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Andrew Roberts: “Churchill teria votado a favor do Brexit” /premium

Nova biografia monumental de Winston Churchill revela documentos e exalta o aristocrata que liderou o Reino Unido. O autor chegou a estar três dias de pijama em casa só para escrever um capítulo.

Era um narcisista, tinha opiniões racistas e imperialistas. Apesar da rejeição dos pais durante a infância, não era um homem depressivo e teve sempre o pai como referência. Assim se transformou num líder político “surpreendentemente moderno”. Eis o retrato de Winston Churchill (1874-1965) a pinceladas largas, feito pelo historiador Andrew Roberts.

De passagem por Lisboa para apresentar Churchill: Caminhando Com o Destino – versão portuguesa de Churchill: Walking With Destiny, um extraordinário tomo de 1160 páginas, com tradução portuguesa de Duarte Bárbara e edição de capa dura da Texto Editora –, o historiador respondeu às perguntas do Observador com paciência de diplomata, alguma ironia e um permanente sorriso nos lábios.

O livro saiu há um ano em Inglaterra e poucos o veem como apenas mais um volume sobre Churchill. Há até quem o compare às biografias de referência assinadas por Roy Jenkins ou Henry Pelling. O título cita a famosa passagem de Churchill sobre o momento em que tomou posse como primeiro-ministro do Reino Unido, em 1940, quando Hitler invadiu a França e o Benelux. “Senti-me a caminhar com o destino”, escreveu o estadista.

Entre as novidades do livro conta-se desde logo o acesso a novas fontes de informação, sobretudo arquivos oficiais – o que alguns dizem ser pouco relevante. Esses elementos inéditos expõem os defeitos do líder e confirmam a grandeza do homem, segundo o autor.

Nascido em Londres há 56 anos, Andrew Roberts é professor no King’s College de Londres e presença assídua na televisão, principalmente para comentar a família real britânica. Identifica-se como monárquico e conservador de direita. Admira Margaret Thatcher e apoia Boris Johnson e a saída do Reino Unido da União Europeia – aliás, acha que Churchill também apoiaria.

Escreve há três décadas sobre o aristocrata que conduziu os destinos do Reino Unido durante a II Guerra Mundial, e também já biografou Napoleão e Hitler. Diz que a história não se faz apenas de grandes figuras e rejeita a abordagem marxista, que classifica como uma “falsificação”.

“Churchill: Caminhando com o Destino”, de Andrew Roberts (Texto Editora)

Deseja que o livro se transforme na biografia de referência de Churchill?
Não me compete dizer isso. Muitos jornais dizem que é a melhor biografia de Churchill de um só volume alguma vez escrita. Quem sou eu para os contradizer?

Um crítico da revista Spectator, o historiador Philip Ziegler, escreveu que o mérito do livro está na interpretação do autor e não tanto nas novidades que revela. Como é que comenta?
Não concordo, ou só concordo com a parte elogiosa. Há inúmeras novidades no livro. A rainha de Inglaterra autorizou-me a ser o primeiro biógrafo de Churchill a consultar os diários do seu pai, Jorge VI. O rei reunia-se com Churchill no palácio de Buckingham todas as terças-feiras durante o período da II Guerra Mundial. Churchill confiou ao rei o que pensava e os factos mais significativos de então. Felizmente, o rei tomou nota de tudo. Esta é uma das fontes que revelo. Além disso, consultei 41 conjuntos de documentos depositados nos arquivos da Universidade Cambridge, que Churchill frequentou, consultei os diários do período da guerra escritos pela filha de Churchill, Mary Soames, e os diários do embaixador da União Soviética. Muitas fontes. Não me parece justo dizerem que não há novidades. Na segunda parte do livro, quase todas as páginas contêm elementos que nunca tinham aparecido numa biografia de Churchill.

Como é que teve acesso a esses arquivos e porque é que eles nunca tinham sido consultados?
Persistência, penso eu, mas também uma boa dose de sorte. Os historiadores têm de ter sorte, tal como os generais de Napoleão. Houve aqui uma dose de casualidade. Andei à procura e perguntei. Provavelmente, outros biógrafos nunca pediram ou nunca pensaram consultar certos documentos.

Quantos anos demorou a investigação e a escrita?
Como sabe, escrevo livros sobre Churchill há 30 anos, diretamente sobre ele ou sobre pessoas e acontecimentos relacionados. Este é o quinto. Estou sempre à procura de novas fontes. Antes de assinar o contrato para este volume, já tinha tentado aceder aos arquivos reais, mas não autorizaram. Só na fase final do processo de escrita é que veio a autorização. Sinceramente, penso que aconteceu isto: os arquivos estavam fechados há 75 anos, um longo período, mas, como não revelam nada que dê uma má imagem de Jorge VI, o secretário pessoal da rainha entendeu que seria boa ideia abri-los à consulta. É preferível ter estes arquivos estudados por historiadores sérios do que por jornalistas do Guardian, ou de outro jornal, que iriam criar notícias sensacionalistas em torno do conteúdo.

"É uma figura surpreendentemente moderna, tinha muitas características ainda hoje atuais, mas já pouco presentes: os princípios, o estilo de liderança, o sentido de humor. Se ele nos aparecesse agora à frente e se sentasse aqui a falar connosco, não sentiríamos a menor estranheza."

Os jornalistas do Guardian não são conhecidos por notícias sensacionalistas.
Penso que são, penso que são. É o exemplo clássico do jornal republicano de esquerda. Se o Guardian tivesse acesso aos diários do rei, apenas se preocuparia em encontrar elementos que pudessem afetar a imagem da família real, em vez de elementos importantes relativos à II Guerra Mundial.

O seu livro contradiz a ideia de que mais uma biografia de Churchill não traz nada de novo e que já tudo foi escrito e estudado?
Essa ideia é completamente falsa. Mais do que novas interpretações, acho que há novas fontes, isso é que é relevante. Há mais de mil biografias de Winston Churchill e esta não é certamente uma tentativa vã de escrever mais uma. O melhor que um historiador pode desejar é isso mesmo: dizer coisas novas.

Escreve que Churchill acreditava podermos elevar-nos acima de qualquer circunstância e transformar a nossa vida de uma forma magnífica. É um bom resumo da vida dele?
Se tiver de resumir as mais de mil páginas do livro numa frase, essa serve perfeitamente. Ele deixou-nos várias lições de vida, independentemente da II Guerra, de Hitler, da década de 1940. Cometeu erros, muitos erros, mas aprendeu com todos.

Erros enquanto oficial do exército ou como primeiro-ministro?
Especialmente enquanto político, mas também antes. Era contra o direito das mulheres ao voto e tem no currículo a catástrofe da Campanha de Galípoli. São apenas dois exemplos. Cometeu muitos erros, mas aprendeu. Com Galípoli aprendeu a nunca desautorizar os chefes de gabinete. Já durante a II Guerra, quando os chefes de gabinete discordaram dele, Churchill nunca os desautorizou, mesmo sabendo que tinha o direito constitucional de o fazer, quer como ministro da Defesa quer como primeiro-ministro. É uma figura surpreendentemente moderna, tinha muitas características ainda hoje atuais, mas já pouco presentes: os princípios, o estilo de liderança, o sentido de humor. Se ele nos aparecesse agora à frente e se sentasse aqui a falar connosco, não sentiríamos a menor estranheza.

Churchill com Truman e Estaline na conferência de Potsdam

Concorda que é mais fácil alguém de classe social privilegiada elevar-se acima das circunstâncias?
É verdade que ele tinha esse contexto familiar de privilégio, mas acho que poucos gostariam de trocar a sua própria infância por aquela que coube a Churchill. O pai sempre o rejeitou e escreveu-lhe cartas que nenhum pai deve escrever a um filho. A mãe ignorou-o completamente. Quando Churchill tinha nove anos, a mãe esteve com ele durante apenas nove horas num período de seis meses. Era uma ótima figura da alta sociedade, mas terrível enquanto mãe. Ele tinha o conforto de não ter de pensar se amanhã teria comida na mesa, mas a nível psicológico teve o problema de uns pais que o ignoravam e rejeitavam. Parece-me uma infância pouco saudável. E, no entanto, Churchill ultrapassou isso, nunca deixou que a falta de afeto o perturbasse. Quando o pai morreu, em 1895, tinha Churchill 20 anos, adotou a retórica e as opiniões políticas do pai. Em certa medida, a vida de Churchill pode ser entendida como uma tentativa de impressionar o fantasma do pai.

Conta que Churchill tinha 73 anos quando pela primeira vez pegou num telefone para fazer uma chamada. O que é que este pequeno episódio nos diz sobre ele?
Que vivia num mundo de privilégios.

Era um narcisista?
Não mais do que qualquer outro político. Um tímido ensimesmado não vai para a política. Mas, sim, Churchill tinha um ego muito forte. Precisava de ter.

Sobre as acusações de racismo, escreve que é preciso ter em conta que Churchill foi criado numa época em que a própria ciência e o “establishment” fomentavam a ideia de supremacia racial. Um crítico do Guardian escreveu que os preconceitos de Churchill são airosamente descartados por si na biografia.
Completamente falso. Abordo todos os preconceitos, tenho seis páginas de explicações sobre o papel dele na fome em Bengala, em 1942-43, e mostro que as alegações são falsas. Quando ele nasceu, Charles Darwin ainda estava vivo e as pessoas acreditavam numa hierarquia de raças, o que hoje sabemos ser obsceno e absurdo. Naquela época, essa hierarquia era um facto científico. Churchill acreditava no império britânico, sim, mas sobretudo achava que os britânicos tinham um papel civilizador junto das colónias, algo completamente diferente do tipo de racismo defendido por Hitler, que queria escravizar os eslavos.

"Não tinha qualquer desequilíbrio psiquiátrico que o tornasse depressivo. Ficou deprimido em alguns momentos, na Campanha de Galípoli ou na queda de Singapura em 1942, momentos em qualquer líder político poderia ir-se abaixo. Churchill viveu sobretudo convencido de que estava predestinado."

Pode-se dizer que o grau de racismo não importa: ou se é racista ou não se é racista.
Não acredito nisso. Quem pensa que é superior e quer, por causa disso, melhorar a vida dos que considera inferiores assume uma posição totalmente diferente daquela de quem escraviza e mata os que acha inferiores.

Churchill nunca evoluiu neste aspeto?
Penso que muitos trabalhos que questionaram o racismo são da segunda metade do século XX e nessa altura Churchill já estava no fim da vida, não creio que tenha acompanhado a mudança de pensamento.

Era um homem depressivo?
Isso é um mito. Não tinha qualquer desequilíbrio psiquiátrico que o tornasse depressivo. Ficou deprimido em alguns momentos, na Campanha de Galípoli ou na queda de Singapura em 1942, momentos em que qualquer líder político poderia ir-se abaixo. Churchill viveu sobretudo convencido de que estava predestinado, daí o título do livro, que parte de uma frase dele. Acreditava que salvaria o país e o império. No que toca ao império, enganou-se, como se sabe.

Tinha a mania das grandezas?
Bem, nasceu no maior palácio de Inglaterra [Bleinheim, no condado de Oxfordshire], um palácio que até a família real invejava, e o nome de família carregava uma história.

Essa megalomania beneficiou-o ou prejudicou-o?
Foi ensinado nesse sentido. Frequentou o colégio de Harrow, em Londres, onde ensinavam aos rapazes que tinham de dar continuidade aos grandes feitos de antigos alunos, que tinham sido destacados militares e exploradores. Quando se tornou oficial do exército, no contexto vitoriano, manteve esse sentido de grandeza. Mas não era um snob, não se considerava melhor que os outros.

O autor, Andrew Roberts

Terá dito “sou arrogante, mas não sou snob”.
Exatamente. Era arrogante, achava-se uma pessoa fora de série, mas isso também eu acho sobre mim. Não há problema. Quando olhamos para o núcleo chegado de amigos, oito em dez eram da classe média ou média-baixa. Só dois eram aristocratas como ele.

Além de Churchill, já biografou Hitler e Napoleão. Acredita numa história feita de grandes figuras?
Acredito que existem grandes líderes e é impossível retirá-los da história, mas também acredito que a história é mais do que a vida de grandes homens e mulheres. A história faz-se de milhões de pessoas em interação ao longo de milhares de anos. Não concordo é com o conceito marxista de que as grandes figuras não importam ou nem existem. Não consigo olhar para a II Guerra sem ter em conta onde estava e como agiu Winston Churchill. A história segue o seu curso e muitas vezes altera-se subitamente por influência de grandes figuras.

Que designação tem essa abordagem?
Diria que é uma interpretação conservadora da história, muito mais sensata do que a visão de que a humanidade caminha inexoravelmente para um plano de felicidade e bem-estar. A Revolução Russa ou Auschwitz provam que essa visão é absurda. Não aceito a proposta marxista do materialismo dialético e da ditadura do proletariado, etc. Parece-me uma falsificação. A interpretação conservadora estabelece que o quotidiano é interrompido por figuras como Churchill, De Gaulle, Estaline ou Hitler, que mudam totalmente o curso dos acontecimentos. Já agora: acabei de inventar o conceito “interpretação conservadora”.

Como é o seu método de trabalho?
É de loucos, porque nunca trabalho com assistentes, faço a investigação toda sozinho. Tenho pânico de trabalhar com um assistente preguiçoso que me entregue material plagiado. Depois aparece num livro meu e a responsabilidade pelo plágio é minha. Já aconteceu com muitos historiadores respeitáveis.

"Sabemos que ele foi um dos mentores do projeto europeu e cunhou a expressão Estados Unidos da Europa, porque não queria que a França e Alemanha voltassem à guerra. Agora, nunca quis que o Reino Unido fizesse parte do projeto europeu."

A parte da escrita como é?
Primeiro, faço uma cronologia, desde o nascimento da personalidade até à morte, depois começo a preencher com factos relevantes. A seguir, introduzo centenas de ficheiros com diversos elementos sobre esses factos. Começo a trabalhar por volta das cinco da manhã, porque me permite estar horas a escrever sem telefonemas e distrações. Depois, tomo um duche e o pequeno-almoço e vou para o trabalho. Como pouco ao almoço e a seguir faço uma sesta à moda de Churchill, durante uma hora, o que me revitaliza. Às cinco da tarde, bebo um Redbull. Neste registo, consigo escrever 5 mil palavras por dia [cerca de 30 mil caracteres].  Este livro, por exemplo, demorou 100 dias a escrever. A minha mulher diz que ao décimo capítulo passei três dias de pijama a escrever e sem tomar banho. Ela está convencida de que isto aconteceu mesmo.

É verdade que tem retratos de Margaret Thatcher ao pé da cama?
Tenho uma fotografia assinada por ela junto ao computador, na secretária de trabalho. Nada no quarto. Acho que a minha mulher não gostaria de ver fotos de outras mulheres no quarto.

Pensa que Churchill teria apoiado o Brexit?
A filha dele, Mary Soames, disse-me uma vez que nunca devemos presumir o que é que o pai dela teria decidido sobre o que quer que seja. Mais ainda num tema como este, que se coloca meio século depois da morte de Churchill. Mas estou convencido de que teria votado a favor do Brexit. Sabemos que ele foi um dos mentores do projeto europeu e cunhou a expressão Estados Unidos da Europa, porque não queria que a França e Alemanha voltassem à guerra. Agora, nunca quis que o Reino Unido fizesse parte do projeto europeu. Enquanto primeiro-ministro, da segunda vez, não fez nada para que o Tratado de Roma incluísse o Reino Unido. Sempre privilegiou a relação com os EUA e a Commonwealth.

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