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Andrew Tatarsky fotografado na Fundação Calouste Gulbenkian, onde participa no É um Congresso da associação CRESCER
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▲Andrew Tatarsky fotografado na Fundação Calouste Gulbenkian, onde participa no É um Congresso da associação CRESCER

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Andrew Tatarsky fotografado na Fundação Calouste Gulbenkian, onde participa no É um Congresso da associação CRESCER

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Andrew Tatarsky: "A abstinência é uma pré-condição para aceder ao tratamento da adicção. Mas penso que essa abordagem falhou"

Psicólogo norte-americano com 40 anos de experiência, valoriza tanto a relação criada entre os adictos e a abstinência como aquela entre eles e o consumo moderado das substâncias.

Há 40 anos que Andrew Tatarsky, psicólogo e escritor norte-americano, trabalha com pessoas adictas ao álcool e substâncias. Doutorado em psicologia clínica e membro dos painéis médicos do gabinete de serviços e apoio à adicção do estado de Nova Iorque, uma má experiência vivida aos 15 anos ditou o seu percurso profissional e a criação de um novo método: a Psicoterapia Integrativa de Redução de Riscos.

Neste tipo de tratamentos, a abstinência não é uma pré-condição e o consumo moderado de substâncias é aceite. Apesar da falta de estudos à larga escala que o comprovem, Andrew Tatarsky garante que muitas pessoas acabam por parar de consumir, e que não se verificam overdoses.

A Redução de Riscos não é uma abordagem desconhecida em Portugal: em 2019, o Porto acolheu uma conferência sobre o tema em que Andrew Tatarsky participou e todos os meses, o psicólogo faz uma sessão em que participam clínicos portugueses. Este ano, marcou presença no É Um Congresso, Housing First & Harm Reduction, organizado pela associação CRESCER, que ajuda pessoas em situação de vulnerabilidade há 24 anos e é responsável pelo projeto Housing First, que apoia pessoas em situação sem-abrigo.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O que é a Psicoterapia Integrativa de Redução de Riscos e como ajuda as pessoas com comportamentos de risco e aditivos?
É a minha maneira de aplicar os princípios da redução de riscos à prática clínica, e uma mudança na forma como entendemos o modelo prevalente de entender e tratar a adicção. Este vê a adicção como doença, com uma abordagem de que um método dá para todos e que requer a abstinência como a única medida de sucesso. O compromisso com a abstinência também é visto como uma pré-condição de acesso ao tratamento. E o meu ponto de vista é que essa abordagem predominante falhou em ajudar a maioria das pessoas porque se baseia no entendimento errado da adicção. Não responde à complexidade das realidades das pessoas que lutam com o consumo de substâncias. O que a Psicoterapia Integrativa de Redução de Riscos faz é focar-se em ajudar as pessoas a clarificar o significado e a função que o consumo de substâncias tem nas suas vidas, bem como apoiá-las a identificar o risco e a desenvolver mudanças comportamentais que reduzam o risco e introduz a mindfulness, que lhes permite ficarem mais conscientes do momento presente. Ajuda a dissipar a vergonha, a culpa, a autocrítica. Estes princípios são uma base para criar relações de ajuda que criem segurança e união para desenvolver confiança, e um espaço para ajudar pessoas a clarificarem as suas verdades.

É uma abordagem muito individual…
Muito e é sobre colaborar e dar poder [à pessoa] em vez de presumir e ditar qual deve ser a abordagem no tratamento. Se pensarmos em começar onde as pessoas estão, é uma mudança radical quanto à velha abordagem. Altera a dinâmica de poder ao ajudar as pessoas a reclamar a sua dignidade.

Se pensarmos em começar onde as pessoas estão, é uma mudança radical quanto à velha abordagem
Andrew Tatarsky, psicólogo norte-americano

Mas se a abstinência acaba por não ser o objetivo final, como se equilibra a intervenção com o consumo?
Primeiro que tudo, penso que a maioria das pessoas que lutam com o consumo problemático de substâncias ou outros comportamentos arriscados ou prejudiciais chegam a um ponto em que ficam preocupadas com o seu comportamento. A maioria não sabe qual é a relação ideal com esses comportamentos ou substâncias e, por isso, quando no início se pergunta a alguém, “está comprometido a parar ou moderar”, ou “a consumir de forma mais segura”, as pessoas ficam apenas confusas. Precisam de um lugar onde começar o processo, e nele, parte do objetivo é clarificar com o tempo essa relação mais saudável [com o consumo de substâncias], quer seja a abstinência ou a moderação. Mas é importante as pessoas entenderem que a abordagem da redução de riscos não é contrária à abstinência.

Como assim?
Se o nosso objetivo é apoiar as pessoas a perceber qual é a sua relação mais saudável com aquela substância, para muitas parar de consumir é esse objetivo ideal. Mas muitas pessoas não chegam lá. Já se as pessoas estão a considerar, posso ir de consumo caótico a consumo moderado, esta é uma pergunta em que queremos apoiar as pessoas a responderem por elas próprias. Através do processo terapêutico, as pessoas podem experimentar através desse processo o que é realista para elas. Trata-se de a pessoa descobrir o que é ideal a partir da própria experiência, em vez de ter alguém a ditá-lo de fora.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

É retirada a barreira da abstinência?
A abordagem da redução de riscos convida as pessoas a começar um processo terapêutico quando estiverem prontas a começá-lo. Há um modelo muito valioso, as fases da mudança… Norcross, Prochaska e DiClemente foram os três investigadores que estudaram pessoas que lutaram com comportamentos problemáticos e tiveram sucesso a conseguir mudanças positivas. E identificaram uma série de fases motivacionais. Na primeira, a pré-contemplação, as pessoas não identificam o problema ou até o veem como uma solução. Por exemplo, se uma pessoa sem-abrigo pensa que beber álcool a ajuda a lidar com o terror de ser sem-abrigo, não o vê como problema. Mas quando o identifica como tal, vai para a fase da contemplação.

O que ocorre nesse ponto?
É quando as pessoas estão cientes de que existe um problema, mas sentem-se ambivalentes, não estão certas da natureza do problema, do que devem fazer, das possibilidades para mudar. Penso que é na contemplação que se encontra a maior parte das pessoas que lutam com o consumo problemático de substâncias. E é aí que devemos juntar-nos a elas e convidá-las a entrar [no processo terapêutico]. Quando as pessoas já identificaram o problema e querem mudar, passam a um estado de pré-ação e preparação. Sabem que querem limitar os consumos, consumir de forma mais segura ou parar, mas como o fazem? A ideia da Psicoterapia Integrativa de Redução de Riscos é convidá-los para isso sem pré-condições. Sem barreiras.

É importante as pessoas entenderem que a abordagem da redução de riscos não é contrária à abstinência
Andrew Tatarsky, psicólogo norte-americano

A psicoterapia feita com uma pessoa em abstinência e a feita com alguém que ainda consome são diferentes uma da outra?
A abordagem terapêutica é a mesma: o foco particular nos assuntos específicos é que é diferente. E levou-me a criar um mapa com nove tarefas terapêuticas, que se apoiam umas nas outras. A terapia nunca é linear. Quando me pergunto, “hoje o que traz esta pessoa à sessão”? “Em que me preciso de focar?” As tarefas ajudam-me. A primeira passa por criar segurança e uma aliança, baseada em reconhecer dignidade à pessoa; de seguida, desenvolver uma relação curativa; a terceira é aumentar a capacidade das pessoas se autoregularem, de gerirem os sentimentos desconfortáveis que as possam levar ao consumo; depois, recorrer à mindfulness para poder refletir sobre o impulso que leva ao comportamento aditivo; em quinto lugar, avaliar o comportamento e dar-lhe significado; de seguida, abraçar a ambivalência, porque em muitos dos tratamentos tradicionais só se fala do porquê de se querer parar, mas não se fala da parte da pessoa que adora ficar sob o efeito de substâncias, parte que também tem que ser respeitada no processo terapêutico; em sétimo, estabelecer objetivos de redução de riscos, porque se eu bebo para gerir a ansiedade, posso desenvolver outros meios de compreender, resolver, gerir esse sentimento; depois, criar uma estratégia para chegar aos objetivos; e finalmente gerir a contratransferência [os sentimentos de empatia por que passa o terapeuta quanto ao paciente durante o processo terapêutico].

O processo de tratamento tem uma duração? Ou o psicólogo pode acompanhar o paciente toda a vida?
Bem, se for possível… Mas o processo de terapia pode acontecer numa sessão: pode haver uma interação que crie este tipo de nova experiência relacional, sobre a qual a pessoa possa não ser capaz de agir naquele momento. Mas com o tempo, isso pode levar a um envolvimento. Este trabalho é altamente individualizado. Estou disposto a trabalhar com as pessoas da forma mais flexível possível. Trabalho com algumas há anos. Outras, vejo uma vez por mês.

E como define o que é o uso moderado de substâncias?
Penso que isso é definido pelo indivíduo. O que podemos dizer é que há medidas objetivas de consumo problemático, mas esse consumo precisa de ser realmente definido pela pessoa. Penso que em geral, o consumo moderado é o que não é problemático, e um objetivo de redução de risco: um padrão de uso que maximize o benefício e minimize o malefício ou o risco. É uma definição desafiante, porque leva o indivíduo a pensar quais são os benefícios que está a obter e que quer manter. Qual é a motivação para continuar a querer consumir? E quais são os riscos que quer minimizar? E trabalha nisso para desenvolver o que eu chamo de um plano ideal de consumo. Algumas pessoas reconhecem que os benefícios são maximizados ao não consumir de todo. Podemos criar um plano de consumo ideal, e experimentar na vida real. Ver como funciona ou não, voltar e afinar o plano ao longo do tempo.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas quais são as taxas de sucesso deste método?
Infelizmente não existe um estudo empírico à larga escala. Mas eu fundei e liderei o Center for Optimal Living em Nova Iorque, que se baseava na Psicoterapia Integrativa de Redução de Riscos, durante 12 anos. Foi uma experiência porque não sabia como iria reagir a comunidade. Chegámos a ter 300 pacientes ao mesmo tempo e durante esse tempo, tratámos com sucesso milhares de pessoas. Não tivemos overdoses. Estávamos a trabalhar com consumidores ativos de droga envolvidos num consumo de risco. Tivemos zero overdoses entre milhares de pacientes. São dados tremendos.

Consumo moderado é uma definição desafiante, porque leva o indivíduo a pensar quais são os benefícios que está a obter e que quer manter. Qual é a motivação para continuar a querer consumir? E quais são os riscos que quer minimizar?
Andrew Tatarsky, psicólogo norte-americano

E este método surge de um lugar muito pessoal relacionado com uma experiência de quando tinha 15 anos, correto?
Entrei no campo da adição logo a seguir ao internato médico. Durante os primeiros oito anos, trabalhei em tratamentos baseados na abstinência e vi em primeira mão que não estávamos a ajudar a maioria das pessoas que nos procuravam. Foi trabalhar com consumidores que me inspirou a quebrar as regras. Quando telefonei ao Alan Marlatt, ele disse-me que eu estava a fazer redução de riscos e foi isso que em 1994, me colocou na direção do desenvolvimento deste trabalho. Mas há cerca de 15 anos, durante a minha própria terapia, fiz uma ligação a uma experiência por que passei quando tinha 15 anos, e de que me tinha desassociado.

O que aconteceu quando tinha 15 anos?
Acabei por chamar-lhe trauma de tratamento. Eu consumi substâncias, na maioria canábis e LSD, quando tinha 13 ou 14 anos. Fazia-o por razões muito complexas que só entendi muito mais tarde, relacionadas com traumas anteriores e com ser criança nos anos 60. Diverti-me muito e tive experiências significativas, mas também passei por más viagens de LSD. E por isso, concordei em ir para uma comunidade terapêutica, não-residencial, que pensei que me poderia ajudar a distanciar-me das drogas e a manter-me seguro. E a certo ponto, durante os dez meses que lá passei, quebrei uma regra e o que tinha sido uma comunidade muito solidária mudou para uma espécie de inferno. Tornei-me alvo de ataques tremendos, abusos verbais, humilhação e traumatizou-me muito. Tentei encontrar a minha voz e ripostar, e acabaram por aparecer mais pessoas que me atingiram. Fui colocado no meio de salas e abusado verbalmente. Dez meses depois, deixei o programa. Tinha-me voluntariado, e deixei-o para trás. E comecei a ter aulas num liceu novo e pela primeira vez, apesar de ter sido um óptimo estudante, não me conseguia concentrar. Acabei por desistir da escola, mas encontrei outros lugares seguros para voltar ao bom caminho.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

E acabou por dedicar-se ao estudo das dependências.
Sim, e percebi muitos anos depois que aquele trauma me levou inconscientemente para este campo. Sensibilizou-me para o que estava errado e inspirou-me a esta maneira alternativa de ajudar e que em vez de se basear no controlo, humilhação, castigo, se baseia no contrário: nas pessoas, compaixão, empatia, respeito. São essas as condições que realmente apoiam as pessoas em curar-se, crescer, e sentirem-se esperançosas e passarem por uma mudança positiva nas suas vidas.

Qual é o seu sonho?
A minha missão tem sido tornar a Psicoterapia Integrativa de Redução de Riscos no padrão de abordagem para tratar a adicção em todo o mundo. E apoiar pessoas a fazer trabalho de redução de riscos, através de formação, consultoria, apoio, com psicólogos e através de programas. Esse tem sido o meu foco.

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