Há talks e podcasts gravados ao vivo, há bancas de comida e de brindes e há música que ecoa nas paredes até a noite cair. O Tribeca Festival Lisboa — irmão português do festival nova-iorquino do mesmo nome, criado em 2002 — regressou para a sua segunda edição prometendo manter a fórmula do ensaio inaugural de 2024 com alguns ajustes. Um foi a expansão para três dias de certame, outro é que o cinema já não tem lugar no Hub Criativo do Beato, pelo menos na expressão pura da fita a rolar e os fotogramas na tela.
Desde a génese deste evento que a organização tem vindo a frisar que este não se trata um festival apenas de cinema, incluindo sim essa arte numa programação mais alargada. No entanto, o facto do Tribeca original fundado por Robert De Niro ter sido fundado com esse intuito colou à marca esse selo de exigência ao que à curadoria fílmica diz respeito. E é por isso que a edição do ano passado desapontou pela oferta encarada como inferior e, acima de tudo, pelo facto dos filmes serem exibidos em espaços do Hub do Beato com poucas condições para esse efeito.
Tomando essas críticas em consideração, o Tribeca reforçou o cartaz e deslocalizou as salas de cinema para algumas centenas de metros de distância: uma, o The Theater, no Teatro Ibérico; a outra, The Chapel, no Convento do Beato. Como o Observador pode constatar in loco e através de feedback dos visitantes, a experiência não podia ser mais diferente, para melhor, em qualidade de visualização e conforto nas salas.
No entanto, a decisão produziu também uma espécie de efeito inesperado: a aparente criação de dois festivais em paralelo. Abandonando o ruído e a folia festivaleira do epicentro do Tribeca a caminho da The Chapel, entra-se na placidez de um bairro do Beato quase deserto e dá-se com pessoas que não estiveram sequer no Hub em momento algum do dia. Tal justifica-se com o facto de, se no ano passado as únicas modalidades de bilhete consistiam em pagar um passe diário ou completo (de 75 e 130 euros, respetivamente), desta vez abriu-se a possibilidade de comprar apenas bilhetes de cinema individuais ou em packs.
CARLOS PALHAVA/TRIBECA
Foi o que José Pedro e Diogo, de 28 e 33 anos, fizeram ao adquirir entradas para ver a antestreia de Bugonia, o mais recente filme de Yorgos Lanthimos, ao fim da tarde, assumindo frontalmente que não tinham fascínio pela restante programação do Tribeca. “Da perspetiva de alguém que está interessado em ver filmes, interessa-me pouco a forma como se posicionam”, afirma José, saudando poder ver “este conteúdo separadamente e em blocos, sem ter que aceder ao festival”.
No mesmo espaço, porém, horas antes, à saída da sessão de All We Cannot See, do venezuelano Alberto Arvelo, Rita e Daniel representavam o extremo oposto. Não podendo ter vindo à primeira edição devido à iminência do nascimento do seu filho, o casal comprou este ano o passe completo de 255 euros (compraram-no, contudo, na fase early bird, a 200 euros), que dá direito a presença em todas a sessões de cinema e restante programação.
“Somos grandes fãs de cinema e nunca tínhamos ido a um festival assim, curiosamente”, revela Rita, que adianta terem interesse em experienciar de tudo um pouco que o cartaz tem a oferecer — o que inclui as talks, pela “parte mais da criação e da perspetiva dos atores, de como constroem o seu trabalho”. Aí entra o velho problema das sobreposições, existente em qualquer evento de alguma dimensão. “Tem de se fazer escolhas. Por exemplo, há talks que podem ser interessantes, ou eu gostaria de ir, mas muitas vezes coincidem com os filmes principais que são aqui”, lamenta Daniel.
Da parte da organização não há a assunção de que esta nova aposta, ainda que salutar, pode ter criado uma cisão. “O Tribeca Festival Lisboa é, por natureza, um evento aberto e em movimento. Levar as sessões de cinema a outros espaços da cidade faz parte dessa vontade de chegar a mais pessoas e de tornar o festival mais acessível, e também dar melhores condições às pessoas que nos visitam”, rebate a diretora de comunicação do Tribeca, Mónica Serrano, numa resposta enviada ao Observador. “A Unicorn Factory Lisboa continua a ser o centro do festival: o lugar das talks, dos encontros e das ideias, mas o Beato inteiro faz parte desta experiência”, acrescenta.
Há ainda um outro aspeto a dar razão a este novo modelo. É que tanto o passe geral acima mencionado como os pacotes de seis (65€) e três (35€) bilhetes de cinema têm um aspeto em comum: esgotaram.
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O outro festival, entre exércitos de credenciais e talks despidas
Seja por ter decorrido numa quinta-feira de trabalho, seja pela dispersão que este novo modelo causou, o que se pôde constatar na chegada ao recinto do Hub Criativo do Beato pelas 13:30, pouco antes de uma das mais sonantes talks do dia, foi uma notável falta de público pagante no local. Havia um corrupio de pessoas a circular, sim, mas quase sempre munidas de algum tipo de credencial que indicava estar ali a trabalhar ou convidado.
A hora adiantada podia ser outro fator explicativo, mas a verdade é que não só a situação não mudou assim tanto com o passar do tempo, como o recinto até estava aberto a pessoas externas ao festival que quisessem ir a um dos restaurantes deste espaço e que até se podiam confundir com festivaleiros. A prova dos nove esteve nos vários palcos, raramente perto de lotar, pelo menos nas sessões em que o Observador esteve presente. A situação foi particularmente aguda no Lisbon Stage, o maior do festival, onde a sala nunca pareceu ter mais de um terço da sua lotação ocupada, mesmo nas sessões que contaram com figuras como Giancarlo Esposito ou Meg Ryan.
Isso, todavia, não fez esmorecer o entusiasmo das irmãs Sara e Lara, de 24 e 19 anos, que venceram um passatempo para obter os passes diários para as talks, de 45 euros. “Pensávamos que o bilhete que tínhamos ganho dava acesso também ao visionamento dos filmes”, admite Sara, que ainda assim não ficou incomodada, porque eram precisamente as conversas com atores e figuras do cinema o que queria ver. “Eu até estou mais interessada nestes atores que vêm este ano do que nos do ano passado”, assume Lara, que referiu também estar “a gostar muito do ambiente”.
Um dos aspetos destacados por uma das irmãs é descontração que até permite que em algumas sessões seja permitido ao público fazer perguntas aos oradores no final das sessões — uma das promessas que a organização tinha feito quanto a aumentar a interatividade para esta edição. É, por isso, sem surpresas que Mónica Serrano destaca como “as conversas de hoje, os filmes e a forma como o público está a reagir é exatamente como idealizamos”.
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Instada a fazer um balanço deste primeiro dia de Tribeca Festival Lisboa, a diretora de comunicação considera que correu “muito bem”, destacando “uma energia especial e contagiante” presente desde o arranque com a sessão de abertura na quarta-feira à noite de In the Hand of Dante, filme de Julian Schnabel. Questionada quanto a números oficiais, afirma não ter ainda a contagem fechada, mas ressalvando que “a adesão foi forte” ao mesmo tempo que garantiu que “o mais importante é o entusiasmo com que o público voltou”.
Ao que tudo indica, foi o caso de Catarina, apesar de ser também a primeira a vir ao festival. Atriz de 22 anos a dar os primeiros passos na indústria, diz ter visto as suas expectativas quanto ao Tribeca “bastante superadas”. “Eu achava que ia ser mais uma coisa de ver, de tirar notas e talvez conseguir falar com alguém, mas é um ambiente mesmo muito descontraído, em que vamos ouvir as talks, depois estamos aqui fora a conversar um bocadinho e de repente vemos o realizador a passar e é tipo ‘olhe, desculpe, vou só roubar uns minutos’. Ou seja, é um ambiente muito confortável e acho que o festival ter conseguido trazer essa parte para além da parte profissional e da parte da partilha é mesmo muito interessante”, argumenta.
Catarina assume, porém, que não veio apenas para apreciar a programação, mas também para fazer networking, dando pretexto à visão de que o Tribeca também é um festival para ver e ser visto, pelo menos na indústria cinematográfica. “É um bocado as duas coisas. É claro que também continuo a ter a curiosidade e a vontade enquanto fã de querer conhecer as pessoas, de querer acompanhar os projetos, de poder fazer algumas perguntas, mas depois também tenho este lado profissional, sim, de querer perceber como é que funciona o meio e como é que posso inserir-me”, assume.
Esse lado, no entanto, não serve apenas jovem talento à procura de se afirmar. Um dos embaixadores do festival diz o mesmo, mesmo quando se trata de alguém com uma carreira tão longeva e bem sucedida como a de Joaquim de Almeida. “Eu acho que, para muitos dos profissionais portugueses há aqui uma dinâmica com pessoas que vêm de outras partes do mundo”, afirma em conversa ao Observador, garantindo que é algo que não beneficia apenas atores, mas também ajuda “realizadores a encontrarem produtores estrangeiros que se interessem pelos produtos deles”. A título de exemplo, refere como na noite anterior conheceu um produtor inglês responsável por produzir A Teacher’s Gift, filme realizado por Artur Ribeiro.
Um festival que permita essa confluência, defende, não só é produtivo como pode mudar as dinâmicas do mercado português. “Dá-nos uma visão maior do que é a indústria cinematográfica, porque esta em Portugal praticamente não existe. Não se pode dizer que existe indústria porque os filmes são todos subsidiados… Agora pela primeira vez temos o Rabo de Peixe, que tem uma dimensão maior porque a Netflix quer fazer dinheiro, não é por favor”, declara, antes de rematar “não é como muitos filmes se fazem em Portugal, tanto importa que tenham público ou não, porque o dinheiro foi subsidiado”.
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Meg Ryan e a arte da realização, “parecida com conduzir um carocha com um buraco no chão”
Meg Ryan acabou de filmar um projeto de Lena Dunham, com Natalie Portman e Mark Ruffalo, Good Sex; está a desenvolver uma série de televisão e mais dois projetos televisivos nos quais deverá atuar; além de dois projetos enquanto realizadora, algo que lamenta ter descoberto tão tarde.
“Depois de ter trabalhado como realizadora, percebi que gostaria de o ter feito antes porque teria sido uma atriz melhor”, garante numa conversa com os jornalistas no primeiro dia do Tribeca Lisboa.
Há muito que não é presença frequente nos ecrãs e foi a pandemia que a trouxe de volta. Durante o confinamento desenvolveu um guião que se transformaria no primeiro projeto com Meg Ryan na realização, O Que Acontece Depois. “Quando acabei de escrever, pensei: ‘É isto, só quero ser escritora’. Adoro a sensação de acordar às 4h30 com ideias que não parecem ser as minhas. E, depois, quando realizei, pensei: ‘É isto, é tudo o que sempre quis ser’. Foi um filme bastante básico, feito em 21 dias, com menos de três milhões de dólares e duas pessoas — eu era uma delas.”
Com o projeto, garante que aprendeu e cresceu muito, mas não estava preparada para tudo o que estava inerente aos diferentes cargos desempenhados. “Tudo girava em torno da resolução de problemas, e eu era, na maior parte do tempo, quem resolvia os problemas.”
Ainda assim, compara a experiência à época em que aprendeu a conduzir num carocha velho e com um buraco no chão. “Senti que isso me tornou melhor condutora e aqui foi semelhante.”
Na realidade atual tem, porém, enfrentado um desafio, considerando que a narrativa tem sido afetada por uma crescente curta capacidade de atenção. “Quando falas com streamers sobre como novos projetos, eles comentam que é preciso fisgar o espectador através dessas relações algorítmicas. Tens de o capturar nos primeiros três minutos e depois há outra coisa que acontece aos seis minutos. E se não o conseguirmos, de repente o espectador estará a interagir com o seu segundo ecrã. E depois com o terceiro.”
Mesmo que há muito se tenha afastado das comédias românticas, é inevitável que alguém fale de Um Amor Inevitável ou Sintonia de Amor, embora ela admita: “Fiz uns 40 filmes e talvez uns oito deles sejam comédias românticas e parecem ser esses que as pessoas se lembram. Mas tenho muito orgulho nisso”.
A atriz acha que esses filmes continuam a ter público porque as pessoas precisam delas como conforto. “Muita gente diz-me que vê estes filmes quando está doente, as pessoas apaixonam-se e ganham esperança, veem o melhor delas próprias e ficam com a sensação de que o mundo vai ficar bem.”
Já Meg Ryan, gosta de ver outro tipo de conteúdos, como A Grande Onda da Nazaré. “Adoro aquele programa e achei que seria boa ideia ir até à Nazaré, não consigo acreditar que aquilo exista mesmo”, confessa.
Diz também estar a aproveitar para conhecer Lisboa, onde está pela primeira vez, e destaca a importância de participar no Tribeca Lisboa. “Este é um ótimo momento para celebrar a arte e não a guerra. Faremos tudo o que pudermos para aumentar a nossa empatia.”
Além da conversa com os jornalistas, Meg Ryan participou num painel dirigido por Catarina Furtado, Nas minhas palavras: Meg Ryan [fala] sobre imagem, identidade e reinvenção, um tema que encara com naturalidade.
“A reinvenção parece-me ser inevitável, crescemos e mudamos, para mim não é nada estranho. É apenas uma evolução natural, podemos continuar a construir-nos em cima daquilo que já sabemos.”
Aos 63 anos, reinventou-se inúmeras vezes, definida pelo trabalho, pelos filhos, pelas perdas ou pela aventura. Afastou-se do cinema, regressou apenas com os projetos que lhe dizem algo, mas garante que não consegue sossegar. “Não creio que alguém seja demasiado velho para reinventar a própria vida, sinto que é isso que mantém a pessoa interessante, que exige imaginação. O meu filho está na casa dos 30 anos, a minha filha na casa dos 20 e a maternidade foi uma das minhas grandes reinvenções, mas eu mudei muito.”
E o que faz agora que justifique os longos períodos de ausência do cinema? “Sou investidora imobiliária, renovo casas para depois vender e agora estou a fazer um curso de design. A minha vida vai simplesmente acompanhando o fluxo.”
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Giancarlo Esposito, o veterano que nunca esquece que já foi um underdog
Não gosta da palavra “vilão”, disse-o no painel em que participou [Vilões que adoramos odiar (a ascensão do anti-herói), com Joaquim de Almeida e Veronica Falcón], mas Giancarlo Esposito — cujo vilão mais icónico, Gustavo Fring, se tornou conhecido em Breaking Bad e Better Call Saul— reconhece o fascínio que prende tantas pessoas ao ecrã.
“Acho que o vilão, entre aspas, é a pessoa problemática, a pessoa com dificuldades, a pessoa com problemas emocionais como eu. Acho que são pessoas complexas e acho que representam muitas das emoções que alguns de nós podemos sentir, mas não expressamos”, explica. “Para mim, o vilão, o mau da fita, o ser humano com dificuldades, é uma forma de curar essa emoção dentro de mim”, revela o ator de 67 anos.
The Boys foi outro dos projetos em que se destacou e que o marcou profundamente. “Em primeiro lugar, adoro o Eric Kripke, criador de The Boys, e é a segunda vez que trabalho com ele [depois de Revolution]. Em segundo, o Stan Edgar [a personagem que interpreta] é alguém numa posição de poder e o que torna tudo mais interessante é que se espera que ele seja uma espécie de ama para todos aqueles super-heróis. O que adoro na série é que é sobre super-heróis e faço esta analogia porque sinto que somos todos super-heróis, só que nos esquecemos dos nossos superpoderes. Mas, para isso, precisamos de nos fortalecer. Isso significa ficar mais forte no ginásio? Significa tornar-se mais inteligente e astuto? Significa ter mais dinheiro? Na verdade, significa deixar o ego de lado e permitir que o nosso espírito se manifeste através de quem realmente somos. Sempre que me falta visão, peço inspiração para ter uma”.
O sucesso como ator chegou tarde na vida. Chegou a declarar bancarrota e a contemplar o suicídio — pensou até contratar alguém que fingisse matá-lo para que as filhas recebessem o dinheiro do seguro de vida —, e demorou a reerguer-se. Por isso, é agora muito metódico na forma como encara a vida. “Por exemplo, como é que vai ser o meu próximo ano? Terminei o meu trabalho em julho, o que deveria estar a fazer? Quero tirar férias. Estou cansado. Fiz oito filmes seguidos, todos independentes. Como está a conta bancária? Como está o meu ânimo? Ok, comecei quatro projetos, é isto que tenho de fazer. O nosso cérebro é um computador. As nossas emoções, ações e as máscaras que usamos e tiramos enquanto seres humanos são basicamente mecânicas. É preciso treinar o espírito para te apoiar espiritualmente e é preciso treinar o corpo para estar pronto quando chegar a hora.”
Além de Breaking Bad e The Boys, entrou nos universos Star Wars e Marvel. Depois de tudo isto, coloca-se a questão: há diferenças na forma como aborda os projetos? Vi o filme Seabiscuit: Alma de Herói cinco vezes e choro sempre. Da última vez, há três semanas, perguntei-me: porque estou a chorar? E percebi que uma parte de mim se identifica com a situação de quem já foi o underdog. Por isso, quando faço filmes maiores, nunca me esqueço disso e nunca me esqueço de trazer algo pessoal a estas personagens no ecrã.”
No Tribeca Lisboa, vai participar noutro painel, O peso de uma personagem, e no currículo já teve algumas tão impactantes que teve de aprender a desprender-se no final de cada dia de trabalho — o que nem sempre foi conseguido. “O corpo tem memória muscular e parte de nós funciona como uma máquina.”
Na preparação para uma personagem estuda maneirismos, treina formas de andar, colocação de voz, etc — tudo fica lá registado e certos gatilhos vão repescar essas memórias. Por isso, recorda uma história passada há uns tempos em Nova Iorque. “Uns tipos chamaram: ‘Oh, Gustavo [Fring, de Breaking Bad]!’ Virei-me e imediatamente o Gustavo já estava dentro de mim. Falei com eles, tirei umas fotos, fiz aquele olhar mortífero, porque era o que eles queriam e depois afastei-me.”
Só depois de vários metros é que percebeu: “Caminhava de forma diferente daquela que tinha antes de os encontrar”.
Parou, começou a rir às gargalhadas e depois, porque estava com pressa para se recompor para uma audição de dobragens para a qual se dirigia, começou a dizer: “Sai daqui, Gustavo. Vai-te embora, Gus”.
Para o ator, quando tem de fingir degolar ou sufocar alguém numa cena, sente que o corpo regista aquela ação como real e tem de lutar contra essa sensação. “Preciso de me perdoar por isso e aceitar que já passou porque, para mim, quando interpreto é algo mesmo real.”
Participou em Capitão América e sabe-se que adoraria colaborar com James Gunn no universo da DC — ainda não aconteceu porque “o momento não era o ideal” — e participou num videojogo, Far Cry 6. Porquê? “Queria mesmo saber como é que eles faziam aquelas coisas, foi tão simples quanto isso. Uma parte de mim é realmente curiosa e é o motivo pelo qual escolho muitos projetos.”
Isso leva-nos ao tema do futuro, que é tudo menos pacífico. Giancarlo Esposito garante que lê muito e há seis ou oito meses encontrou um conto de Stephen King. Escreveu ao autor porque queria comprar os direitos e King aceitou. “É como uma frase que existe no musical Hamilton, quero estar na sala onde tudo acontece. Nada acontece por acaso, temos de nos colocar nessa posição”, explica.
Seguiu-se o encontro com Guy Busick, realizador com o qual trabalhou no filme Abigail, a quem Esposito propôs o filme de terror que tinha em mente. Tudo se alinhou, trabalharam na adaptação durante seis meses e apresentaram-na a vários estúdios. O projeto está a avançar, mas é o único. O ator quer fazer uma comédia romântica recentemente teve uma ideia para uma novela gráfica — que já o selo da editora Simon & Schuster, ilustrador e os direitos aprovados para uma adaptação cinematográfica na qual será o protagonista.
“Eu sou meio italiano e tive uma ideia sobre um assassino contratado que é mestiço. É algo que nunca foi contado.”
Quer também um dia interpretar Alexander Pushkin, um filósofo e músico russo, e Paul Cuffe, o homem negro mais rico da América no século XIX. Como se não bastasse tudo isto, está a escrever um livro de memórias. Na passagem por Lisboa também reconhece alguns elementos que consegue perfeitamente imaginar na ficção.
“Vejo todos estes marcos históricos e sinto que este é um lugar muito especial por causa das pessoas que o habitam. À medida que este festival cresce, a esperança é que tenham mais incentivo para contar as vossas histórias, para contar a história dos portugueses.”