Álvaro Morte é o professor na “Casa de Papel”: “Quando era adolescente roubei umas coisas no centro comercial. Nunca me apanharam”” /premium

13 Julho 2019

Álvaro Morte estudou engenharia, foi professor na Finlândia e criou uma companhia de teatro. Mas foi a série "Casa de Papel" que o levou ao estrelato. “Que estranha é a vida”, diz ao Observador.

Quando “El profesor” ajeita brutamente, com o dedo indicador, os óculos de haste preta, sabemos que os nervos estão a apoderar-se dele. É um dos tiques marcantes da personagem que orquestrou o assalto mais conhecido da ficção da Netflix.

O professor é Sergio Marquina, um homem tímido e nervoso, mas de grande inteligência e método. Depois de ter passado uma infância problemática no hospital e de ter perdido o pai, passou anos a planear o maior assalto da história. Selecionou oito pessoas que não tinham nada a perder, vestiu-os de macacão vermelho e com máscaras de Salvador Dali e preparou-os para assaltarem a Casa da Moeda de Espanha.

Álvaro Morte é quem dá corpo e camadas à personagem. Em conversa por telefone com o Observador, a partir de Madrid, explica como o caminho foi longo e por vezes doloroso até aqui chegar. Identifica-se com a personagem no afinco e zelo em levar os planos adiante, mas diz-se mais expansivo e até atrevido na vida real. Regressa à “Casa de Papel” já no dia 19, com a estreia da terceira parte da série.

[Veja aqui o trailer da terceira parte de “Casa de Papel”]

Antes da “Casa de Papel” já tinha roubado alguma coisa na vida?
[Risos] Quando era adolescente, roubei umas coisas no centro comercial, pela adrenalina do “vão-me apanhar, vão-me apanhar!”. Felizmente, nunca me apanharam.

Também roubou o apelido “Morte” a uma amiga, verdade?
Sim, porque “Garcia” é um apelido muito comum e já existia um ator chamado “Álvaro Garcia”. Tinha de arranjar outro nome. De repente, apercebi-me de que o apelido desta minha amiga era “Morte” e gostei. Sei que, ao princípio, quando se ouve pela primeira vez, pode ter uma conotação um pouco tétrica. No entanto, após três ou quatro vezes já perde esse significado. Creio que soa muito bem.

Para esta terceira parte da “Casa de Papel”, há um novo assalto? O que é que já nos pode dizer?
Nesta terceira temporada vêm atrás de nós e o Rio é mesmo apanhado. Como somos uma família, não abandonamos ninguém no caminho. Temos de apoiar o Rio. Para o resgatar, vamos fazer o que sabemos fazer melhor: roubar. Tudo arranca com um assalto, sim.

Porque é que escolheram “Lisboa” para o novo nome da inspetora Raquel Morillo?
Sinceramente, não nos explicaram; mas também é verdade que é uma boa homenagem a todas pessoas que seguiram tão fielmente a série a partir de Portugal. Se tivéssemos de escolher um nome de personagem por cada cidade que nos viu, o grupo de assaltantes seria demasiado grande. Mas os portugueses são “nuestros hermanos”. Acho muito bonito haver uma personagem — ainda para mais tão querida como a inspetora — a chamar-se Lisboa. Pessoalmente, estou muito feliz porque adoro Portugal.

Conhece Portugal?
Não conheço muito, mas visitei Lisboa e Porto e fiquei logo apaixonado.

Ter tido um problema grave de saúde na vida real fê-lo compreender melhor a personagem, Sergio Marquina, um homem que esteve internado muitos anos durante a infância?
Sim. Sente-se o perigo muito próximo. Eu passei por um processo tumoral do qual saí, felizmente. Aprendi muitíssimo. Sergio Marquina é uma personagem que, em criança, passou muito tempo no hospital. Quando crio as personagens, tento sempre fazê-lo de um ponto de vista muito racional e tento que não tenham que ver comigo, mas a verdade é que às vezes, queiras ou não, há vivências que coincidem. Esta é uma delas.

"Nesta terceira temporada vêm atrás de nós e o Rio é mesmo apanhado. Como somos uma família, não abandonamos ninguém no caminho."

A 2 de maio de 2017 estreava-se “Casa de Papel”, produção do canal televisivo espanhol Antena 3. Escrita por Alex Pina, conta o plano (quase) perfeito para um assalto épico à Casa da Moeda espanhola e promete confundir moralmente os espectadores, levados a criar laços de afinidade com os assaltantes.

A construção das personagens foi um dos pontos fulcrais do sucesso da série, contam alguns dos principais atores, porque lhes ofereceram camadas e um equilíbrio por vezes difícil — mas inerente a todos os seres humanos — entre um lado bom e um lado mau.

Depois de se estrear, “Casa de Papel” levou apenas sete meses a ser comprada pela Netflix, a grande aliada na disseminação do conteúdo para lá da fronteira espanhola. Rapidamente se converteu na série de língua não-inglesa mais vista de sempre na plataforma de streaming. Em 2018, ganhou o Emmy Internacional de melhor série dramática e foi também desde o início de 2018 que os fãs começaram a ansiar por uma terceira parte, confirmada no final do ano.

"Acho muito bonito haver uma personagem — ainda para mais tão querida como a inspectora — a chamar-se Lisboa. Pessoalmente, estou muito feliz porque adoro Portugal"
Álvaro Morte

A quarta parte será a última da “Casa de Papel”?
Não sei. Estamos a gravá-la agora, já que gravamos à medida que recebemos os guiões. Não tenho ideia se haverá mais além da quarta.

A “Casa de Papel” é a prova de que Espanha pode fazer produções de qualidade?
Absolutamente. É uma das provas. Não só a “Casa de Papel”, como outras produções, estão a deixar o nível da produção espanhola bastante alto. Creio que agora a produção norte-americana e a produção do resto do mundo já não estão tão separadas. A “Casa de Papel” é uma das que põe em cima da mesa o princípio de que podemos fazer televisão tão boa como a americana.

A última vez que foi professor, antes da “Casa de Papel”, foi na Finlândia…
Verdade. Estive na Finlândia em duas ocasiões. A primeira foi enquanto aluno de intercâmbio e a segunda foi como professor adjunto de expressão dramática. E foi uma das experiências mais maravilhosas da minha vida.

O que aprendeu a viver num país nórdico?
É muito diferente. Aprendi sobre o compromisso com o trabalho, a meticulosidade, a aplicação daqueles estudantes e dos professores. Foram eles que me ensinaram, em primeira instância, ali, que o teatro é uma forma de viver. Eu tinha colegas aqui em Espanha que, enquanto estudavam artes dramáticas, também completavam outras carreiras por medo da falta de saídas profissionais. Os finlandeses achavam impossível ter tempo para estudar para além de artes dramáticas. Para eles, ser ator precisa de uma dedicação 24 horas por dia.

"Há que arranjar sempre tempo para fazer teatro", diz Álvaro Morte

Aos 44 anos, o ator natural de Cádiz, cidade no sul de Espanha, conta já com um longo currículo no cinema, na televisão e no teatro. Chegou a estudar engenharia de telecomunicações, mas foi em representação que acabou por se formar e fazer carreira. Na Finlândia foi por uns tempos professor e investigador de técnicas interpretativas, na Universidade de Tampere.

Em 2002 dava os primeiros passos na televisão, como bombeiro, em apenas dois episódios da série “Hospital Central”. Entre papéis principais e outros mais secundários na televisão, em 2012 Álvaro decide criar com a mulher a sua própria companhia de teatro. 300 Pistolas surge “do sonho” de oferecer fórmulas inovadoras aos clássicos do teatro, para que deixem de ser aborrecidos, conta-se na apresentação do site oficial. Aos 30 anos, o ator foi diagnosticado com um tumor maligno numa perna.

Com a personagem “Sergio Marquina”, na série “Casa de Papel”, Álvaro Morte foi conduzido ao reconhecimento esperado, a velocidade de lince, após muitos anos de trabalho. O processo de casting e de seleção demorou dois meses. O ator chegou mesmo a obrigar-se a estudar casos reais de pessoas que planearam assaltos.

"Os finlandeses achavam impossível ter tempo para estudar alguma coisa para além de artes dramáticas. Para eles, ser ator precisa de uma dedicação 24 horas por dia"
Álvaro Morte

O bombeiro que apareceu em apenas dois episódios de “Hospital Central” sabia que 15 anos depois ia ser protagonista da série em língua não-inglesa mais vista de sempre?
Bom… que estranha é a vida. Vamos para Madrid com a esperança de um dia podermos triunfar a protagonizar uma série de sucesso internacional. Quando chegamos a Madrid damo-nos conta da realidade de como tudo é difícil. Somos muitos com muito pouco trabalho. Aí, aceitamos que dificilmente nos vai tocar a nós e o que fazemos é tentar trabalhar de forma honesta, com calma, fazendo o melhor que conseguimos. Eventualmente um dia a sorte cai do nosso lado — depois de muitas provas, de muitas audições, de muitos castings — e alguém nos diz “Álvaro, vais ser El Profesor”.

Antes da “Casa de Papel” era difícil ganhar a vida como ator, em Espanha?
Sempre o foi e sempre o será. Agora, depois da “Casa de Papel”, tenho muita sorte porque tenho propostas de trabalho dentro e fora de Espanha. Sinto-me um sortudo. Mas ser ator em Espanha é algo muito difícil. Antes da série, trabalhei bastante e, quando não me ofereciam trabalho, dei trabalho a mim mesmo criando a 300 Pistolas, a minha companhia de teatro. Nesse sentido, estava… digamos que estava descansado. Não precisava de receber uma chamada para conseguir ter dinheiro ao final do mês.

E hoje há tempo para fazer teatro?
Há que arranjar sempre tempo para fazer teatro. Ando muito ocupado com as rodagens mas a 300 Pistolas é como se fosse um terceiro filho para mim. E não podemos abandonar os filhos.

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