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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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A vitória quase-absoluta de Albuquerque, "o desejado", deixou um PS partido e um JPP em festa

Albuquerque saiu reforçado e já não será contestado. Cafôfo perdeu em grande e oposição já pede a sua cabeça. JPP passou a segunda força e vai montar "torres de vigia" para liderar oposição.

De cada vez que se ouvia uma explosão de gritos e palmas na sede do PSD-Madeira, os rostos eram de confusão: a expressão de euforia tanto podia dever-se a mais um golo da seleção nacional como a mais um dado que confirmasse a vitória do PSD. A noite começou tímida — não houve aplausos nem grandes manifestações quando as primeiras projeções apareceram nos ecrãs das televisões — mas a confiança foi ganhando corpo e as bandeiras cor de laranja começando a colorir a sede, no centro do Funchal. No final, confirmava-se que Miguel Albuquerque, “o líder mais desejado”, conseguira quase tudo o que queria: a incontestada liderança do partido, a quase-maioria absoluta (não alcançada por 300 votos), crescimento em número de deputados, vitórias em 10 de 11 concelhos e 50 de 54 freguesias, o seu melhor resultado de sempre em eleições.

Mais: o CDS, parceiro mais que provável para uma coligação governativa que permita alcançar a maioria absoluta (o PSD tem agora 23 deputados, faltando um para formar maioria), elegia José Manuel Rodrigues, único deputado e líder partidário que não fechou portas a acordos com Miguel Albuquerque durante a campanha. Na flash-interview pós-jogo da seleção, Marcelo Rebelo de Sousa já sentenciava: a maioria absoluta estava, na prática, cumprida, dado o provável entendimento entre PSD e CDS. O capítulo da instabilidade constante na Madeira estava encerrado.

Encerrado do ponto de vista das urnas, claro, uma vez que Miguel Albuquerque continua a ser arguido por suspeitas de corrupção e que não se sabe quando é que será ouvido, ou quando é que a Justiça trará novos dados para cima da mesa. Por agora, a eleição deu razão aos argumentos do PSD: os madeirenses pareceram mais preocupados em dar força aos sociais democratas para travar o ciclo imparável de constantes eleições antecipadas do que em fazer o julgamento do caso judicial que o PSD-Madeira tem retratado como uma espécie de cabala continental contra a região.

Por agora, Albuquerque, que foi pela segunda vez a votos na condição de arguido, derrubado pela oposição no parlamento regional e cercado por quase todos os partidos com a ameaça de só apoiarem o PSD se o líder fosse substituído, ganha mais uma vida. E também foi isso que o PSD se encarregou de transmitir — para dentro e para fora. Ainda a noite ia curta — eram 20h30, na sede concentravam-se poucos militantes, os copos de água e de vinho preparados para a vitória intocados — quando Eduardo Jesus, secretário regional do Turismo, fez questão de agarrar o microfone para falar.

O PSD até já tinha reagido aos resultados — Jorge Carvalho, responsável pela pasta da Educação, já tinha expressado aos jornalistas a satisfação do PSD com os resultados preliminares. Mas esta reação tinha um objetivo particular: transmitir que Miguel Albuquerque estava blindado. Depois de uma campanha muito centrada na figura do presidente do governo, que os partidos — e a oposição interna — tinham considerado estar a tornar-se um ativo tóxico para o PSD e para a região, tinha ficado a dúvida: poderia Albuquerque estar de saída caso não alcançasse a maioria absoluta e não assegurasse condições para governar?

O PSD esperou e, quando começavam já a circular, vindas das mesas de voto, informações que asseguravam que chegariam ao patamar dos 23 deputados, Eduardo Jesus falou. A escolha da figura também foi relevante: era um dos nomes do PSD e do governo que mais circulavam como hipóteses de substituir Albuquerque numa sucessão organizada; foi ele o responsável por dizer aos jornalistas que se confirmava, com esta votação, que Albuquerque é “o líder mais desejado” e está reconfirmado, sem margem para desafios internos ou externos.

Por essa hora, entre a oposição interna já se ia reconhecendo que o desfecho da noite seria inevitável: Albuquerque sairia reforçado e com margem de manobra para negociar com o CDS, possivelmente voltando a entregar a José Manuel Rodrigues a presidência do parlamento regional. Alberto João Jardim tinha chegado a colocar, no seu comentário televisivo — que era transmitido pelas televisões à mesma hora que o madeirense Cristiano Ronaldo falhava um pénalti, o que provocou o desgosto dos militantes na sala — a hipótese da substituição de Albuquerque, mas os números contavam outra história.

“Nós só queremos Miguel a presidente”, ia-se cantando na sede, em clima de euforia. Quando Albuquerque chegou, as bandeiras agitaram-se, as vozes cantaram mais alto, e começaram também os ataques aos jornalistas, vindos dos militantes. Albuquerque agradeceu a atitude “inteligente e civicamente elevada” da população, festejou a sua maior vitória de sempre (em número de votos), celebrou a “derrota da coligação de esquerda”, apontou para o CDS como “parceiro privilegiado” garantindo que ainda não falara com José Manuel Rodrigues.

O clima azedou quando os jornalistas perguntaram pelo que o futuro lhe reserva, a Albuquerque e ao governo, caso o caso judicial evolua e seja acusado. Albuquerque disse apenas que ainda não foi ouvido e que esclarecerá o que for preciso, acrescentando que a justiça e as denúncias anónimas não podem ser usadas como “instrumento político”. Mas os militantes irritaram-se: “Pergunta pelo Sócrates!”, atirou um. “São jornalistas ou são juízes?”, disparou outro, arrancando palmas aos restantes. Seriam os mesmos militantes que seguiriam Albuquerque numa arruada improvisada, de bandeira na mão, família e responsáveis do PSD e governo regional (incluindo Pedro Calado, ex-autarca do Funchal arguido no mesmo caso) ao lado, até à câmara municipal.

Como num festejo de vitória futebolística, seguiram-no carros a buzinar, bandeiras ao ar, houve fotografias, beijos e abraços. Passava pouco das dez quando Albuquerque se meteu no carro. Na sede, militantes passavam e iam fazendo a sua análise sobre a noite, digeridos os resultados: “É uma derrota para a justiça”, dizia um. “O PS vai levar uma lavagem… Agora [Paulo Cafôfo] já pode dizer olá à Assembleia da República”, ironizava a seguir.

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Cafôfo perde em grande — e a tese da “traição”

O comentário sobre o PS e particularmente sobre a figura de Cafôfo parece encaixar na leitura que na rua, durante a campanha, muitos — dentro e fora do partido — faziam sobre a performance que o líder do PS-Madeira poderia vir a ter nestas eleições — e as causas para ela. O resultado foi claro, e dificilmente poderia ser pior: num cenário inversamente proporcional ao de Albuquerque, Cafôfo não só perdeu como ficou em terceiro lugar, confirmando as piores expectativas que se iam comentando nos corredores do partido — o perigo de ficar atrás do JPP — e com ainda menos deputados do que o JPP tinha (tinha nove, passou para onze; o PS tinha onze, passou para oito).

Cafôfo não demorou a reconhecer o óbvio: falou em derrota, assumiu culpas, focou em si a responsabilidade pelo resultado. A oposição interna ia comentando, durante a noite, que o resultado seria difícil de aguentar, por muito que Cafôfo já indicasse, durante a campanha, que não teria planos para deixar a liderança do partido. Mas também não os teria para perder como perdeu.

Acabou por admitir sair, anunciando que planeia convocar um congresso para depois das legislativas e das autárquicas — coloca o seu lugar à disposição, mas sem dizer que não se recandidata — mas irritou imediatamente a oposição interna: Carlos Pereira, principal nome da fação que o desafia, veio imediatamente dizer que o líder deveria “libertar” o partido. Na oposição ia começando a circular uma tese que agitará o partido: Cafôfo não terá, dizem os seus críticos, legitimidade para construir as listas do partido às próximas eleições que ocorrerão este ano.

As razões para a derrota de Cafôfo — tal como para a vitória reforçada de Albuquerque — poderão ter a ver com fatores que têm muito a ver com a realidade, e o sentimento, regional da Madeira. Por um lado, o que poderia ser um fator de desgaste claro — o envolvimento de Albuquerque em casos judiciais — foi desde logo explicado por Cafôfo, em entrevista ao Observador, como um fator que seria menos definidor para os madeirenses do que o facto de Albuquerque ter estado de férias em Porto Santo durante os incêndios do ano passado.

A tese de Cafôfo passava pela ideia de que o PSD-Madeira teria conseguido construir uma narrativa, que o próprio classificava como “bem conseguida”, em que retratava a operação policial do ano passado, com centenas de agentes a aterrarem na Madeira vindos do continente, como uma “cabala” não contra o PSD, mas contra a região. Ainda este domingo, Alberto João Jardim reforçava essa ideia: tudo se tratou de uma “operação colonialista” e uma “afronta” aos madeirenses. Segundo o próprio PS, a ideia terá resultado e agitado o sentimento regionalista.

Outro problema teria a ver com o próprio Cafôfo e também foi assumido pelo próprio. Na Madeira, na rua e nos partidos não havia quem falasse do líder do PS-Madeira sem mencionar um problema de “credibilidade” provocado por decisões como a saída da liderança do PS-Madeira, em 2021, tendo assumido (meses depois) o lugar de secretário de Estado do governo de António Costa. “Traição à Madeira”, iam comentando militantes do partido. Em entrevista ao Observador, admitiu ter cometido um “erro” quando se demitiu na sequência de o PS ter perdido a Câmara do Funchal. “Emocionalmente afetou-me, porque conquistei a câmara, e sei o que é que me custou conquistar, e construir um projeto na cidade do Funchal. Demiti-me do partido, saí da Assembleia Regional e regressei à minha atividade como professor. Sei que isso causou nas pessoas alguma desilusão”, contava.

Para Cafôfo, aceitar depois disto um lugar no governo nacional era uma honra; para parte do próprio partido, um abandono da Madeira. Daí que, durante esta noite, no PSD também já se convidasse o líder do PS-Madeira a voltar à Assembleia da República. A ideia de Cafôfo teria abandonado a Madeira não era esquecida — nem o PSD deixaria que fosse.

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O fenómeno JPP, que vai “vigiar” o PSD

Ainda assim, o maior inimigo e alvo do PSD na campanha acabou por ser o fenómeno JPP — o que se justificava, aparentemente, pelos resultados que teve. Élvio Sousa tinha dito ao Observador que sentia que alguma coisa andava no ar e que as sondagens não traduziam o sentimento que encontrava na rua, e esse dizia-lhe que ia crescer em número de deputados. O feeling estava certo: foi desta que o JPP passou para segunda força da Madeira, com onze representantes no parlamento regional.

Vitória maior só se conseguisse governar, mas Élvio, homem das citações — esta noite recorreu a uma frase do Papa Francisco — reconhecia rapidamente que os números não lhe permitiram lutar por isso. O plano até estava traçado — queria pedir tempo ao representante da República e sondar militantes e eleitores sobre as coligações a fazer — mas faltaram os votos aos partidos que poderiam entender-se consigo, nomeadamente o PS.

Por isso, nesta noite de festa o JPP já assumia o lugar que ocupará nos próximos tempos, e esse é o de principal força da oposição: prometeu montar “torres de vigia” pela Madeira toda para fiscalizar devidamente o PSD. O Chega perdia esse estatuto, saindo castigado da crise política que provocou e arredado do papel de “decisor”, uma vez que os seus deputados deixarão de ser necessários para formar maiorias. O PS saía derrotado, enfraquecido e dividido internamente. A Iniciativa Liberal mantinha-se com um lugar no parlamento regional, mas, a confirmar-se o acordo PSD-CDS, sem relevância para formar acordos. E os partidos mais à esquerda ficavam, mais uma vez, à porta (com o PAN a desaparecer).

O maior motivo para cantar vitória é mesmo de Miguel Albuquerque, que sai de um processo de convulsão interna e externa reconfirmado, reforçado e com uma oposição mais enfraquecida, exceto o JPP, provável adversário principal. E Albuquerque cantou essa vitória, feliz, pelas ruas do Funchal. Os próximos capítulos serão escritos, até ver, com um parlamento mais estável do que o dos últimos anos. A oposição precisará de se reorganizar.

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