foram registas réplicas significativas, mas os especialistas não descartam a hipótese de que ainda possam vir a ocorrer nos próximos dias.
▲ O presidente da Junta da Charneca da Caparica, Pedro Matias, percorreu a freguesia e não lhe foram reportados danos de maior na sequência do sismo
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Quando recebeu a equipa do Observador, a meio da tarde, já o presidente da Junta de Freguesia da Charneca da Caparica (o centro populacional mais próximo do epicentro do sismo) tinha percorrido grande parte da freguesia e não tinha tido conhecimento de quaisquer danos. Não houve também necessidade de evacuar qualquer edifício — ao contrário do que aconteceu na vizinha freguesia da Costa da Caparica, onde foram retiradas centenas de crianças dos edifícios de duas escolas do 1.º ciclo. “Não há episódios de danos relevantes” na freguesia da Charneca, assegurou Pedro Matias.
Na Aroeira, uma spaniel japonesa terá pressentido o sismo
No entanto, a sul, na urbanização da Aroeira (uma zona de cariz sobretudo residencial) o francês Christian Guillaume garante que caíram vários bibelôs da mesa da sala da sua casa, uma vivenda de construção recente. “Alguns pequenos bibelôs caíram ao chão e partiram-se. Mas foi tudo muito rápido”, diz ao Observador, numa das principais ruas da urbanização, recordando que a “casa tremeu toda” e os “quadros ficaram tortos”. A cadela que levava pela trela, uma spaniel japonesa, sentiu o sismo ainda antes de este se manifestar, garante. “A cadela sentiu uns cinco segundos antes, começou a chorar e a ficar muito agitada.” A casa onde Christian Guillaume vive com a mulher, portuguesa, fica muito perto de um dos locais apontados como epicentro do sismo que abalou a zona de Lisboa esta segunda-feira.
Tal como acontece em relação à magnitude exata do abalo, também em relação ao epicentro do sismo há diferentes informações, que variam consoante a entidade oficial que monitoriza os sismos. Segundo o IPMA, o epicentro do abalo (de 4.6) registou-se no Oceano Atlântico, mas a menos de um quilómetro da costa da praia naturista da Adiça, a sul da Fonte da Telha. No entanto, o United States Geological Survey (o centro norte-americano que acompanha os sismos à escala global) coloca o epicentro do sismo (de 4.8) mais a norte, num pinhal da Aroeira, a escassas dezenas de metros da casa de Christian Guillaume. Já o Centro Sismológico Euro-Mediterrânico refere que o sismo se registou em pleno areal da praia da Fonte da Telha, em frente ao restaurante Kailua.
▲ Sismo interrompeu, de forma abrupta, a refeição das pessoas que estavam a almoçar na pastelaria Nutritiva (na Costa da Caparica)
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Qualquer que tenha sido o epicentro do abalo, este foi suficientemente forte para assustar os habitantes de toda a grande Lisboa. “Até me deu dores de barriga com medo“, desabafa Isabel Santos, sentada numa das mesas do café Lua de Sabores, garantindo que, à semelhança de Christian Guillaume, a sua cadela “pressentiu o sismo”. “Ela escondeu-se ao pé dos vasos antes de eu sentir”, garante. Já Lina Lopes diz que algumas caixas de sapatos, que se encontram numa prateleira da sua garagem acabaram por cair em consequência do abalo. “As caixas estavam numa prateleira e foram parar ao chão”, detalha a lojista, que garante que lhe “ficou a doer a vista e a cabeça” depois do sismo.
[No podcast “Pequenas Reivindicações de Liberdade“, a paciência da pessoa convidada é sempre posta à prova e nada a impede de abandonar o estúdio — mas o que está dito, está dito. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Maria José Morais estava na fisioterapia. “Foi assustador”
Mais a norte, na vívida zona comercial da Costa da Caparica, onde o sismo foi sentido com intensidade. O final da tarde confundia-se com qualquer outro: jovens a correr para não deixar escapar o autocarro, dezenas de pessoas a carregar sacos de compras e até um grupo de britânicos a cantar junto a um bar, antecipando o provável final de uma vida de solteiro. Maria José Morais estava numa sessão de fisioterapia quando sentiu a marquesa a tremer. “Foi assustador, a marquesa tremeu bastante, ouvi um grande estrondo“, diz ao Observador, comparando a intensidade do abalo ao de 1969, esse de magnitude 8 na escala de Richter, bem mais intenso do que o desta segunda-feira. A idosa tem medo que “a coisa se repita”, e teme pela zona central da Costa da Caparica, onde, alerta, a “os prédios são mais antigos” e poderão não resistir a um sismo de maior intensidade.
O abalo registado esta segunda-feira (que, segundo o IPMA, se registou a uma profundidade de sete quilómetros) atingiu o grau IV na escala de Mercalli (depois de, inicialmente, ter sido apontado como de grau V).
Os efeitos do sismo foram sentidos na pele pelos clientes que almoçavam na Pastelaria Nutritiva, no centro da Costa da Caparica. “Estavam pessoas a almoçar e os pratos caíram das mesas“, diz Manuela Dias, que passava no local no momento do abalo. Diz que as pessoas se afastaram das mesas e que as se encontram no interior do espaço saíram para rua. Manuela diz ter sentido “uma tontura” no meio do sismo. “Depois pensei que fosse um tiroteio”, desabafa, com pressa para chegar a casa. Já Manuel Castro estava à janela de casa, no prédio onde vive, quando o edifício “começou a tremer”. Fala num sismo “forte”, que o assustou a ele e à mulher.
▲ Na Escola Básica com Jardim de Infância da Costa da Caparica, 300 crianças foram retiradas para o pátio
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Centenas de crianças foram retiradas de duas escolas, mas normalidade voltou rapidamente
Por precaução, pelo menos duas escolas do 1.º ciclo do Agrupamento da Costa da Caparica foram evacuadas por precaução, avançou ao Observador o presidente da Junta de Freguesia da Costa de Caparica, José Ricardo Martins, assinalando que não se registaram vítimas ou danos. Na Escola Básica com Jardim de Infância da Costa da Caparica, cerca de 300 crianças foram retiradas para o pátio, durante cerca de uma hora, apurou o Observador junto de fonte da escola. Depois, as atividades letivas foram retomadas com normalidade. Por volta das 17h30, o corrupio de carros em frente ao estabelecimento de ensino e o fluxo de saída de crianças pelo portão principal deixava antever um cenário de absoluta normalidade. Também evacuada foi a Escola Básica de Vila Nova da Caparica.
Já na zona da praia da Fonte da Telha, a normalidade era também a nota dominante. Alguns casais passeavam ao longo do areal e na praia, enquanto uma mão cheia de surfistas desafiava as ondas trazidas por um mar agitado. À Rádio Observador, algumas pessoas que se encontravam na esplanada de um dos (poucos) estabelecimentos abertos contavam o que sentiram durante o sismo. “Estava a meter gasóleo e senti a bomba e o carro a abanarem durante 2/3 segundos. Apercebi-me logo de que era um sismo”, disse um dos homens que estava junto ao areal, a meio da tarde. Segundo contou uma outra habitante da zona, os surfistas que se encontravam na água no momento do abalo regressaram de imediato a terra. “Apesar de ter sido mais fraco, senti muito mais este sismo do que o anterior [registado em agosto do ano passado, ao largo de Sines, e que atingiu os 5.3 na escala de Richter]”, comparou.
Para além da Península de Setúbal e da zona de Lisboa, o sismo desta segunda-feira também se sentiu em algumas zonas do litoral alentejano, tal como Sines, Santiago do Cacém e Vila Nova de Milfontes. No Algarve, há relatos de pessoas que sentiram a terra a tremer em Faro, Lagos, Portimão e Quarteira. À Rádio Observador, o coordenador da Proteção Civil de Almada referiu que foram reportadas algumas fissuras em algumas habitações — que ainda terão de ser avaliadas, nomeadamente para se perceber se comprometem a estabilidade das construções afetadas. “São fissuras que é normal que as habitações tenham na sequência de um sismo. Até agora são pequenas fissuras, que decorrem também do prolongar da vida útil das habitações”, disse António Godinho. Uma das zonas que levanta mais preocupação — ainda que moderada — é a da zona habitacional que fica por baixo da arriba fóssil da Costa da Caparica. São centenas de habitações, muitas delas precárias (construídas entre os anos de 1960 e 1980) e não licenciadas.