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▲Abdulrazak Gurnah venceu o Prémio Nobel da Literatura em 2021

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Abdulrazak Gurnah venceu o Prémio Nobel da Literatura em 2021

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Abdulrazak Gurnah: “Porque ganhei o Nobel, pedem-me para falar sobre o mundo, mas seria tão bom falar só sobre livros”

"Gente da Casa" é o romance agora publicado em Portugal. Inspira-se numa história de injustiça e passa-se em Zanzibar, onde nasceu. Ao Observador falou da vida e da obra, não sobre o resto.

Durante muitos anos, quando poucos saberiam pronunciar-lhe o nome, Abdulrazak Gurnah desembarcava no aeroporto de Lisboa e apanhava um comboio em direção a Tomar. Era lá que vivia um dos irmãos e o escritor fez o percurso dezenas de vezes. “Não posso dizer que conheça Lisboa, sempre estive aqui de passagem”, admite ao Observador.

Desta vez, a estadia é mais prolongada. Depois de ter estado em Braga, onde participou no Festival Literário Utopia, os leitores têm oportunidade de estar com ele em Lisboa. Esta terça-feira, 18 de novembro, fará parte de uma conversa pública conduzida por José Mário Silva, às 18h30, na Biblioteca Palácio Galveias.

Gente da Casa (Theft na versão original) é o livro mais recente publicado em Portugal do vencedor do Prémio Nobel da Literatura, que lhe foi entregue em 2021 “pela forma determinada e humana com que aborda e aprofunda as consequências do colonialismo e o destino do refugiado no fosso entre culturas e continentes”, nas palavras da Academia Sueca. Embora tenha sido o quarto escritor negro galardoado em 120 anos, e o primeiro em mais de três décadas, Abdulrazak Gurnah resume de uma forma mais simplista a distinção. “É a Academia Sueca a dizer ao mundo: ‘Achamos que este tipo é bom’.”

Nasceu em 1948 em Zanzibar (atualmente Tanzânia) e, com a revolução, mudou-se para o Reino Unido nos anos 60 enquanto refugiado. Começou a escrever por ter saudades de casa, aos 20 poucos anos, e para lidar com o sentimento de pertença — ou falta dele. Essas anotações transformaram-se em pequenas histórias de ficção que deram origem ao primeiro livro, Memory of Departure (1987). Porém, admite, foi só ao publicar o quarto romance que sentiu que tinha o direito de dizer que era escritor. E não era para menos: Paraíso (1994) foi finalista dos prémios Booker e Whitbread (atual Costa).

Estabeleceu-se em Canterbury — para onde está desejoso de regressar porque, aos 76 anos, confessa que já não gosta muito de viajar —, deu aulas na Universidade de Kent e destacou-se por abordar, nas suas obras, temas como exílio, pertença, colonialismo e solidão, mas sobretudo por contar histórias de pessoas que não são ouvidas. São elas as protagonistas de Gente da Casa e é delas que Abdulrazak Gurnah quer falar. “Pedem-me muitas vezes para falar sobre o mundo, mas seria tão bom falar só sobre os livros”, desabafa.

▲ A capa de "Gente da Casa", de Abdulrazak Gurnah, editado pela Cavalo de Ferro

A história de Gente da Casa nasceu de uma memória pessoal: quando era mais novo, um jovem com a sua idade era criado numa casa vizinha e foi injustamente acusado de roubar algo. Nessa altura, sentiu imediatamente injustiça e impotência, ou só anos mais tarde é que revisitou esse episódio?
Na altura achei que aquilo estava errado. Parecia muito improvável que aquela pessoa tivesse feito o que foi acusada de fazer. Vi-o depois pelas ruas e perguntei-lhe o que tinha acontecido. Ele defendeu a inocência de uma forma que me convenceu.

As personagens não saem de Zanzibar, embora o façam nas suas cabeças, como Badar, que memoriza obsessivamente características de Londres apenas através do que vê no computador. A si, aconteceu-lhe o contrário. Disse numa entrevista que, apesar de viver em Inglaterra, na sua cabeça vivia em Zanzibar. Como é, na prática, estar fisicamente num sítio mas ter a mente constantemente noutro lugar?
Tenho uma mente complexa. Cheguei a dizer que pensava nisso a toda a hora, mas isso não significa o dia todo. O que acontece é que, a dada altura do dia, de uma forma ou de outra, seja porque vejo algo, seja porque estou a pensar em algo ou a ler algo, a minha mente volta para lá. Se isso fosse constante, não conseguiria ter uma vida normal, tenho também de estar presente onde estou para dar aulas, ir às compras, todas essas coisas que fazemos regularmente. Na verdade, não me parece que isto seja invulgar. Suspeito que provavelmente aconteça com a maioria das pessoas que se mudaram ou, se preferir, que foram deslocadas, especialmente se houver algum aspeto traumático envolvido ou se houver membros da família ou amigos que tenham ficado para trás. E depois há a questão das obrigações que nos atormentam: “Devia ter feito isto, devia ter dito aquilo, devia ter escrito a fulano, devia ter ligado a sicrano”. Existem fatores que fazem com que a ligação nunca se perca.

No seu caso, depois de sair de Zanzibar, nem sequer podia voltar a casa [foi à procura de melhores oportunidades na educação, mas também para fugir à opressão e perseguição sentida pelos cidadãos de origem árabe na sequência da revolução]. Esteve 17 anos sem regressar. Foi uma escolha ir embora, mas, ao mesmo tempo, não foi bem uma escolha.
Exato, não foi bem uma escolha. E aos 18 anos não se compreende realmente as implicações, a importância do que se está a fazer.

"Há uma razão para se dizer: 'Ah, ninguém escreve depois de ganhar o Prémio Nobel'. Se observarmos os laureados, muitos deles estão na casa dos 60 ou 70 anos, quase no fim das suas carreiras como escritores. Já escreveram tudo o que precisavam de escrever e, mesmo que não houvesse o prémio, se calhar já não teriam mais nada para dizer.”

Inspirou-se na própria experiência para criar as personagens deste livro?
Gosto dessa palavra, porque a experiência não é apenas a experiência do que vivi, do que vivo. Experiência é tudo. É a história de alguém de quem posso ouvir falar, algo que possa ler ou até algo que possa imaginar. Tudo isto faz parte da minha experiência, na qual me inspiro. Já dissemos que, em certa medida, Badar é como aquela figura que conheci, embora não conhecesse realmente a história dele. Por isso, precisava de dar a Badar algum tipo de história e, de certa forma, foi aí que o livro começou na minha cabeça. A primeira parte do livro que realmente escrevi foi aquela viagem de autocarro até à cidade, quando ele é enviado para a casa da patroa que vai servir. Depois de escrever esta parte, pensei: “Quem é a patroa”? Tinha de construir a personagem da patroa. Quando alguém tem este tipo de fardo que o Badar tem — é órfão, não conhece a família, é retirado da escola aos 14 anos para passar a ser criado —, como é que sai desta situação? Foi isso que a vida lhe impôs. Como é que ele segue em frente? Para onde vai? Ele não vai conseguir sozinho. Nenhum de nós consegue. Quando temos de resolver coisas destas, precisamos de compreensão, de uma pessoa bondosa, de encontrar alguém que nos dê a mão, etc. É assim que nasce o Karim, que também carrega os próprios fardos pela vida. Estava muito interessado na história de Badar e numa outra, mas não tinha a certeza de como poderia unir as duas.

Qual era a outra?
Tinha muito interesse pela epilepsia, em parte porque conheci alguém cujo filho nasceu com epilepsia. Os recursos médicos disponíveis hoje em dia fazem com que a epilepsia deixe de ser uma condição perigosa, pode ser tratada, mas perguntei-me como seria ser epilético num lugar como Zanzibar, que não tem os mesmos recursos, tanto quanto eu saiba, sobretudo naquela altura [anos 90]. Como lidariam com isso? Comecei então a ler e a pensar sobre o assunto e foi daí que surgiu a Fauzia.

Foi assim que construiu este livro? Respondendo a perguntas ou dificuldades que as personagens lhe foram apresentando?
Estas pessoas surgiram como resultado de uma questão que emergiu durante o processo de escrita. Pensei, por exemplo: “Como é que ela teria crescido com o fardo de uma mãe ansiosa?” e por aí fora. Portanto, eu tinha ali estas três pessoas, todas jovens, todas em fase de crescimento, todas com algum tipo de obstáculo na vida. Tive de responder à pergunta: “Como lidariam com isso”? E depois deixei-as crescer.

O que é que muda no seu processo de escrita de livro para livro?
Todos eles têm pequenas diferenças, mas normalmente começo com uma ideia central bem definida — neste caso, a injustiça — e isso gera outras questões. No caso de Vidas Seguintes, por exemplo, comecei por pensar em duas pessoas traumatizadas através das suas experiências. Depois, estas duas pessoas são, de alguma forma, capazes de oferecer uma à outra a compaixão e a bondade necessárias para superar o trauma e ter uma nova vida. Esse foi um dos pontos de partida. O outro foi o facto de querer escrever sobre aquele período histórico [1914] e a violência inerente. As narrativas, tanto quanto sei, tendem a ignorar esse período, a guerra 1914-1918 é um pouco negligenciada, mas não foi um evento pequeno. Mas, voltando à sua pergunta, cada livro exige um processo diferente de reflexão, leitura, construção, reconstrução e mais construção.

Quando começou a escrever, aos 20 e poucos anos, era apenas para si, não via a escrita como profissão. Como é que percebeu que podia, de facto, ser uma carreira?
A não ser à minha companheira, não contava a ninguém que estava a escrever. E mesmo depois de ter publicado vários livros, não me apresentava como escritor. Foi quando publiquei o quarto livro que me senti capaz, ainda que timidamente, de dizer que era escritor.

Sentia que não tinha esse direito?
Suponho que fosse isso. Só porque se publica um livro, não significa que sejamos escritores. Para começar, é preciso ter leitores. Depois temos de ter noção da viagem, do nosso destino, do propósito. Por outro lado, temos de ter a segurança de que as pessoas não vão rir-se de nós quando dissermos “sou escritor”, é mais fácil se tivermos à frente a evidência [aponta para a pilha de livros com o nome dele]. “Vejam, sou escritor.” Considero que é uma grande ambição poder dizer com convicção que é isso que sou. Mas isso pode dever-se ao lugar que a literatura ocupa na minha mente.

Qual é esse lugar?
É algo realmente nobre.

▲ Está a pensar no próximo livro, mas precisa de três meses sem distrações para organizar as ideias

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Disse que só com a publicação do quarto livro é que sentiu que tinha o direito de dizer que era escritor. As obras anteriores, mesmo que publicadas, foram escritas só para si?
Escrever para mim foi realmente o processo inicial e não era suposto ninguém ler.

Por ser demasiado pessoal?
E por achar que não valia a pena. Porque é que alguém iria querer saber do que eu estava a queixar-me, a pensar ou a tentar desvendar? Parte disso era culpa, parte era saudades de casa, parte era apenas o ato de gravar algo que ficaria ali para sempre. Vejo uma diferença entre escrever e escrever. Muitas pessoas escrevem da primeira forma que estou a descrever, escrevem por motivos pessoais.

É também uma forma de terapia?
Terapia, sim, e por vezes é também um prazer. Por vezes existe prazer na autocomiseração, que não é simplesmente fraqueza ou cedência, mas também uma forma de registar algo intenso que estamos a sentir. E chamamos a isto autocomiseração como forma de dizer: “Não faças isto, é uma fraqueza”. Mas, por vezes, quando nos sentimos tristes, magoados, sozinhos ou miseráveis, ou quando uma relação termina, escrevemos porque queremos registar a intensidade desse sentimento. E depois revisitamos o texto, lemos de novo e pensamos: “Uau, estava mesmo a sentir-me mal”. Há prazer nisso, há prazer na dor, há prazer em registar coisas destas. Porém, não pretendemos que ninguém veja isso. Abrimo-nos por completo porque ninguém, exceto nós, vai ver o que escrevemos. Quando estou a escrever ficção, por exemplo, já estou a escrever da segunda forma que estava a descrever, estou a escrever para outra pessoa ler.

E aí o processo é completamente diferente?
Completamente. Tenho de pensar de uma maneira diferente, tenho de pensar sobre o quanto devo dizer e o quanto não devo dizer. Como devo construir a mensagem? O que devo dizer em primeiro lugar? Será esta a maneira certa de expressá-la? É bonita? É bem dita? E assim sucessivamente. Se funcionar, suponho que lhe possamos chamar arte, porque não estamos apenas a registar, é algo que nos faz pensar de forma diferente. E, se tiver sorte, alguém vai ler isto.

Aos 76 anos, tem reconhecimento mundial, vários prémios, incluindo o Prémio Nobel da Literatura. Além desta distinção lhe ter aberto mercados [como o dos EUA que, até 2021, não tinha livros de Gurnah], consegue retirar alguma alegria do que veio com os prémios? Para algumas pessoas, uma experiência destas acaba por ser um fardo.
Posso dizer que é uma alegria e um grande prazer. Primeiro é um prémio da Academia Sueca e, segundo, tem impacto global, é a Academia Sueca a dizer ao mundo: “Achamos que este tipo é bom”. Para o autor, o prémio é importante porque traz mais leitores, novas edições e interesse. Por outro lado — e talvez seja aí que reside a dificuldade para quem considera isto um fardo —, consome-nos muito tempo. É preciso falar com jornalistas, coisa que praticamente não acontecia antes. Não é que seja desagradável, mas consome muito tempo. É preciso viajar quando há novas edições, participar em palestras, conversas e outros eventos. Não deixa de ser um prazer, mas impede-me de fazer outras coisas. Porque ganhei o Nobel, pedem-me para falar sobre o mundo, mas seria tão bom falar só sobre livros. Parece-me que há uma razão para se dizer: “Ah, ninguém escreve depois de ganhar o Prémio Nobel”. Se observarmos os laureados, muitos deles estão na casa dos 60 ou 70 anos, quase no fim das suas carreiras como escritores. Já escreveram tudo o que precisavam de escrever e, mesmo que não houvesse o prémio, se calhar já não teriam mais nada para dizer.

Querem aproveitar a reforma?
Sim, querem aproveitar a velhice e desfrutar da reforma como outra pessoa qualquer.

Há pouco dissemos que não íamos falar sobre o estado do mundo, mas quando se é escritor, é inevitável que o que o atormenta enquanto ser humano seja transferido para a escrita, não?
Escrevo sobre coisas que me interessam e me preocupam, claro. Mas, enquanto escritor, é importante não direcionar o leitor. Quando escrevo, não lhe estou a dizer o que deve fazer ou o que deve pensar. Escrevo da forma mais sincera possível sobre o que sei e o que penso. E isto é válido tanto para mim como escritor, como para mim como leitor. Quando leio, não leio porque quero que alguém me diga como pensar ou o que fazer sobre o assunto que estou a ler. Escrever e ler têm a ver com prazer, é como o envolvimento que sentimos ao ouvir música. Não ouvimos música porque queremos aprender, ouvimos porque nos dá prazer. Penso na escrita desta forma, num primeiro momento. À medida que lemos e refletimos, podemos perceber que concordamos com o que está ali escrito. “Acho que tem razão, mas não teria conseguido expressar exatamente da mesma forma que [o escritor] o fez.” Parte do prazer é precisamente concordar com o que alguém está a dizer. Naquele momento estamos a partilhar a nossa humanidade, por assim dizer. Fazemos parte de uma comunidade, eu e o escritor, e o mesmo acontecerá com outros que pensem da mesma forma. Podíamos também, até ali, não perceber aquele tema e passamos a expandir horizontes graças a informação nova. Todas estas coisas acontecem no processo de escrita. Penso na escrita desta forma porque é assim que leio.

"Quando nos sentimos tristes, magoados, sozinhos ou miseráveis, ou quando uma relação termina, escrevemos porque queremos registar a intensidade desse sentimento. E depois revisitamos o texto, lemos de novo e pensamos: 'Uau, estava mesmo a sentir-me mal". Há prazer na dor, em registar coisas destas'."

Um escritor também tem de ser um leitor voraz? O que gosta de ler?
Vorazmente.

Qualquer coisa?
Não é bem qualquer coisa, há certos assuntos que me atraem, mas não consigo descrevê-los com exatidão.

Como é que escolhe o próximo livro que vai ler?
Enquanto esperava por si, estava a olhar para ali [uma estante repleta de livros] e a pensar: “São versões portuguesas, mas reconheço alguns nomes. OK, [James] Baldwin, [Charles] Bukowski, Elizabeth Strout.” Mas depois vejo um que não conheço e paro: “Virginia Tangvald, nunca ouvi falar deste nome”.

Os Filhos do Mar Alto, esse livro conta uma história notável. O pai era um conhecido navegador norueguês cujas duas primeiras mulheres morreram de forma trágica no mar. Ela própria nasceu no barco e teve uma vida bastante traumática, que conta neste livro. É muito interessante.
Acabou de responder à sua pergunta. Acho que é assim que escolhemos o que ler. Nem precisava de ser jornalista, estamos aqui simplesmente a falar de livros, acaba de me contar uma história que me interessa e penso: “OK, vou ler este”.

Já leu obras de autores portugueses?
Conheço o Mia Couto, que é moçambicano, e até estivemos num evento juntos em Braga, e também o José Eduardo Agualusa, angolano. Estes são os escritores que escrevem em português e conheço. Historicamente também conheço Camões, mas nunca li nada.

Há pouco dizia que os escritores chegam a uma certa idade e já não têm nada para dizer. Acaba de lançar Gente da Casa. Depois disto, ainda tem coisas para dizer?
Às vezes penso que já escrevi o suficiente, outras vezes não. Estou a trabalhar em algo diferente, mas ao contrário do que acontecia antes, agora é difícil encontrar um período de tempo que não terá interrupções. Ao longo da minha carreira como escritor, lecionei na Universidade de Kent durante muitos anos e não conseguia nem queria escrever trabalhos académicos ou dar aulas ao mesmo tempo que escrevia ficção. Pensava sempre: “Não escreverei ficção até ter a certeza de que terei pelo menos três meses livres de trabalhos da universidade”. Portanto, ainda estou à espera que estes três meses cheguem [agora leciona uma cadeira de literatura num polo da Universidade de Nova Iorque em Abu Dhabi].

Três meses é um período curto. Escreve depressa?
Bom, até lá há escrita a acontecer na minha cabeça a toda a hora e também tenho apontamentos. O tempo real de escrita talvez seja de um ano, mas esses três meses servem para lançar o projeto, juntar as peças. Depois de estar em andamento, é muito mais fácil escrever.

Depois de todos estes anos a escrever inúmeras vezes sobre Zanzibar, como volta a acontecer no livro mais recente, nunca lhe passou pela cabeça regressar para viver lá?
Quando nos estabelecemos em algum sítio, construímos uma família, uma carreira, temos filhos, uma casa, fica cada vez mais complicado. Visito, mas não conseguiria mais do que isso. Agora tenho netos e não quero estar longe deles. O meu irmão que viveu em Portugal chegou a voltar para lá, embora não de forma permanente. Tinha uma casa em Tomar, outra em Sheffield e uma em Zanzibar. Era um homem muito inquieto, mas também não tinha família no sentido de não ter cônjuge ou filhos, o que lhe permitia ter essa vida. Tem filhos?

Sim.
Então percebe bem o que estou a dizer. Não podemos tomar uma decisão destas se tivermos de arrastar várias pessoas connosco. Quando temos raízes em algum lugar — e, no meu caso, construí-as desde os 18 anos —, é difícil abandoná-las. Aliás, nem faz sentido.

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