Há em certos livros uma esquizofrenia difícil de classificar. Não é certo que livros com títulos polémicos ou imediatamente atrativos constituam uma vantagem para livros de uma ordem mais complexa. O Fim dos Estados Unidos da América já está traçado na nossa cabeça desde o princípio: por muito que saibamos que se trata de uma epopeia, que antecipemos uma subversão nos termos do título, que toleremos o jogo de máscaras – é inocente, não é, é político, é satírico – temos qualquer coisa para dizer sobre o título. E se isso, em certo sentido, pode ser bom, por envolver o leitor, e, até, por dar um sentido consequente a um livro que, de outra forma, podia ser visto apenas como um exercício formal, por outro também pode ser visto como sensacionalista: trata-se de um título que já dispensa ou, pelo menos, condiciona a leitura.
A multidão de proteções retóricas deste parágrafo prende-se, de facto, com a dúvida. A ambiguidade é quase sempre uma característica apreciável na ficção; permite dizer mais com menos, a dúvida empolga, a mistura de sensações obriga-nos a pensar e a organizar o pensamento, e o facto de Gonçalo M. Tavares nos conseguir dar isso apenas com um título é impressionante. Fim dos Estados Unidos porque, numa alegoria fácil, Trump deu cabo do país? Porque vem aí uma guerra civil? Ou trata-se de fim no sentido de propósito, o que tanto pode denunciar o lado colonial da Federação, como os ímpetos providencialistas da grande nação? Podemos não conhecer o seu teor, mas parece óbvio que há uma declaração política num título destes, e queremos saber qual é.
Ao mesmo tempo, a ambiguidade em Gonçalo M. Tavares é tão frequente e tão cultivada, que se torna difícil não olhar para ela apenas como um maneirismo irritante. Isto é, há uma forma de inteligência insuflada, muito presente em textos filosóficos, por exemplo, que passa por identificar problemas gigantescos e resolvê-los de maneiras parciais ou tão balizadas que se tornam inatacáveis do ponto de vista formal, sem resolver o problema a que aludem. Podemos, por exemplo, escrever um livro sobre “O que é a política?”, e na definição do problema explicar que entendemos por política apenas as relações entre o Estado e os seus funcionários diretos: do ponto de vista formal, poderíamos escrever um livro inatacável, mas há uma ambiguidade no sentido de política que exigiria uma resposta mais ampla. Ora, nos livros de Gonçalo M. Tavares, e neste de um modo mais claro pelo sentido mais político do título, este processo é frequente.
“O Fim dos Estados Unidos da América”, uma edição Relógio d’Água
O Fim dos Estados Unidos da América trata da chegada da peste, da apropriação do país por parte de um magnata, e da transformação do país num cenário dantesco. É louvável que consiga evitar o lado panfletário, sim, mas há uma distância permanente que tem uma função mistificadora. Gonçalo M. Tavares não quer que seja imediatamente claro o que ele quer dizer; não quer fazer declarações políticas no sentido mais prosaico do termo, embora queira obviamente fazer um livro político; não quer tirar o livro de um plano geral, abrangente, mas também não quer deixar apenas umas considerações vagas e plácidas sobre o mal, a ganância, a cupidez, ou o medo; o resultado é que tem de fazer aquilo que diz parecer sempre mais do que diz. Isso por vezes é interessante e força a imaginação do leitor, mas noutras é simplesmente cansativo.
Há autores sobre os quais é absurdo escrever em termos qualitativos porque estão num patamar, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista do reconhecimento público, que o torna inútil. Ou seja, quem lê já sabe se gosta ou não do estilo e dos métodos de Gonçalo M. Tavares e, ao mesmo tempo, Gonçalo M. Tavares também já sabe exatamente o que quer fazer quando escreve: avaliar um livro com uma pretensão universal, tentar explicar que, para conseguir o que quer, devia ter feito assim ou assado, e que certo modo de escrever resulta ou não resulta é, assim, ao mesmo tempo, ridículo e absurdo. Gonçalo M. Tavares está demasiado estabelecido para que valha a pena fazer um texto de apresentação, neste sentido habitual na crítica literária. O que ainda pode ser útil é, talvez, perceber o que é que, dentro do seu universo, O Fim dos Estados Unidos da América tem de específico e aquilo que o seu mundo próprio pode ter de específico dentro da literatura universal.
Breves notas sobre os Estados Unidos
É difícil mas fascinante – a literatura prova-o – escrever sobre os Estados Unidos. O fascínio parece mostrar-nos que há qualquer coisa (que até pode variar com o tempo, e ser a certa altura o sistema político, noutra a liberdade religiosa, noutra o espírito empreendedor, noutra o facto de se tratar da cabeça do mundo) própria e singular nos Estados Unidos. Algo que acontece por lá de uma forma que não acontece nos outros lugares. A dificuldade vê-se pelo número de obras menores sobre a América, muitas vezes até de autores maiores, que nos parecem hoje, ao lê-las, horrivelmente datadas. Isto é particularmente cintilante nas muitas obras que se debruçam – como a de Gonçalo M. Tavares – sobre hábitos populares, e não sobre estruturas de poder ou espíritos sociológico-filosóficos.
É relativamente simples perceber porquê: como parte do fascínio pelos Estados Unidos surge pelo lado técnico, do rápido desenvolvimento, do consumo que ainda não chegou a outras partes do mundo, a literatura sobre o tema poucas vezes tem um vocabulário apropriado ao tema – quantas vezes não nos parece a língua constrangedora de um avô a tentar entrar no mundo dos jovens? – e, mesmo quando a tem, depressa se torna, com os próprios bens de consumo, obsoleta. David Foster Wallace foi talvez o primeiro romancista a conseguir inventar uma linguagem adequada à mentalidade de consumo (ou, de uma maneira mais retorcida, Pynchon), com a sobrecarga de marcas e produtos, numa hiperatividade meio louca, e Gonçalo M. Tavares parece ter bebido, indiretamente, desta lição. Não tem o frenesim obsessivo destes, mas não tem pudor em falar da baixa cultura. Acrescenta, no entanto, uma nuance bastante curiosa.
Há uma maneira de escapar à caducidade da linguagem que passa por tratá-la já de um modo atrasado. Os estrangeirismos que vão povoando o enredo, sobretudo em substantivos representativos da cultura popular americana – os hot-dogs, as stores, as popcorns – dão ao português aquele encanto oitocentista que se encontra no contacto, e que todos associamos ao Eça, entre o português e o francês. Há um estilo deliberadamente datado na relação com os Estados Unidos que permite escapar à dificuldade de encontrar um vocabulário apropriado para tratar uma cultura diferente e que tem o seu encanto. Ao mesmo tempo, o fascínio central pelos Estados Unidos – o fascínio por alguma coisa diferente, que nós não somos – justifica um lado quase surrealista ou a puxar para a ficção científica que é comum em Gonçalo M. Tavares e está neste livro mais confortável. A atmosfera meio irreal que, n’O Reino, por exemplo, acaba por ser um limite, ao vedar aos romances o toque no quotidiano, descrições muito precisas ou o que quer que haja de lírico, aqui parece adequado: aproxima-o, aliás, da sensação que Wallace tão bem identificou no espírito do consumo, dominado pela construção de ficções e de mundos absurdos.
Breves notas sobre a epopeia
A opção de Gonçalo M. Tavares pela epopeia é mais uma destas manifestações de ambiguidade próprias do autor. Há, obviamente, um lado referencial que todos pressentimos, e de que é impossível escapar. Camões, a grande epopeia da Índia que Gonçalo M. Tavares já honrou, subverteu, parodiou, emulou, na Viagem à Índia, a própria dificuldade em perceber a que é que corresponde uma epopeia contemporânea — o romance não é a sua versão moderna? – tudo isto são tópicos fascinantes, e percebe-se que Gonçalo M. Tavares se dedique a eles. No entanto, são, de algum modo, tópicos já tratados por ele. Se a ideia fosse apenas pensar sobre a epopeia, este livro seria apenas uma redundância. Há, assim, duas coisas que nos parecem intrigantes aqui. A primeira, é a de perceber se de facto Gonçalo M. Tavares encara a epopeia como um género válido – não como uma relíquia, um fóssil que se pode recuperar para fins de estudo da sua própria natureza, mas como um género ainda fecundo, que lhe pode dar, para o que ele quer fazer com este tema, mais do que outros géneros. Por outro lado, interessa perceber, então, o que é que a epopeia dá de facto a este tema.
Num sentido muito específico, a epopeia é um género que convém a Gonçalo M. Tavares. As epopeias renascentistas transformaram o género no grau último da poesia referencial. A imitação que Os Lusíadas ou os Orlandos transformam na forma última de interpretar a literatura nunca mais nos abandonou. Camões ou Tasso procuram imitar uma forma perfeita de conquista, de arte ou de Bem, os românticos tentam imitar a natureza (mesmo que, como explica Hazlitt ao falar da imitação, a luz do reflexo tenha por vezes um brilho diferente e mais intenso), a poesia pós-Eliot é também uma poesia sobre o peso e a falta do modelo para a imitação e sobre o modo como a própria arte parece estar sufocada em referências que a impedem de alcançar uma centelha que seja de originalidade.
Ora, o modo como Gonçalo M. Tavares a explora, com estes épicos do quotidiano, é uma variação interessante deste problema moderno com a epopeia. A linguagem de Gonçalo M. Tavares é bastante prosaica, não tem sequer uma precisão substantiva muito afinada – tanto que estranhamos, e parece fora do seu mundo, quando alguma coisa palpável surge no texto – e o fosso que existe entre esta linguagem e aquilo que esperamos da epopeia tem este lado curioso. O modo de lidar com a pressão do passado surge muito por contraste, e isso é especialmente interessante no caso da epopeia por este ser, desde pelo menos a Idade Moderna, o género mais totalizante da literatura. Camões, com a Inês de Castro, com o Veloso, com o Magriço, quer mostrar que também a linguagem lírica, cómica, ou do romance de cavalaria cabem num épico – o épico conta a História toda, da dúvida sobre si mesma (como no Velho do Restelo) ao feito mais heroico.
Gonçalo M. Tavares quer mostrar que também o quotidiano, o vulgar, e até a linguagem modesta aguentam um épico. Claro que isto só se pode fazer com a lembrança constante que se trata de um épico – coisa em que o verso cumpre a sua função, mesmo na linguagem deliberadamente mais declarativa que se pode pensar – que também traz os seus engulhos. Há alguns elementos de ligação claros: os Estados Unidos como o grande país dos últimos duzentos e cinquenta anos, tornados por isso a matéria épica mais justa, a ideia da destruição de uma civilização, como com Tróia na Ilíada, a sub-reptícia intervenção dos deuses, que faz da peste, de algo não-humano, o inimigo central, mas há uma ligação à forma épica mais constante e mais problemática. A épica tradicional exibe um excesso que só a excelência torna suportável. A monotonia dos épicos menores, como Os Novíssimos do Homem, é fácil de adivinhar. A prisão formal do épico só funciona quando o texto, de alguma maneira, luta contra ela: é próprio do texto fazer-nos esquecer aquela forma, e o conflito da narrativa com a forma é parte do seu interesse.
Com o texto de Gonçalo M. Tavares, contudo, se perdemos a prisão, a forma épica perde o seu propósito, e temos apenas um texto que, até pelo que pede à forma épica – a capacidade de aguentar a história de homens banais, sem grandes sobressaltos, nem excessos literários – não pode ser muito entusiasmante. Por outras palavras, o texto, sem o confronto com a forma épica, torna-se aborrecido. Não é, em toda a linha, um texto aborrecido porque este jogo está sempre presente: é sempre um mistério à espera de ser revelado, que aguenta a tensão, o saber porque é que o texto está escrito desta forma. Este mistério, contudo, nunca é bem desvendado: trata-se de mais um desses espaços em branco que nos levam a pôr uma série de hipóteses, por vezes interessantes, sim, mas que se estão a tornar um efeito cansado da literatura. Depois de tantas obras abertas, cujo maior contributo que nos dão – e é um contributo honesto! – é a oportunidade para falarmos delas e uma certa liberdade que nos possibilita aventar sobre elas uma série de hipóteses sem que nunca seja possível provar taxativamente que estamos errados, começamos a sentir falta de uma literatura séria que defina os seus próprios termos, sem nos deixar essa tarefa a nós.
Breves notas sobre o enredo
Os romances mais conseguidos de Gonçalo M. Tavares – a série a que o autor chamou O Reino, com Jerusalém ou Aprender a Rezar na Era da Técnica – têm uma estrutura muito própria. Habitualmente, temos uma série de personagens aparentemente desligadas, em que essa distância é um dos móbeis fundamentais do enredo: queremos perceber de que maneira é que elas estão ligadas, e o clímax atinge-se com a revelação, muitas vezes num momento crucial que revela o sentido das páginas anteriores, em que os passos das personagens nos parecem misteriosos, daquilo que liga os protagonistas. O grande interesse narrativo destes romances é, assim, dado pela expectativa: sabemos que alguma coisa há de acontecer.
Na sua série mitológica, Gonçalo M. Tavares usou uma forma diferente – e, parece-nos, menos conseguida – em que o movimento é acompanhado pelo leitor. Não há uma resolução que nos devolva aos momentos anteriores e lhes dê um sentido novo. Com esta epopeia, há também um modo de contar curioso, que funciona a espaços: várias vezes, Gonçalo M. Tavares antecipa o que virá a acontecer. Conta-nos quem será importante, o que fará em certo momento, o que parece um contra-senso dentro do modo oitocentista ou burguês de conceber a literatura – em que a revelação, a surpresa e a novidade criam o centro do interesse – mas é o modo habitual de proceder, por exemplo, na literatura de cavalaria. No ciclo arturiano sabemos sempre os planos das bruxas, os segredos que enobrecem o nascimento de Amadis ou os perigos que esperam Galaaz na floresta – o interesse mantém-se de outro modo, pela expectativa em saber como é que a personagem vai descobrir o que já sabemos.
A opção de Gonçalo M. Tavares por antecipar os acontecimentos não é tão transversal e, também por isso, menos consequente. Cria uma estranheza que não é desagradável, guia-nos a respeito dos propósitos da História – que percebemos, assim, que não nos pretende ludibriar, dá a ideia de que há uma sinceridade que é cativante – mas não tem aquela carga que é um dos grandes atrativos do trabalho de Gonçalo M. Tavares: o modo como as suas opções ficcionais parecem sempre interpretações criativas e bem pensadas das maiores tradições romanescas.
Breves notas sobre as personagens
Nem todas as literaturas têm de ter tudo, e queixarmo-nos da falta de grandes personagens em Gonçalo M. Tavares é tão espúrio quanto maldizer o futebol por não ter espingardas. É verdade que as personagens de Gonçalo M. Tavares não são propriamente caldeiras psicológicas em ebulição constante, poucas vezes ultrapassam a categoria de excêntricos semi-humanos, mais como bizarrias gramáticas ou semi-problemas filosóficos andantes do que propriamente pessoas, mas isso não nos parece um defeito. Trata-se de uma literatura de outra ordem, aliás, de um limbo difícil de definir, psicologicamente, entre interior e exterior, mas que não é certamente centrado na primeira pessoa.
Dito isto, reconheça-se que para este O Fim dos Estados Unidos da América o tipo de personagens característico de Gonçalo M. Tavares é particularmente apropriado. Há um lado caricatural, exagerado, que faz parte da sua interpretação dos Estados Unidos, não só no excesso, no alarmismo, na polarização, mas até no gosto pelo cartoon. E é este lado que nunca deixa de ser fascinante em Gonçalo M. Tavares. Pode ter experiências com bons resultados (O Reino), outras com resultados interessantes (O Bairro) e outras mais fracas (não nos parece à vontade em campos mais históricos, como em Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai, por exemplo); todas, contudo, parecem sempre bem pensadas, como numa modulação imprevista do grande sonho hermenêutico.
O mundo em que os intérpretes é que contam a História, em que os semiólogos e os hermeneutas são os romancistas, desagua em Gonçalo M. Tavares, uma concretização do mundo que os pensadores do século XX imaginaram mas não conseguiram criar.